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Archive for the ‘Cinema’ Category

Late Bloomers [2]

Nymphomaniac

5.Nimphomaniac

Uma coisa que é preciso deixar claro antes de mais nada é que não existe essa baboseira de “volume 1” e “volume 2”. O último Lars von Trier foi cortado em duas partes, ponha-se fé no disclaimer, porque provavelmente o povo não toparia 5 horas consecutivas. Pois, dane-se isso. É um crime distribui-lo separadamente, já que uma coisa não faz sentido sem a outra. Ninfomaníaca só pode ser lido como uma unidade; se o separássemos, teríamos um longa ridículo sem nenhum propósito e outro, decididamente melhor, mas francamente enfraquecido em razão da falta de contexto. A narradora Charlotte Gainsbourg e seu atento ouvinte, Stellan Skarsgaard, desenvolvem uma relação peculiar, que culmina com um final inesperado, o qual perde muito de sua envergadura sem que as partes do todo estejam acopladas, até porque é esse final que dá sentido ao desenrolar das historietas de Gainsbourg. Assim, o filme-ensaio de Von Trier, bem aos moldes daqueles filmes – no melhor sentido da expressão – “pedagógicos” de Godard assemelha-se, em termos de estrutura, a um romance. Há uma tese a ser desenvolvida. Ela não está clara a princípio. A cada episódio, a cada personagem diferente que passa pela vida de Gainsbourg, a cada passo de sua jornada sexual, ela vai sendo construída. Ao final, está montada, e pode-se melhor apreciar o passo a passo. Lars Von Trier é um obsessivo estudioso da natureza humana. Ele não se surpreende com a humanidade, e também não a julga. Já houve quem dissesse que o sexo foi a maior peça que Deus pregou nos homens. No universo de Ninfomaníaca, quanto mais bizarra a tara, maior a graça que ele tira dela. No fundo, o filme é uma comédia. Mas uma comédia que promete – e cumpre – tratar suas marionetes e seus espectadores com o devido respeito. Nunca vi, e creio que isso não valha apenas para o cinema, uma abordagem tão crua, tão honesta e tão digna sobre o drama da pedofilia, no breve episódio que aborda o tema. A discussão é conduzida sem maniqueísmos, sem condescendência, sem concessões. Mas a Gainsbourg de Lars von Trier só poderá ter reconhecido isso e demonstrar compaixão ao outro depois que já tiver passado por sua via-crúcis. Essa mesma compaixão não é artigo abundante no mercado do próximo, do bem-intencionado. Estranho como o cineasta dinamarquês logra uma vez mais ser tão religioso por meios tão amorais.

 

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4.Gone Girl [Garota Exemplar]

David Fincher é decididamente um realizador instigante. Seu último longa foi um dos que, durante o ano, mais me fez pensar; sigo tentando digeri-lo. Seus filmes revelam uma capciosa obsessão pela psicopatia, que, no que tem de essencial, mais revela curiosidade do que qualquer outra coisa. A psicopatia é um tema, de fato, extremamente atraente, parecendo reunir em si um dos pares mais antigos da história do pensamento humano, uma das dualidades que aparece com mais eloqüência nas obras de Fincher: natureza e cultura. Fincher é, sobretudo, um humanista. Talvez não haja nenhum filme que deixo isso tão claro quanto O Curioso Caso de Benjamin Button, no qual o diretor decide confrontar o homem com seu inimigo mais íntimo: o tempo. Se esse humanismo parece por vezes assumir feições macabras, e até sádicas, é porque ele se expressa esgueirando-se, à espreita, pelo disfarce. Fincher precisa do intrincado para poder desvelar o simples: recorre à luta do homem contra o mal para enunciar a dignidade daquele. Esforça-se por registrar a nuance do crime para que nela seja visto o seu negativo, para que surja, no/do vil, abominável, aquilo que é mais humano, e que obedece às suas próprias leis – por vezes tentando contornar as leis que o conjunto dos humanos forjou -, tal qual fosse o resquício de vírus que existe na vacina, a medida exata de antídoto que encontramos no veneno. Gone Girl, como os demais filmes do cineasta, é o típico “filme de zeitgeist“, se é que existe essa categoria. Enriquece o diálogo que se estabelece entre nós, ultimamente, sobre tecnologia, sobre mídia, sobre humanização, sobre perversidade, sobre a insistência que temos em continuar sendo bizarros e, é claro, sobre psicopatia, mas quando ela existe em dose exata e certeira – não exatamente aquela caricata, estereotípica, que vemos nos filmes, mas não exatamente aquela que atende pelo nome de ovo da serpente. Em vez disso, num ponto médio, diluído, que nos permite olhar para a sociedade em que vivemos e refletir sobre o grau de psicopatia que ela já atingiu. (Mais: Rosamund Pike está, doravante, no meu radar.)

 

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3.Relatos Salvajes

Ponto crucial do sucesso de Damián Szifrón: ritmo. Bastante se falou sobre esse filme, ressaltando o quanto cada uma das histórias é dotada de força própria. Ok, isso não prejudica o filme nem um pouco. Mas a catarse que ele proporciona ao final, e eu acredito que ele proporciona uma catarse ao final, advém do modo como Szifrón cuidadosamente acomodou qual episódio vem em seguida ao anterior, do início ao fim, com a mesma acuracidade mediante a qual um montador seleciona que plano vem depois do outro. Pasternak prepara o terreno, e nada faz além disso, e seria um excelente curta se fosse apenas ele próprio, e lança apenas a marca do insólito, contornando a sutil linha do “aquém-realismo-fantástico-embora-além-nonsense”. Las Ratas forma um excelente equilíbrio com A Proposta, tornando claro que a investigação de Szifrón é eminentemente de cunho moral. Trata-se sobretudo do tema da responsabilidade, e de como agir com responsabilidade, num mundo como esse. E, bem, tanto numa história quanto noutra, se vê as linhas que os indivíduos permitem a si próprios cruzar, sejam eles guiados pela retaliação com tons de escatologia ou pelo simples e velho cinismo amoral. A lição é, para os efeitos de choque, “socrática”: escolha o seu veneno. Então, O Mais Forte recapitula e radicaliza a anedota contada por Las Ratas, alterando a escala – do pedaço de civilização perdido no meio do nada para, literalmente, o meio do nada; da agressão astuciosa para o flanco da força bruta; do acinte escatológico como meio para o acinte escatológico como fim; da barbárie empetecada, maquiada, preparada para a festa, portanto, para a barbárie nua em pelo, pronta para o abate. As conseqüências são imagináveis. Bombita é como uma síntese de tudo o que é dito, por isso é tão propício para causar identificação. É simultaneamente o mais prosaico e o mais absurdo, o mais ridículo e o mais trágico, o mais fantasioso e o mais verdadeiro relato entre todos: é o que mais se parece com nossa vida, sem que jamais deixe de soar pouco crível. A delícia de A Proposta é o fato de que ele é um pequeno caleidoscópio da vida humana, permitindo-nos rapidamente perceber quão estúpido é o maniqueísmo. Humaniza o bom e o mau, o fraco e o forte, o rico e o pobre, mostrando o que há de semelhante entre os pólos opostos. Até que a Morte nos Separe, por fim, é o tiro de misericórdia. Espectador, que riu, gozou, se identificou, sofreu, sentiu nojo, falhou em compreender, permitiu-se sentir alguma coisa… agora, prepara-se. Trem desgovernado feito a energia com que a noiva guia o noivo, esse episódio não tem medo de cometer o maior pecado que pode cometer um filme sobre seres humanos: fazer seus personagens parecerem desenho animado. E, ainda assim, não há qualquer coisa que aquela noiva “borderline ambulante” não faça que não pareça assustadoramente genuína. (Sem contar que é, de longe, o filme que mais me fez rir em muito tempo.) Ponto, Damián.

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2.Enemy [O Homem Duplicado]

Para o meu gosto, o que certamente não quer dizer qualquer coisa além disso, o mais recente longa do prodígio québécois (o outro – Quebec está com tudo, ultimamente) é um filme impecável. A adaptação de um texto de Saramago, que por sua vez bebe na fonte de Dostoiévski, se bem realizada, seria formidável (seria, já, de toda forma, mais do que conseguiu o mestre Bertolucci com seu “Partner”) . Mas o que Denis Villeneuve alcança aqui é um destino muito além do “bem feito”, do elogiável. Ele provoca uma inquietação tão forte que causa até desconforto. Ele combina um efeito ímpar, desafiando os olhos com seus planos bem construídos e valendo-se da magnífica trilha composta por Danny Bensi e Saunder Jurriaans  (vale muito a pena ficar de olho nessa dupla!) para atingir seu espectador com uma sensação de vertigem, de sobressalto. Normalmente esse efeito só alcançam os melhores filmes que transitam as fronteiras não muito bem definidas entre o suspense, o drama psicológico e o filme de horror. É um pouco como um calafrio, pois a história de um homem desconcertado diante do seu duplo propõe ao espectador um enigma em forma de ambivalência: à mente, é apresentado um quebra-cabeças; ao corpo, uma descarga elétrica. Certamente o que menos importa aqui é tentar encontrar respostas ou certezas, pois a experiência de Enemy proporciona um prazer muito mais sofisticado do que o encontro com um gabarito. Mas reconhecer as notas temáticas das quais Villeneuve se vale para construir seu filme apenas estimulam a fruição, ainda mais. Não é inválido propor soluções como “Era tudo um sonho!” ou “É a alegoria de uma sociedade totalitária!”, como aquelas com as quais pode-se esbarrar com facilidade por aí. Mas o filme ressoa de um modo tão arquetípico que as peças do tabuleiro se parecem com algo muito mais abstrato do que qualquer teoria tão fechada. Uma hipótese psicanalítica, embora não resolva o problema todo, certamente funcionaria melhor, porque os peões, as rainhas, os reis e as torres aqui caminham de um jeito que se parece que as formas do inconsciente. Há algo de fundamental nas mulheres do filme – é impossível se esquecer da cena isolada, mas capital, do almoço com a mãe; Isabela Rossellini tem praticamente duas falas no filme e, ainda assim, é com uma potência categórica que ela grava o que tem a dizer: “Você é meu único filho, sou sua única mãe”. O modo como o sexo se resolve, ou não se resolve… e a barriga daquela estranha mulher ridiculamente grávida, tão onipresente, e parecendo querer confirmar com tanta audácia o que nosso professor de História afirma nas seqüências iniciais e tão insignificantes: “Os padrões se repetem”. E, ainda assim, qualquer coisa meio atemporal, meio mundo de ficção científica, na Toronto fantasmagórica, também, tão-onipresente. Enfim, tudo o que precisamos saber está no próprio filme. Mais um grande trabalho de interpretação entregue por Jake Gyllenhaal, talvez seu melhor até aqui. Em entrevista, Denis Villeneuve reconhece que “o filme é uma exploração do interior de si” e que “há às vezes compulsões que vêm do inconsciente que não se consegue controlar… são elas o ditador dentro de nós mesmos”. E ele realmente não precisa dizer mais nada. O resto está na esquisita e magnética canção dos Walker Brothers, brilhantemente usada no filme: “Someone called for you/ But I hung up the phone – what could I say?”

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1.Inside Llewyn Davis

Ok, grande surpresa, não é mesmo? Aqui eu mesmo me sinto compelido a não dizer muita coisa, pois essa escolha é absolutamente sentimental. No fevereiro retrasado, quando assisti a esse filme pela primeira vez, eu sabia que qualquer coisa que eu fosse ver novamente dificilmente se comunicaria comigo da mesma forma. Não tenho elogios para espalhar. Tenho apenas a convicção de que Llewyn Davis e eu estamos na mesma sintonia. Fare thee well… ♫

…e, por hoje é só, folks.

Nos vemos no ano que vem.

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Late Bloomers [1]

Este blog pouco atendido retorna à sua tradição anual de eleger os dez filmes favoritos do ano.

 

NEBRASKA

10.Nebraska

Quando ouvi falar a respeito da première do último filme de Alexander Payne, em Cannes, em preto e branco, fiquei cético, receoso de se tratar de um truque desnecessário. Eu me enganei, a fotografia funciona organicamente, mas não sem alguma razão. O anterior de Payne, The Descendants, ainda me parece um fracasso artístico. Mas Payne é um cara sério, não são todos que acertam sempre. Me parece que o tema que mais lhe interessa, também antes, mas particularmente de alguns anos para cá, é o dos encontros e desencontros. Por isso o filme funciona tão bem, convidando-nos a habitar por algum tempo o mundo do personagem de Bruce Dern, que é um homem totalmente perdido, como fica provado já na seqüência inicial. Payne consegue equilibrar bastante bem a graça e a melancolia advindas dessa falta de lugar para o velhinho rabugento – a música aqui ajuda um bocado. Os outros não o compreendem muito bem, só parecem encontrar-se com ele, realmente, quando iludidos pela farsa que ele montou involuntariamente. O golpe de doçura acontece finalmente quando seu filho – que estupenda a revelação de Will Forte num papel dramático! – consegue entrar em contato com seu pai, mesmo que a recíproca não seja verdadeira.

 

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9.O Lobo Atrás da Porta

O primeiro longa de Fernando Coimbra é surpreendente, ridiculamente preciso em carregar o suspense de ponta a ponta. É um noir, basicamente. Já vimos essa história, ou muito do que acontece nessa história, mil vezes. Mas a narrativa é meticulosa, intromete-se no conteúdo que quer ser contado, prendendo nossa atenção para além do que seria provável. À medida que vão ficando claras as ações de cada personagem da história – mas nunca quem é vítima e quem é carrasco, pois é justamente esse o precipício da ambigüidade em que somos lançados -, Coimbra não faz concessões. Ele pede que reflitamos, ao final, para identificarmo-nos com o papel do juíz ou do advogado, em causa de que ou de quem…? Não senão após termos olhado atentamente a todas as provas. Pois é esse exercício de ser forçado a olhar o pior, o insólito, o duradouro, que impele à sensação de náusea e, não obstante, impressiona.

 

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8.Boyhood

Claro que este filme é um colosso, já pelo modo como foi concebido e realizado. E há muito que pode ser pinçado dele para sublinhar várias de suas qualidades. No entanto, nada me prendeu mais a atenção, nada me pareceu mais fundamental, enquanto o assistia e semanas depois, ainda, do que tudo que está expresso na fotografia. O filme de Richard Linklater, a viagem que ele representa, do gramado à montanha, é essencialmente a história da constância e das revoluções do olhar de Ellar Coltrane. Se o filme vale por alguma coisa, e penso que vale muito, é pelo registro do olhar do menino, dos 6 aos 18. Sua “meninice” é um olhar amedrontado, na transição da inocência para a não-inocência (a sabedoria, diriam alguns), que é fundada na infância. Esse olhar está lá, descobrindo o mundo, vivendo-o e sentindo-o. Lá pelas tantas, o olhar não está mais lá. Algo aconteceu. É quase como se o menino não fosse mais menino, fosse outra coisa, não sei o quê, que perdeu aquilo que fazia dele menino. É quando começa a envolver-se com coisas mais prosaicas, como emprego, namorada, reflexões adultas, desdém pela nossa cultura tecnolófila. Então, o olhar retorna, na seqüência das montanhas, a última do filme. Quando a coisa mais banal de todas parece evidente. Agora, talvez, o menino com corpo de homem parece sentir-se mais confortável para ser apenas ele mesmo. E percebe que cresceu.

 

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7.Mommy

Talvez esse seja o filme mais difícil de assistir, não só dessa lista, como do ano todo. Tudo é tão bruto nele, como provavelmente Xavier Dolan nunca havia sido. O cálculo da mãe, o desespero da mãe, a violência do filho – em tudo o que ele faz, em como se porta, em como trata os outros, em como sente, em como demonstra tanto raiva quanto compaixão -, o desespero do filho, a fraqueza da vizinha, o desespero da vizinha. Dolan gosta de dizer que seu cinema é inspirado em Truffaut, no cinema americano, mas aqui ele faz um “desvio” almodovariano,  mais que vibrante. passional, autoral: carnal, grotesco, mesmo, e incômodo. Há uma cena dolorosa, que ressoa pelo restante do filme, com a melodia de “Vivo per Lei” ecoando feito um fantasma em tudo o que resta após. Dolan quer fazer um filme que tensione a relação entre liberdade e prisão. É impossível não se identificar com o carisma animalesco de nosso amigo, que está para o Maculay Culkin de Esqueceram de Mim como o Jean Pierre Léaud de Baisers Volés está para o Jean Pierre Léaud de Les 400 Coups. Mas não há nada que humaniza tanto o filme quanto a trajetória da mãe vingadora, a mãe de Dolan. Depois de ele tê-la matado em seu filme de estréia, ela volta e, leoa ferida, morde de volta. Contra a natureza e por causa da natureza.

 

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6.Praia do Futuro

Existe uma máxima gravada no inconsciente de todos e de cada um, mas que muito poucos seriam capazes de admitir em alto e bom som. No entanto, muitos sintomas que alimentamos ao longo da vida – adulta, sobretudo – ratificam essa mensagem. Há quem diga que o sexo é o mais expressivo desses sintomas. Vejo, no entanto, que ele mais se presta como mensageiro, veículo, de um tipo de forma, essa, sim, cabal: a forma do vício. Todo o tipo de vício que se possa imaginar reivindica a veracidade dessa máxima, que nada enuncia senão a relação de cada ser humano com a característica mais fatalista que rege sua existência: é a sua relação com o tempo. Agir conforme o tempo, pensar sobre o tempo, fazer de conta que o tempo não está passando, agir com medo de que o tempo está passando rápido demais, ou devagar demais, enfim. No ser humano, em algo que lhe é estranhamente cerebral, ainda que tão pouco racional, é assim que age o vício. O vício quer ser satisfeito. Ele não precisa de mais nada além disso. O vício, então, confirma aquela verdadezinha recôndita que queremos guardar de nós mesmos: o passado é melhor do que o futuro. Agimos contrariamente a isso, o tempo todo, até porque não nos faz muito bem não ficar alheio a isso. Cada um por si e Deus contra todos. A menos que haja alguém mais – um próprio tipo de Deus – que nos possa salvar. É o herói. Por isso foi inventado o salvador. Mas o herói, não o herói-em-si, mas aquele que cremos – sim, realmente cremos nisso, religiosamente – que existe em outra pessoa, ainda no mais distópico dos lugares, não é um cyborg. No primeiro ato do delírio congelante de Karim Aimouz, o herói se afoga. No segundo, está partido ao meio. No terceiro, é assombrado por fantasmas. E precisa percorrer toda essa odisséia até perceber o óbvio que tanto quer desdizer: no rio congelado, na selva de concreto, na piscina do choro do amante de Aline, ou no litoral que se avizinha, o passado é melhor do que o futuro.

To be continued…

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Breves notas cannesianas

Parecia que não, mas mas não dá pra deixar passar em brancas nuvens esta tradiçãozinha woolfiana, mesmo que em doses diminutas.

Podem chamar-me de despeitado, mas acho que não é coincidência que este ano, que justamente não puder acompanhar o festival tão de perto, a seleção tenha parecido a mais fraca dos últimos anos. Eu mesmo, quando bati os olhos na lista da Competição, me senti um pouco desapontado e não senti interesse por tantos filmes quanto em anos anteriores. Ainda assim, é Cannes.

Falando, então, de interessologia, antes de entrar na área da achologia, após ter acompanhado, um pouco de longe, algumas repercussões sobre os filmex exibidos digo que o filme que permanece mais me interessando, entre todos, é o autoralíssimo projeto pessoal de Mike Leigh, Mr. Turner. Em primeiro lugar, porque Mike Leigh é f…, e isso já resolve a questão, por si. Eu diria que pré-Festival, apenas pelo pedigree dos autores, e/ou pelo teor da história, me chamavam mais atenção, fora esse, os filmes de Bennett Miller, Foxcatcher, Godard, Adieu au Language e David Cronenberg, Maps to the Stars. Acho que após as exibições, com o buzz que os críticos produziram, juntam-se a esses Mommy, de Xavier Dolan e Leviathan, de Andrey Zvyagintsev. Mas eu tenho que advertir que nada aqui parece muito arrebatador.

Isto posto, vamos às apostas, que estão bastante excitantes, porque os prêmios estão particularmente difíceis de se prever. Conforme as previsões, há pelo menos seis filmes brigando seriamente pela Palma: Winter SleepMommyAdieu au LanguageStill the WaterMr. TurnerLeviathan, ainda com o filme da Mauritânia, Timbuktu, correndo por fora.

O método aqui é escolher o vencedor da Palma primeiro – a tarefa mais difícil e mais importante – e distribuir os demais filmes importantes nas outras categorias. O truque é evitar o overthinking. Alguns apostam em Still the Water, da japonesa Naomi Kawase, pois seria a chance de Jane Campion premiar uma mulher. Há também grandes chances de a Palma retornar a um país francófono, e a briga estaria entre o gaulês-virado-em-suíço dinossauro Godard e o canadense bebê Dolan. Winter Sleep e Mr. Turner são filmes de cineastas com muito prestígio (Ceylan e Leigh) e que eram considerados os pesos pesados nas apostas pré-Festival e conseguiram manter um bom status depois da exibição. Leviathan e Timbuktu estão entre os principais queridinhos da crítica. Na prática, a disputa está completamente aberta e é quase impossível apontar um favorito. Eu acredito que o filme que gerou mais buzz, dentre todos, foi Mommy. Seria o caso de premiar um autor tão jovem? É difícil tentar “pensar como Jane Campion”, ou “como seus filmes”. Basta dizer que: em 2010, Tim Burton foi ousado e extremamente feliz em escolher Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas; em 2011, Robert DeNiro “fez o que pôde”, premiando A Árvore da Vida, enquanto o filme mais comentado por todos era Drive; em 2012, Nani Moretti bateu o pé, repreendeu os filmes que negligenciam os próprios personagens e, humanisticamente, surpreendeu sem surpreender, coroando o misantropo Michael Haneke, com Amour; em 2013, embora muitos não acreditassem que Spielberg fosse por esse caminho, a Palma para Azul É a Cor Mais Quente era praticamente uma barbada. Agora…

No fim, o que vale na escolha de um júri muito seleto não é o buzz, é o gosto daquele grupo. Sem mais delongas, minha aposta para a Palma em 2014 é… o bebê. Por nenhum outro motivo além do fato de não tentar violar minha regra de ouro – não ao overthinking -, aposto em Mommy, contra todas as possibilidades, palmear um Dolan de 25 anos que cita como grandes inspirações suas Titanic e Uma Babá Quase Perfeita. (Dolan, em 2010, tu citava Truffaut… Que que houve contigo?)

A listinha inevitável, do que tem mais ao que tem menos chance de ganhar a Palma, só pra dar uma perspectiva da situação.

1.Mommy

2.Adieu au Language

3.Still the Water

4.Leviathan

5.Mr. Turner

6.Winter Sleep

7.Timbuktu

8.Clouds of Sils-Maria

9.Foxcatcher

10.Deux Jours, Une Nuit

11.The Homesman

12.Maps to the Stars

13.Jimmy’s Hall

14.Relatos Salvajes

15.Saint Laurent

16.Le Meraviglie

17.The Captive

18.The Search

De longe os dois mais malhados da seleção foram os filmes de Atom Egoyan e Michel Hazanavicius. Better luck next time.

Se em parte, creio que Godard é o que tem mais chances de tirar a Palma de Dolan, acho menos provável que ele ganhe algum dos prêmios secundários, a menos que fosse o de diretor, o qual suspeito, contudo, que tenha mais chances de ir para Naomi Kawase, no caso de o júri ter realmente simpatizado com o filme dela, que parece ser um dos mais divisivos da mostra. Faria, nesse caso, sentido oferecer o Grand Prix ao Leviathan, de Zvyagintsev e o Prix do Júri a… Timbuktu, possivelmente. Em razão da falta de consenso a respeito dos filmes considerados melhores (diferente dos dois anos anteriores, por exemplo, quando Amour e Além das Montanhas; e Azul e Inside Llewyn Davis foram, de longe, considerados os grandes filmes das edições, pelos respectivos júris), é bom levar a sério a grande chance de haver empates. Em outros cenários, eu certamente apostaria no Godard ou nos filme japonês ou russo sendo contemplados com a Palma, o Dolan sendo lembrado possivelmente na categoria de diretor, onde é costume premiar jovens talentos, e não descartaria Grand Prix(s) para o Mike Leigh e/ou o Nuri Bilge Ceylan.

Nas categorias de interpretação, as coisas parecem estar bem mais tangíveis. Como atriz, Marion Cotillard reina como franca favorita, pelo filme dos irmãos Dardenne, 2 Jours, 1 Nuit. Isso, no entanto, inviabiliza a possibilidade de usar essa categoria como prêmio de consolação (já que o filme dos Dardenne não está tão comentado) para, por exemplo, as atrizes de Mommy, se este não ganhar a Palma, nem Dolan o prêmio de diretor. Correriam por fora as atrizes de Sils Maria. Entre os atores, os pesos pesados são Steve Carell, que impressionou mostrando outra faceta em Foxcatcher, e Timothy Spall, por atuação muito elogiada em Mr. Turner. Lembro que poucos anos atrás Javier Bardem dividiu o prêmio de interpretação masculina, por Biutiful, com um ator italiano semi desconhecido, do qual nunca mais ouvi falar. Dificilmente este prêmio escapa de algum deles. Para roteiro, creio que os mais bem cotados são os filmes russo e turco – aquele que não ganhar em outra categoria mais prestigiada – ou, de repente, até uma surpresa, como Sils Maria, o próprio Timbuktu, ou até, inesperadamente, um filme como Maps to the Stars, dito ser controverso, mas original.

Previsões finais:

Palma: Mommy

Grand Prix: Leviathan

Prix do Júri: Timbuktu

Diretor: Naomi Kawase, por Still the Water

Roteiro: Nuri Bilge Ceylan, por Winter Sleep

Ator: Timothy Spall, por Mr. Turner (possivelmente, empate com Steve Carell, por Foxcatcher)

Atriz: Marion Cotillard, por Deux Jours, Une Nuit

Et, voilà, Croisette! Nenhuma segurança na aposta de Palma, mas que amanhã traga-nos boas notícias, sejam elas quais forem. Surpresas, afinal, normalmente, mesmo que meio clandestinas, sempre há.

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Ode ao perdedor

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Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum é o grande filme dessa temporada de Oscar.

Para além disso: talvez o grande filme do ano de 2013, na companhia de outros, como Azul É a Cor Mais Quente, vencedor da Palma de Ouro em Cannes (ILD recebeu o Grand Prix do Júri de Steven Spielberg) e Gravidade, exibido fora de competição em Veneza e, presumivelmente, o grande vitorioso da noite de 2 de março.

E já foram feitas suficientes interpretações do porquê de o último filme dos irmãos Coen não ter sido reconhecido de modo mais generoso pela AMPAS (Academy of Motion Picture Arts and Sciences), salvo pelas duas tímidas indicações a Bruno Delbonnel, pela majestosa direção de fotografia, e Lievsay, Orloff e Kurland, pelo trabalho de mixagem de som.

Não importa, na realidade. Alguns filmes são simplesmente bons demais para o Oscar, claramente superiores a alguns dos campeões de indicações aqui: penso em Blue Jasmine, Frances Ha, Antes da Meia-Noite, O Grande Gatsby, Amor Bandido, Os Suspeitos – para ficarmos apenas com os filmes americanos.

Em Inside Llewyn Davis, a melancolia de um homem atormentado pela própria sensibilidade artística ganha diferentes matizes, que vão do inferno a que desce, em companhia dos personagens de John Goodman e Garret Hedlund, no momento road trip da odisséia de Llewyn, e que é estampada pela meticulosa fotografia de Delbonnel, pintando aridamente o fogo da perdição na paisagem fria, azulada, dessaturada da atmosfera do inverno de 61, ao ritmo ridículo da graça debochada, em tiradas como a da esposa do professor Gorfein, constatando algo sobre o gato resgatado, e na inocência cômica, embora engenhosa, da única música escrita especialmente para o filme, a deliciosa composição “Please Mr. Kennedy”, entoada entusiasmadamente por Justin Timberlake e Adam Driver, e sem um pingo de credulidade, por nosso herói Llewyn Davis.

Llewyn Davis oscila do mesquinho, do banal, do simplesmente asshole, quando é insensível com aqueles que o ajudam, quando acredita piamente merecer mais do que a vida está disposta a lhe conceder e quando aproveita a primeira oportunidade que tem para ceder ao escárnio daquele que é tão frágil quanto ele, quando no abismo do palco à doçura e vulnerabilidade que só é capaz de emular por meio das canções folk, envelhecidas, mitologizadas, que escolhe para se apresentar, ou quando é capaz de um gesto de solidariedade, mais que pelo casal Gorfein, que tolera sua falta de gentileza, pelo felino, que observa com medo e curiosidade as estações de trem se movendo mais rápido que os momentos que se movem diante dos olhos humanos.

Em razão da própria falta de compreensão pela situação que ocupa, Llewyn Davis, o personagem genialmente construído por Oscar Isaac, está fadado, como um herói homérico fatalista, a incorrer nos mesmos erros, a cair nas mesmas armadilhas do destino e, talvez, a ser a sombra daquele que se despede com maior eloqüência, e com melhor timing – daquele que tem mais tino para ser o que justamente o inajudável Llewyn Davis tanto almeja ser.

Mais uma vez, aquilo no que os irmãos Coen sucedem aqui, é em construir cirurgicamente um filme sobre o mistério. Quando o empreendem, como em obras-irmãs, como em Barton Fink – Delírios de Hollywood e Um Homem Sério é quando são verdadeiramente brilhantes.

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E ainda há o Oscar.

Sobre Gravidade, já tive chance de falar. É um filme essencial, que vai ao núcleo da emoção, dominando com maestria a distância entre o grande e o pequeno. Um filme ao qual certamente retornaremos.

12 Anos de Escravidão é também belo filme, movido sobretudo pelas belíssimas interpretações, além da potência visual das imagens que Steve McQueen construiu ao lado de Sean Bobbitt. É um filme que segue uma tradição mais convencional, o que digo sem conotação pejorativa.

Na realidade, embora os dois sejam provavelmente os grandes filmes da premiação, os mais satisfatórios ao lado dos dois próximos, ainda há um tom conciliatório que me incomoda, ao final de tanto um quanto do outro.

O Lobo de Wall Street e Nebraska foram dois dos filmes que mais me surpreenderam, a despeito do pedigree. Não poderiam ser filmes mais diferentes na aparência. O de Scorsese é impulsionado pela megalomania de seus personagens, pelo ritmo histérico e deliciosamente amoral, embora não cesse de mostrar o desespero por trás da farsa, o que invalida as críticas precipitadas, de que ele endossaria o comportamento de seu (anti)herói. O filme de Alexander Payne, por sua vez, me parece uma expressiva melhora em relação ao tépido Os Descendentes. Com sensibilidade, também valendo-se de uma fotografia melancólica, que ressalta a solidão de seus personagens, desiludidos com a vida e bem-intencionados, mostra um bonito retrato do interior da América. Creio que tanto um quanto o outro sabem dosar perfeitamente o humor com a tragédia, evidenciando o quanto essas dimensões, em vez de opostas, conjugam-se, numa dinâmica interessante para falar daquilo que é humano.

Ela é, sem sobra de dúvidas, um filme interessantíssimo. Acho que merece estar na discussão, simplesmente por aquilo que se propõe a fazer. Muito mais que Gravidade, por exemplo, aproxima-se do desafio lançado por Kubrick em 2001. Infelizmente, ele ainda me parece um daqueles filmes em que a premissa funciona melhor do que a execução. Há várias boas idéias na trajetória de Theodore e em sua relação com Samantha, mas nem sempre tão bem desenvolvidas quanto eu gostaria. É, no entanto, mais um que merece redobrada atenção.

Clube de Compras DallasPhilomena são dois bons filmes. Nascem, como vários outros desta lista, de uma história verídica que a princípio parecia promissora para “dar um filme”. Os roteiros deixam a desejar – principalmente do segundo -, onde os atores aparecem para resgatá-los do que poderia ser um resultado menos que medíocre. Não são filmes em que estarei pensando em alguns meses.

Trapaça é um pouco como um trem desgovernado. Eu até entendo o que David O. Russell queria fazer com esse filme, mas ele simplesmente não funciona. Há uma certa pretensão de “grande obra”, apostando no over que são aquelas perucas e overacting dos atores. As músicas foram escolhidas, parece, da maneira mais óbvia possível. Os momentos que O. Russell tenta “eternizar” acabam denunciando o próprio filme do pecado de levar-se excessivamente a sério, se é que isso é possível. Mas dá para notar que ele pode cair no gosto de alguns. Pelo menos ele tem um ou outro momento que equivale ao que hoje em dia prega-se como “entretenimento”, o que é mais do que eu posso dizer a respeito de…

Capitão Phillips. O filme é simplesmente chato e longo demais, ponto. O objetivo era fazer um retrato humanista de dois homens corajosos, ocupando lados opostos, face às circunstâncias da política internacional, sem que com isso eles desempenhem marionetes maniqueístas? Não foi alcançado.

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Palpites.

Esse será o ano dos 20 acertos? Não estou confiante, receio.

MELHOR FILME

Entre o filme de McQueen e o filme de Cuarón, qualquer que sair vitorioso, o Oscar estará bem entregue. O senso comum nos adverte de apostar numa separação entre Oscar de melhor filme e melhor diretor, exceto numa situação como a do ano passado, quando era óbvio que Argo ganharia melhor filme, mesmo com Ben Affleck não estando indicado a melhor diretor. Muitos acreditam que Gravidade conquistará essa dobradinha, mas acredito que a aposta mais segura, com base nos precursores, é marcar que o vencedor será 12 Anos de Escravidão.

MELHOR DIRETOR

No-Brainer. Qualquer resultado que não seja Alfonso Cuarón, por Gravidade, será um choque. Um prêmio para McQueen também seria justo, embora, na minha humilde opinião, seu grande filme ainda seja Shame, um filme tão ignorado pelo Oscar quanto Inside Llewyn Davis, este ano.

MELHOR ATOR

Eu daria um Oscar a Matthew McCounaghey pela brilhante interpretação na série True Detective. Não daria pelo bom trabalho em Clube de Compras Dallas. Acredita-se que seu grande adversário seja Leonardo DiCaprio, um estupendo ator, que também está muito bem em O Lobo de Wall Street, mas que, para meu gosto, esteve ainda melhor em O Grande Gatsby. Meus favoritos na categoria são Bruce Dern, por Nebraska, e Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão. Não se sabe o que Christian Bale, muito bom ator em outros contextos, está fazendo aqui. Dito isso, é muito improvável que o Oscar não fique com Matthew McCounaghey.

MELHOR ATRIZ

Outra barbada. Amy Adams é uma excelente atriz e, provavelmente, a melhor coisa em Trapaça. Mas o parâmetro aqui é outro. Meryl Streep e Judi Dench nunca desapontam e estão, como de hábito, excelentes. Eu jogaria uma moeda pra cima e qualquer uma que ganhasse, entre Sandra Bullock, por Gravidade, e Cate Blanchett, por Blue Jasmine, me deixaria satisfeito. Naturalmente o Oscar irá para Cate Blanchett.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Essa é uma das categorias mais fracas deste ano. Desempenhos bons ou razoáveis, mas nada de fazer o chão tremer. Meu favorito certamente seria Michael Fassbender, por 12 Anos de Escravidão, no papel talvez mais complexo entre os cinco indicados. Quem ganhará o Oscar, já tendo arrebatado todos os precursores, é Jared Leto, em desempenho convincente, por Clube de Compras Dallas.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Gosto muito que Sally Hawkins tenha sido indicada, por Blue Jasmine. June Squibb e Julia Roberts também estão muito bem, em seus respectivos dramas familiares. Jennifer Lawrence, eu simplesmente não entendo. Não há dúvidas de que o grande desempenho da categoria seja o de Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidão. A briga é acirrada entre Jennifer e Lupita, mas ficarei com a segunda. Esse é um voto um pouco do “quero acreditar”.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Essa é uma categoria muito difícil de prever. Eu daria o Oscar sem pensar para Woody Allen, por Blue Jasmine. No entanto, a briga está com certeza entre Spike Jonze, por Ela, e Eric Warren Singer & David O. Russell, por Trapaça. Não sinto confiança na previsão, mas a aposta é em Trapaça, um filme um pouco mais popular entre os votantes.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Seria delicioso ver o trio Linklater, Delpy e Hawke premiado pelo excelente texto de Antes da Meia-Noite. No entanto, dificilmente o Oscar não irá para John Ridley, por 12 Anos de Escravidão, e certamente estará em boas mãos.

MELHOR ANIMAÇÃO

Nada sei, apenas sigo os gurus. Aqui dá Frozen: Uma Aventura Congelante.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Sempre uma das categorias mais interessantes. Ano passado consegui assistir aos cinco indicados, o que foi bom, embora fosse uma barbada apostar em Amour. Esse ano, vi apenas três, sem chances para comentar sobre o filme do Camboja, A Imagem que Falta, e o da Palestina, Omar. A impressão que fica, no entanto, é que não foi uma das seleções mais fortes. Entre os filmes indicados pelos comitês nacionais, não foram escolhidos Um Episódio na Vida de um Catador de Sucata, da Bósnia; O Som ao Redor, do Brasil; Grigris, do Chade (Cannes, bem ou mal); Gloria, do Chile; Renoir, da França; O Menino que Comia Alpiste, da Grécia; O Grande Mestre, de Hong Kong; O Passado, do Irã; Heli, do México; Borgman, da Holanda; Linhas de Wellington, de Portugal; e Instinto Materno, da Romênia. Com toda certeza os filmes do Chile, do México e da Romênia estariam em alguma lista minha. Isso para não falar dos filmes exibidos em Berlim, Cannes ou Veneza, que não seriam elegíveis conforme os critérios do Oscar, mas que certamente constariam numa lista de filmes internacionais mais celebrados do último ano. Isto posto, quero dizer que meu favorito entre os três que assisti certamente é A Caça, do talentoso Thomas Vinterberg, que representa a Dinamarca. O filme belga, Alabama Monroe, tem qualidades, me parece inventivo e atraente, mas imperfeito, demora a engrenar. Fiquei desapontado ao assistir A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, mas creio que seja ele o mais bem-recebido entre os votantes do Oscar.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Pena que não conste aqui o excelente Histórias que Contamos, de Sara Polley. Entre os indicados, assisti somente ao exuberante O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer, que em outro contexto certamente levaria a estatueta para casa. O consenso aqui nos diz que o vencedor deve ser A Um Passo do Estrelato, de Morgan Neville, o mais leve entre os indicados.

MELHOR DOCUMENTÁRIO CURTA

Apostas vão em The Lady in Number 6: Music Saved my Life.

MELHOR CURTA LIVE ACTION

Essa é uma das categorias mais difíceis de prever, escuto vozes dissonantes. Ao abismo: Helium.

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

O filme da Disney, Get a Horse!

MELHOR TRILHA SONORA

Infelizmente, não foi um grande ano para trilhas sonoras de filmes, uma categoria pelo qual meu interesse cresce cada vez mais. Em anos anteriores, tivemos trilhas brilhantes de Gustavo Santaolalla (Brokeback Mountain, Babel, On the Road); Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button, O Escritor Fantasma, The Ides of March, Moonrise Kingdom, A Hora Mais Escura – embora o trabalho mais recente dele, em Caçadoras de Obras-Primas seja claramente uma bola fora), que este ano está indicado pela trilha pouco memorável de Philomena; Trent Raznor e Atticus Ross (A Rede Social, Os Homens que Não Amavam as Mulheres); Hans Zimmer (Inception); Alberto Iglesias (A Pele que Habito, O Espião que Sabia Demais); e Jonny Greenwood (O Mestre), para citar alguns. E, bem, algumas pessoas também gostam muito de John Williams. Este ano, minha escolha teria ido provavelmente para Hans Zimmer, pelo trabalho em 12 Anos de Escravidão, trilha que, certamente, não por acaso, muito me lembra o que Harry Scott produziu para Shame. No entanto, o Oscar deve ficar com Steven Price, por Gravidade, que é um bom trabalho, certamente. Mas a seleção como um todo deixou a desejar.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Certamente eu teria escolhido “Please Mr. Kennedy”, de Inside Llewyn Davis. Entre os indicados, optaria por “The Moon Song”, de Ela. O Oscar deve ficar com “Let It Go”, de Frozen: Uma Aventura Congelante.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Aqui tem seqüência o festival de prêmios técnicos para Gravidade, diga-se de passagem, merecido. Quem conhece da matéria, no entanto, tece loas ao trabalho de som em Até o Fim.

MELHOR MIXAGEM DE SOM

Seria uma chance de dar alguma coisa para Inside Llewyn Davis, mas vocês sabem que isso não vai acontecer. É Gravidade.

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Acredito que não seja apenas wishful thinking. Não há trabalho que salte mais aos olhos do que o realizado em O Grande Gatsby.

MELHOR FOTOGRAFIA

Aqui, outra barbada, muito embora essa categoria seja fortíssima. Meu favorito pessoal seria Bruno Delbonnel pela fotografia deslumbrante de Inside Llewyn Davis. Phedon Papamichael fez um trabalho fantástico em preto e branco, em Nebraska. E Deakins é Deakins, genial como sempre em Os Suspeitos. Abstenho-me de comentar sobre o Grande Mestre. Com certeza o prêmio irá para a estupenda fotografia de Gravidade, cortesia de Emmanuel Lubezki. Sean Bobbit deveria estar aqui, por 12 Anos de Escravidão.

MELHOR MAQUIAGEM E CABELOS

Ok, se há UM (!) prêmio que Trapaça mereceria ganhar, seria o prêmio de perucas. Isso não aconteceu. Fez-se todo um lobby em cima da maquiagem de Clube de Compras Dallas, que teve um orçamento baixíssimo. Ele deve ganhar e, no final, o filme sairá provavelmente com três Oscars. A despeito disso, a julgar só pelo trailer, eu daria o prêmio para Vovô sem Vergonha. É muito impressionante a transformação de Johnny Knoxville.

MELHOR FIGURINO

Há quem aposte em Trapaça. Vou de O Grande Gatsby.

MELHOR MONTAGEM

Essa é uma das mais difíceis de prever. Capitão Phillips ganhou o prêmio do sindicato de montadores. Se é verdade que esse filme é tão querido entre os votantes, essa seria a categoria para dar um prêmio de consolação. Ao mesmo tempo, Gravidade é um prodígio. Eu não riscaria nem mesmo a possibilidade de surpreenderem, com Clube de Compras Dallas, que tem um ritmo peculiar, ora frenético, ora cadenciado, denotando o trabalho de montagem, de modo mais explícito. O próprio Trapaça teria chances. Difícil. Vamos lá: por que não aqui também? Gravidade. Absurdo que não esteja aqui a célebre Thelma Schoonmaker, por O Lobo de Wall Street.

MELHORES EFEITOS VISUAIS

A mais barbada de todas: Gravidade.

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A julgar pela lista de filmes, eu não acho que o ano de 2013 tenha sido tão forte quanto os americanos querem nos fazer crer. É verdade que o Oscar não escolheu filmes tão bons quanto poderia ter feito. Mas se eu fosse julgar pelo menos os candidatos mais fortes, que devem brigar pelos prêmios principais, certamente já tivemos anos bem piores. Saldo razoável, então.

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Fica aqui, por fim, nossa saudação ao grande Alain Resnais. Um verdadeiramente grande.

R.I.P.

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Mais um ano

Não vou me ater sobre o filme de Mike Leigh de 2010, embora ele certamente ressoe no embalo do meu espírito nessa parte do ano. Mais duas ou três estações toleráveis, mais um verão de lascar, e aqui estamos novamente, prontos a cumprir com nosso compromisso anual de declarar quais foram os dez filmes do ano que mais nos fizeram sentir alguma coisa.

A coisa toda das listas, como sempre digo, e aborreço a mim mesmo por reiterar, é provisória e algo mutante. Eu acabo inevitavelmente tentando comparar minhas listas com a de outros críticos e outros cinéfilos, até para achar um pouco de consenso, e, como cada um adota um critério, fica essa coisa meio sem pé nem cabeça. O critério deste ano, seguindo o dos anos passados, é o de filmes “assistidos” em 2013. Se eu fosse reorganizar essa montagem por outros critérios, as coisas ficariam um pouco diferentes.

Com isso digo, de antemão: o grande filme do ano, deste e do passado, é Tabu, de Miguel Gomes, indiscutivelmente.  Tabu entra na lista de 2013 de alguns críticos, não entrará na minha, porque já entrou na lista de 2012, embora só tenha chegado ao circuito brasileiro no ano presente. Não importa, realmente. Tabu é o melhor filme dos últimos dois anos, ponto. Em razão desses criteriozinhos chatos que somos obrigados a adotar, para não ficar repetindo filmes de ano a ano, opto por deixá-lo hors concours. Mas Tabu é o cara, estamos conversados.

Algumas observações, antes de partir pras listas, que partem da observação da minha própria lista. Quando cheguei ao corte final dos dez, achei a lista excessivamente americana, e vinha ao blog pronto para dizer: “Nunca antes na história dos top 10’s deste blog, fui tão americanófilo”. Mentira! Em 2010 (que foi um ano de Mostra – para mim, ao menos), escolhi 7 filmes americanos. Sete! Hoje em dia, fica um pouco mais difícil precisar exatamente essas coisas. Dois exemplos, que pego do ano passado: Precisamos Falar sobre o Kevin – britânico ou estadunidense? This Must Be the Place – europeu ou americano? Dane-se, isso. Eu tenho a sensação que os filmes da lista deste ano são mais tradicionalmente, ao menos, americanos. Talvez reflita aquilo que muitos críticos, este ano, entenderam como sendo um ano mais forte do cinema dos Estados Unidos, pelo menos se nos dispomos a compará-lo com os dois anos anteriores.

Outra coisa que me chama atenção – e isso vai além da americanice desta lista – filmes, ao menos na aparência, simples, que ou tratam da simplicidade, ou se revestem de alguma maneira de simplicidade para atingir aquilo que não é assim tão simples. Simples não quer dizer ordinário.

Passo a algumas listas de críticos que me chamaram atenção, com um ou outro breve comentário, e, por fim, tentar extrair algum tipo de consenso, antes do sem mais delongas.

Guy Lodge

1.Gravidade [Gravity]

2.The Selfish Giant

3.Under the Skin

4.A Imigrante [The Immigrant]

5.Mother of George

6.Instinto Materno [Child’s Pose]

7.Tom à la Ferme

8.Frances Ha

9.Azul É a Cor Mais Quente [La Vie d’Adèle]

10.As Bem-Armadas [The Heat]

Guy é um doido de pedra, colocando “As Bem-Armadas” apenas uma posição abaixo de “Azul”. Não importa. Ele é um dos críticos mais interessantes que há por aí e é louvável o quanto há de “fator idiossincrasia” nas suas listas. O filme romeno, vencedor do urso de ouro em Berlim, ressoa em mim da melhor maneira possível, mas talvez tenha sofrido um pouco em função da expectativa criada. “The Immigrant”, de James Gray, segue sendo um dos meus mais aguardados para o futuro.

Kris Tapley

1.Gravidade

2.Amor Bandido [Mud]

3.Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum

4.Antes da Meia-Noite [Before Midnight]

5.É o Fim [This Is the End]

6.O Lugar Onde Tudo Termina [The Place Beyond the Pines]

7.Até o Fim [All Is Lost]

8.Spring Breakers: Garotas Perigosas

9.Nebraska

10.Tudo por Justiça [Out of the Furnace]

Kris também é um crítico rigoroso, que respeito e que costumo achar ter um gosto próximo do meu, a maior parte do tempo. Aqui ele se puxou um pouquinho, na coisa toda de “Team USA”. Quero apenas dizer: Llewyn Davis, estou pronto para você. (Há cerca de um ano, já.) Você está pronto para mim?

Ana Maria Bahiana

*12 Years a Slave

*Ela [Her]

*A Grande Beleza [La Grande Bellezza]

*Gravidade

*Vidas ao Vento [Kaze Tachinu/The Wind Rises]

*Nebraska

*O Lobo de Wall Street [The Wolf of Wall Street]

*Alabama Monroe [The Broken Circle Breakdown]

*O Passado [Le Passé]

*Fruitvale – A Última Parada [Fruitvale Station]

Pra quem curte desenho, tenho certeza que o Miyazaki é um prato cheio. Para além disso, interessantemente, poucos críticos estão lembrando do Farhadi, que não fez tanto barulho assim em Cannes, mas, agora, parece ainda mais distante.

O Globo

1.Amor

2.Azul É a Cor Mais Quente

3.A Bela que Dorme [Bella Addormentata]

4.Blue Jasmine

5.A Caça [Jagten]

6.Cesar Deve Morrer [Cesare Deve Morire]

7.Django Livre [Django Unchained]

8.Frances Ha

9.O Som ao Redor

10.Tabu

Normalmente, sempre conto com a lista de “O Globo” para me encontrar no consenso dos críticos brasileiros. Dessa vez, quase não é diferente, e confesso que até me irrita um pouco quão próximas foram algumas impressões que tivemos. No entanto, Django é, para mim, um filme que simplesmente não funciona, a despeito de seus óbvios admiradores; e Cesar, por mais belo exercício que seja, dificilmente deixará de ser “o filme que injustamente (!) venceu o Urso de Ouro em Berlim/12″, uma vez que Tabu estava na briga. Que O Globo o posicione quatro posições acima do filme português apenas faz com que eu sinta cheiro de blasfêmia.

Zero Hora

*Tabu

*A Caverna dos Sonhos Esquecidos [Cave of Forgotten Dreams]

*Amor [Amour]

*O Som ao Redor

*Um Toque de Pecado [Tian Zhu Ding]

*Azul É a Cor Mais Quente

*A Bela que Dorme

*Depois de Maio [Après Mai]

*Dentro de Casa [Dans la Maison]

*Killer Joe – Matador de Aluguel

Eu acho que tem alguns filmes superestimados nessa lista, como o Assayas, o Ozon e o Jia Zhang-Ke, que, meio que de uma hora para outra, virou o cineasta favorito de nove entre dez críticos. Eu acho, sim, que Um Toque de Pecado é um filme interessante, e, tendo-o assistido recentemente, sinto que ainda estou maturando, refletindo sobre ele. Mas que não é tudo isso, não. Muita coisa para mim não funciona. E choca que de apenas um filme americano na lista, o escolhido tenha sido Killer Joe. Apesar disso, quero dizer que gosto imensamente de Bella Addormentata – que não é elegível para mim, pois entrou na conta de 2012 -, mas que, fundamentalmente, essa lista implica, a meu ver, vasto progresso em relação à lista que apresentaram no ano passado.

Luiz Carlos Merten

*Um Estranho no Lago

*Azul É a Cor Mais Quente

*Zarafa

*Gravidade

*O Homem de Aço [Man of Steel]

*Rush – No Limite da Emoção

*O Som ao Redor

*São Silvestre

*O Estranho Caso de Angélica

*Branca de Neve [Blancanieves]

O negócio é que o Merten se puxa nas idiossincrasias, o que nem deixo de achar bom, embora assente que seja um pouco bizarro. Rush? Ok. Não vou falar de Zarafa ou do filme do Superhomem, pois não os vi. Comove-me, no entanto, a lembrança a Blancanieves, que é um belo filme.

André Barcinski

*The Act of Killing

*Gravidade

*O Mestre [The Master]

*Killer Joe – Matador de Aluguel

*Bastardos [Le Salauds]

*Beware of Mister Baker

*O Som ao Redor

*A Caça

*Computer Chess

*Hannah Arendt

Nada contra o Barcinski, pois já li algumas críticas dele e acho que sempre tem um ponto de vista interessante a oferecer. Me lembro, por exemplo, que foi um dos caras que melhor expressou meus sentimentos em relação a Django Livre, que considero um equívoco. Nada contra ele, que escolheu alguns filmes muito bons, entre os que vi, e opa, como os críticos brasileiros estão festejando Killer Joe! Nada contra. Mas Hannah Arendt é abominável. Isso, no fim, é somente meu pretexto para dizer o quanto desgostei do filme de Margarethe Von Trotta, que é fraquíssimo, péssimo, feito para [discurso reaça chegando em 3, 2, …] intelectual de esquerda achar que está ajudando a difundir o pensamento de uma das mais fundamentais pensadoras do século XX. Hannah Arendt é o cúmulo da pieguice, desde o modo como sua diretora constrói as cenas – aquela da escada, talvez o clímax do filme, é de revirar os olhos. Não temos que nos pautar pela virtude dos valores sendo, supostamente, postos em discussão. Nada está sendo posto em discussão neste filme. Pelo pouquíssimo que já pude ter contato com essa autora, chego à conclusão que o filme não consegue chegar nem perto de cumprir aquilo a que se propõe, ser um recorte no tempo de uma biografia intelectual, cujo foco é um dos episódios mais interessantes de sua carreira e vida pessoal, mesmo: a questão do julgamento de Eichmann em Jerusalém e a construção do conceito de banalidade do mal. Querem um exemplo magnífico daquilo que Hannah Arendt, o filme – não se enganem, por favor – tentou ser e não conseguiu? Um Método Perigoso, de Cronenberg, ponto. O filme de Von Trotta, no máximo, tenta pintar um desenho bonito da filósofa, à luz de uma capa de feminismo virtuoso que, no máximo, consegue evocar a emancipação feminina nos moldes de Sex and the City. E não é minimamente tão engraçado quanto. Se leva a sério de um jeito pretensioso. Aqui está: Hannah Arendt, o pior filme de 2013. Pronto. (Mas só porque estou fazendo vista grossa pra isso aqui.)

Sight & Sound

1.The Act of Killing

2.Gravidade

3.Azul É a Cor Mais Quente

4.A Grande Beleza

5.Frances Ha

6.Um Toque de Pecado

Upstream Color

8.The Selfish Giant

9.Norte, the End of History

Um Estranho do Lago [L’Inconnu du Lac]

Sempre podemos contar com S & S para o desejável “consenso com personalidade”. Escolha forte, pôr um documentário no número 1, num ano como este. Com certeza, chamou muito mais atenção para The Act of Killing. E aqui também: Sorrentino, já estou pronto para você. É só chegar.

Cahiers du Cinéma

1.Um Estranho do Lago

2.Spring Breakers: Garotas Perigosas

3.Azul É a Cor Mais Quente

4.Gravidade

5.Um Toque de Pecado

6.Lincoln

7.La Jalousie

8.A Filha de Ninguém [Nugu-ui ttal-do anin Haewon/ Nobody’s Daughter Haewon]

9.Les Rencontres d’Après Minuit

10.La Bataille de Solférino

E não é que nem achei a lista da Cahiers tão malucona quanto costumo achar? Não que seja standard, mas aqui tem bastante espaço pra consenso, também. Afinzaço dos franceses que não chegaram ainda. E viva este cineasta sensacional que descobri este ano, que atende pela alcunha de Hong Sang-Soo!

***

Passemos às menções honrosas. Diferente do ano passado, não me foi assim tão difícil, entre todos os filmes considerados, escolher dez. Quer dizer, sempre é um esforço, mas ano passado eu realmente fiquei muito dividido entre Um Método Perigoso e Beleza Adormecida para escolher o número 10 da lista, motivo pelo qual abdiquei de fazer menções honrosas a demais filmes.

Este ano, os dez estão mais sólidos. Sendo assim, permito-me comentar, de passagem, alguns filmes de que gostei muito em 2013 mas que, por falta de espaço, não consegui destacar entre os dez eleitos. Vão em ordem alfabética, então.

A Filha de Ninguém Haewon é um filme pequeno, despretensioso, mas de muita poesia, como costumam ser os filmes de Hong Sang-Soo. Ainda tem muito saquê (não, não saquê, aquele traguinho coreano, ao invés), muito “o professor de cinema inseguro e perdidão”, muito acaso bizarro, mas, à diferença de outros – dos que vi, ao menos – tem, ao menos, a tentativa de oferecer uma perspectiva mais feminina ao universo do Rohmer coreano.

Amor Pleno [To the Wonder] Ninguém está falando do filme de Malick, mas é compreensível, pois foi quase que universalmente desgostado. Eu, que não sou uma viúva de A Árvore da Vida, mas que me sinto capaz de reconhecê-lo como um belo filme, me vejo gostando tanto quanto, ou até mais, deste primo pobre, que não tem a ambição do filme anterior, mas que é, com efeito, absolutamente deslumbrante na apresentação da meditação sobre os homens e sua perdição.

Antes da Meia-Noite Eu não apenas fiquei fascinado com este filme, julgando-o um bocado superior ao segundo episódio da série, e forte na mesma medida que o primeiro, como fiquei enamorado ao notar aproximações que Cahiers du Cinéma fez entre ele  e demais filmes de relacionamento que usam o Mediterrâneo como cenário, como O Desprezo, de Godard e Viagem à Itália, de Rossellini. Prato cheio para o meu imaginário cinefílico. A sensação de que preciso retornar a ele também é muito forte, algumas seqüências poderosíssimas.

As Sessões [The Sessions] Este filme, embora tenha encantado alguns críticos americanos no ano passado, aqui acabou passando meio desapercebido, acho, em função de ter entrado comprimido, no início do ano, entre outras estréias de Oscar. Não importa. É um dos filmes que mais conseguiu me emocionar este ano, com delicadeza e aquela dose precisa e equilibrada de humor que decorre da dureza de uma tensão como a aqui mostrada.

Blue Jasmine Ei, é Woody Allen! Roma não foi exatamente um estouro, mas a azulada Blanche Dubois do gênio de Manhattan acertou na mosca. O trailer enganou, pois diferente do originalmente pensado, este conto está menos para Simplesmente Alice, mais para Another Woman. Eu me lembrarei do francês mal enunciado de Lizzie Miles, quando lamenta a dificuldade de achar um bom homem, das notas melancólicas de Blue Moon, dos monólogos delirantes de Cate Blanchett e, afinal, da fantasia que contorna o desespero de todo herói alleniano. O período azul ainda frutifica.

Holy Motors Eu sei que a maioria de vocês viu este filme em 2012, mas não foi o meu caso.  Retardatário na festa, só posso fazer uma mesura à enlouquecida celebração da vida de Leos Carax. Uma vez Phillipe Dubois (ou mais de uma vez) disse que Denis Lavant era um anjo do cinema barroco francês. Mas, para mim, ele é um demônio. A irreverência é contagiante, mas nada me fez sorrir mais que a seqüência no carro, com pai e filha. O cinema francês ri do cinema francês: ri melhor quem ri mais próximo.

O Grande Gatsby [The Great Gatsby] Foi um dos meus filmes mais antecipados para este ano, e não me desapontou nem por um segundo. A visão majestosa de Baz Luhrmann fecha perfeitamente com o universo hedonista, aparentemente idílico, falso brilhante, de Fitzgerald. Muitíssimo mais que aquela bomba de 74, dirigida por Jack Clayton e roteirizada por Coppola. O Gatsby de Luhrmann é vibrante, inquieto, neurastênico, graças à atmosfera sombria criada e, sem sombra de dúvidas, ao fantástico uso de música.

Um Estranho no Lago Por fim, o filme talvez mais misterioso do ano. Como interpretar a obra de Alain Guiraudie? Provavelmente, do jeito mais alegórico possível. O duo Eros-Tanatos comparece expressivamente. Franck afim daquele bigodudo sedutor  é um convite ao perigo. O jeito mais fácil de se perder, no sexo e no amor, é se entregar, sem restrições. Isso não vem sem conseqüências. E isso que nem se tocou naquele tipo gordinho, estranho e observador, que fica amigo de Franck. Ainda, é um filme para muito se refletir…

E, com isso, passamos aos dez.

10

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Os Amantes Passageiros [Los Amantes Pasajeros], Pedro Almodóvar

Não, era brincadeira, gente. Eu nem achei o filme do Almodóvar tão ruim assim quanto todo o resto do mundo, provavelmente, porque já fui com uma expectativa bem baixa. Mas, se me pedir pra dizer na lata, quem decepcionou mais em 2013, Pedro ou Quentin, podem apostar que já sei quem marcar.

10

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Heli, Amat Escalante

Deixe-me falar um pouco sobre a experiência de assistir ao mexicano “Heli”, ganhador do prêmio de mise en scène (aka Melhor Diretor) na competição do Festival de Cannes, atribuído pelo júri de Steven Spielberg.  O filme foi exibido pelo Cinesesc, na Augusta, em setembro, durante um festivalzinho indie bacana. Eu, um pouco, sabia do que se tratava, mas imagino que nem todos. Algumas paisagens desérticas filmadas por Escalante são deslumbrantes, o sol, a natureza, o vazio, a solidão. E tudo isso contrasta com imagens muito, muito difíceis de digerir. Na verdade, os olhos fogem da tela, porque é uma violência descomunal, nada simbólica. E tanto mais gráfico Heli se torna, mais uma boa quantidade de espectadores do Cinesesc ria, gargalhava meio que histericamente. A senhora que se sentou a meu lado, tendo chegado atrasada, simpática, e que fazia um ou outro comentário durante a projeção, se desconcertou: “Não entendo como algumas pessoas riem!”. “Eu não sei”, respondi, mas foi uma mentira. Eu sei porque as pessoas riem ao assistir Heli. Porque a crueza daquelas imagens simplesmente se acoplam em algo em ti e ficam contigo e tu acaba forçado a reagir, de uma forma ou outra. O riso alivia, meio que apazigua, mas não completamente. Em Heli, mais que a história, que é uma boa história, o que importa é o plano, a imagem, tentando conciliar a nostalgia do corpo ao espaço. Godard disse: “a beleza é o começo de horror que somos capazes de suportar.” Alguns de nós não somos capazes de suportar. A senhora simpática, lá pelas tantas, desistiu, sem entender por quê algumas pessoas riam daquilo e por quê se submeteria a um filme como aquele. Mas até determinado ponto, encontrei em Heli uma experiência ímpar de beleza.

9

petra-ny

Elena, Petra Costa

Meu filme nacional favorito do ano não é O Som ao Redor, não é São Silvestre, não é Minha Mãe É uma Peça. É Elena. Os atores convidados, no vídeo promocional, provocam: “Você não ia querer conhecer a Elena. Ia?” Ia, sim, pois a Elena é uma daquelas pessoas que é simplesmente interessante. É uma daquelas pessoas dotada de bruta sensibilidade, coisa que, não vamos tapar o sol com a peneira, via de regra acaba lhes causando mais mal que bem. E então, o doloroso exercício de Petra Costa, de resgatar as pegadas da irmã que foi tentar a vida como artista em Nova York. Acho que o mais interessante a respeito do documentário é o modo como Petra vai construindo a narrativa. Tudo é envolvido numa névoa, numa atmosfera de mistério, desde a vida em família, a infância das duas irmãs. Porque a vida é um pouco isso. Essa incerteza, essa falta de saber o que será, até certo ponto, antes da instalação de todo o fatalismo. A infância é assim. Depois, as deambulações nova iorquinas, as agruras de Elena, os encontros com o passado. Mas não havia predestinação aí. No princípio, eram apenas duas menininhas que brincavam de cantar e dançar, e se apresentar, e fazer de conta que são artistas, como, às vezes, até os adultos fazem. Depois, veio a vida.

8

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A Visitante Francesa [Da-Reun Na-Ra-E-Seo/In Another Country], Hong Sang-Soo

O ano é dele: o ano é de Hong Sang-Soo! Em Porto Alegre, visitantes franceses ou nativos coreanos tiveram oportunidade de encontrar-se com ele três vezes: Hahaha (2010), A Visitante Francesa (2011) e A Filha de Ninguém (2013). E Our Sunhi vem aí, porque o homem não pára. O que é tão especial a respeito de Hong Sang-Soo é sua capacidade de extrair uma melancolia doce, tão poética, tão simples, dos pequeninos eventos, os mais cotidianos possíveis. Ao fim de Hahaha, um amigo agradece a outro por ter compartilhado uma bonita história com ele. No início de Haewon, uma filha se despede de uma mãe de um jeito tenro, cômico, tocante. Mas é no filme estrelado por Isabelle Hupert, Isabelle Hupert e Isabelle Hupert que encontramos o pulo do gato. Mais que o tempo, aqui é o lugar que serve de inspiração para mais essa breve meditação sobre pessoas tentando encontrar a si próprias, e umas às outras. Uma praia chuvosa. Restos de garrafa na areia. Uma mulher francesa procura um farol. Encontra… um salva-vidas bonitão, um pouco abobalhado, que não sabe onde está o farol, mas escreve uma música, pois aquela mulher, tão bonita, tão exótica, capaz de despertar ciúmes nas coreanas casadas, confusão e ira nos coreanos casados, aquela mulher, em outro país, vale uma música, um pequeno episódio, um recorte de vida. Mas poderia ser diferente. Se não fosse ela a cineasta, mas um outro. Se não fosse ele que estivesse perdido de amor, mas uma outra. Se não corresse ela o risco de ferir os pés, mas outro. Se não estivesse ela mesma vivendo essa história, mas em outro lugar.

7

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Amor Bandido [Mud], Jeff Nichols

Mais um filme que foi um estrondoso sucesso de crítica entre os americanos e que provocou pouca, se qualquer, repercussão entre os brasileiros. Mas não se enganem: trata-se de uma pequena jóia do vibrante cinema jovem independente. Jeff Nichols é contagiado por uma verve Mark Twain. Mud (sério, Amor Bandido não rola) é a história de dois meninos que habitam uma região ilhoa no Rio Mississipi, e que se viram muito bem no território, dominando tudo que diz respeito a seu universo pré-adolescente – o rio, as peças mecânicas, as pequenas aventuras à Huckleberry Finn. Mas há, ainda, todo um novo mundo a ser desbravado e que será, bem ou mal, mediado pela figura um pouco folclórica, um pouco fascinante, um pouco mentirosa, um pouco perigosa de Mud, procurado pela polícia por um crime de amor. Diante das bravatas de Mud, Ellis fica encantado; Neckbone, desconfiado. Todas as coisas não são bem o que parecem ser. Mas há, de fato, um barco numa árvore, um crime, uma bela mulher. Mais uma vez Godard: a gun and a girl. E ritos de passagem. E Ellis agora tem de crescer, o menino ficará pra trás, dará lugar ao homem. Ficará? Mud é um homem ou um menino? Mud é tão ladino como pensamos que é? E esse amor ridículo que ele sente? É o amor verdadeiro, como acredita Ellis que pode haver? Há o amor verdadeiro? Ou talvez o amor é uma piada, uma falácia, uma ilusão, uma nuvem, um barco numa árvore?

6

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Frances Ha, Noah Baumbach

Alguma coisa este ano vibrou tão intensamente quanto Frances Ha? Muita gente adorou, foi filme de consenso, junto com provavelmente mais outros dois desta lista (eu olharia para os filmes número 4 e 2), mas acho que um ou outro perdeu o bonde da história.  Frances Ha não é a tentativa cinefílica de Baumbach fazer seu filme de nouvelle vague, de modo alguém. Citem o Truffaut, whatever, e além disso, sabe-se também que há referências a Leos Carax. Mas Frances brilha com luz própria, pois é um filme de geração. Muito difícil eu e alguns outros contemporâneos meus não se identificarem. Essa confusão mal-amadurecida, vontade de comprar a idéia que nos foi oferecida, que a vida está aí para ser tanto desfrutada quanto desbravada, mas não sem os pés no chão, mesmo que tudo que você queira seja brincar de lutinha num mundo de adultos que deixou pra trás esse conhecimento adquirido, essa arte perdida. Ela é uma loser? Depende do jeito que você enxerga. Frances é de uma humanidade cativante, pelas pequenezas, as recorrências, as passagens aparentemente insignificantes, de uma coisa a outra. É verdade que os dois primeiros terços são mais fortes que o terceiro. Ainda assim, num filme que esquadrinha e dignifica a imperfeição, não será isso que o deixará menor.

5

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A Hora Mais Escura [Zero Dark Thirty], Kathryn Bigelow

Aqui é papo sério, então. Este é um filme que gerou muita repercussão, mas que muitas pessoas não entenderam, o que, apesar de tudo, não deixa de ser um desapontamento e tanto. Denuncia apenas o quão rasa pode ser, por vezes, a visão das pessoas. Kathryn Bigelow realizou um procedural de primeira linha, cerebral, tenso, complexo, a ser maturado, sobre a caça a Bin Laden. E aqui, há camadas diferentes. Pense pequeno, e você não verá nada além de uma californiana conservadora defendendo a “guerra ao terror”, a supremacia dos Estados Unidos sobre os outros países, custe o que custar. O filme te permite ir bem mais longe, se você também se permitir. Ei, Godard – nosso leitmotiv do dia, aparentemente – foi acusado nos anos 50 de ser fascista por festejar Hitchcock e Samuel Fuller e não, por outro lado, o que os soviéticos estavam fazendo na época, necessariamente. Boa parte do tempo, tenho a impressão que as pessoas tentam politizar coisas que não são políticas. Não é o caso aqui. O filme é, sim, extremamente político, mas, se ele humaniza a personagem que fez da sua vida o mote para caçar Bin Laden, não é pela via do nacionalismo moralista, auto-virtuoso. Isso é brincadeira de gente grande, e ninguém deveria esperar sair dessa história com as mãos limpas. Certamente não é essa a “mensagem” (SIC) que Bigelow transmite ao final da “opereta”. Zero Dark Thirty (até que o título brasileiro não é ruim) complexifica as coisas. Ele não levanta uma bandeira, ele não sacraliza coisa alguma. Ele mostra, ele aponta: para chegar a esse fim, tais meios foram empregados. Como isso faz você se sentir? Bigelow não nos diz o que sentir. O trabalho é todo nosso.

4

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Gravidade [Gravity], Alfonso Cuarón

Antes, eu disse que o papo era sério. Mas eu acho que simplesmente não dá para ficar mais sério do que isso. Em que lista Gravidade não marcou presença? Parece – não vou dizer impossível – muito, muito difícil, ficar alheio ao efeito que esse filme provoca. Apenas porque, sim, é tudo tão épico – mas, ao mesmo tempo, tão intimista. Não entrarei no mérito, fãs de 2001, mas: esse filme navega outras rotas, aonde o clássico de Kubrick não comparece, não por falha, mas por não ter dada pretensão. Gravidade talvez seja o filme mais pretensioso que já vi em muito anos, e só posso afirmar isso no sentido mais positivo o possível, pois aqui está um filme capaz de bancar impressionantemente a própria ambição. É um filme sobre sentir-se humano. Não consigo descrever de outra forma. A psique de Bullock está presa na Terra, num carro, dirigindo, no rádio, na memória, no apego, em qualquer outra coisa. E seu corpo se destaca de toda a natureza e toda a técnica empregados para protegê-la. Solto no espaço, exposto em toda a sua fragilidade, imerso no terrível e grandioso medo que nos faz humanos, banhado no forever empty, no negrume infinito, querendo nada além que se salvar. Então, quando encontra uma câmara protetora, um segundo útero, reaparece o inconveniente George para lhe lembrar que a vida não é a hibernação, não é a preparação, não é se sentir acolhido provisoriamente, naquilo que mimetiza nossa segurança alentada, desejada, nostalgicamente. A vida é outra coisa, é se dispôr à perdição, sem garantias, sem seguranças, sem prever o que não pode ser previsto. E o corpo de Bullock, que ainda acolhe, bem ou mal, sua mente inquieta, procura, persegue, à deriva o começo – ou o recomeço – do que chamamos ser a vida, nas palavras da senhora Ramsay, “nossa velha adversária”.

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O Mestre [The Master], Paul Thomas Anderson

Alguns dos filmes pelos quais nutro a maior admiração, o maior afeto, são filmes, com toda certeza, que não compreendo muito bem. Não compreendo, não domino, não sou capaz de explicar. Mas me atraem, como ao pólo oposto do ímã. Assim é The Master, de Paul Thomas Anderson, um filme que exerce sobre mim inigualável fascinação, mas que é recheado de buracos, vãos, que ainda não preenchi, e provavelmente nunca preencha, e tanto melhor assim. Naturalmente que o plano da prisão expressa, com a maior força do filme, a dualidade do homem, animal civilizado. Talvez eu veja muito mais de 2001 aqui do que em Gravidade. Então, há duas coisas, pelo menos. Por um lado a angústia, pungente na mesma medida que ridícula, risível, de Joaquin Phoenix, veterano de guerra, perturbado, incapaz de se adaptar à vida, seja em que esfera for. Mas há também o chamado do mestre, que pode ser qualquer coisa, charlatanice, piada, ou o caminho para a iluminação. Oh, a iluminação, nossa esfinge recorrente, ela, as uvas; nós, as raposas. O mestre chama, promessa de apaziguamento, de consolo, de utopia. Como não acreditar? Mas e o mestre – quem é? Quem é tal homem, tão sábio, tão seguro, tão ciente de tudo que não sabemos e não temos. Parece que a resposta é continuar se perguntando. Poderia até estar na magnífica música de Jonny Greenwood. Mas talvez, mais provável, esteja lá onde ainda não estamos. Esse é um desses filmes para os quais seguiremos procurando respostas.

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Azul É a Cor Mais Quente [La Vie d’Adèle – Chapitres 1 & 2], Abdellatif Kechiche

Tudo é tão simples e comezinho em Azul que ele até poderia ser confundido com um filme ordinário. Lembro do que diz Daney a respeito do maneirismo, a respeito da dificuldade de continuar fazendo filmes depois que já se alcançou um certo nível de excelência que, na realidade, foi alcançado já há muito tempo. É o problema de um Carax: como continuar contando histórias comuns? Boy meets girl, boy loses girl, boy gets girl back. Esse é o tipo de filme, portanto, que não precisa ser “overpolitizado”. Muito se falou, em Cannes, a respeito do gesto político do júri de Spielberg, de conferir a Palma ao drama lésbico, de sua importância para a comunidade LGBT da França. E, na realidade, nas palavras de Alain Bosquet, tão liricamente evocadas no filme: “Pas Besoin”. Não precisa de nada disso. O filme é singelo e lindo, apenas pelo que ele é. Um filme sobre a solidão, verdadeiramente. Pois a solidão tem dessas coisas. Um corpo que é, no começo, só ele, só único, sozinho. Mas que não se basta, e busca outras coisas, sensações, experimentações, encontros, forma de estar vivo e reconhecer isso. O filme de Kechiche mostra isso. E realmente mostra isso: a boca imensa de Adèle, seus cabelos desalinhados, suas bochechas infantis. E aquele olhar azul, de descoberta, de uma tristeza que não se acha em si mesma, precisando de conforto, e que vai explodir, para fora de si, nas cenas de sexo, belissimamente filmadas. Depois o corpo de Adèle, e a vida de Adèle, procuram adensar-se às outras coisas que são verdadeiras, ao cabelo de Emma que deixa de ser azul, à angústia da festa da maldição de Pandora e à carência que nem o mundo inteiro é capaz de aplacar. O corpo conclui a jornada, esta, e é ainda essa solidão azul que lhe faz companhia. Tudo simples, tudo comezinho, tudo que já vimos. Mas de um jeito tão delicado e precioso, que não dá nem para explicar. Eu não consigo. Mas, felizmente, eu não preciso. “O poema do poeta é para dizer tudo isso e mil, e mil, e mil outras coisas: não precisa compreender.”

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Amor [Amour], Michael Haneke

Pois é. Quando compilei a lista dos filmes do ano, não fazia a menor idéia de qual seria o número um. Eu choquei a mim mesmo ao descobrir que era Amour. Qual outro? Bem, poderiam ser vários – ao menos, qualquer um dos cinco primeiros nomes desta lista daria um sólido número um. Por que Amour? Reflitamos. Número um em 2009: Anticristo. 2010: Como Terminei Este Verão. 2011: Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. 2012: Shame. Entre aquele ano e este, poderia tranqüilamente ser Tabu. Todos filmes que me arrebataram de imediato, quando os assisti. Não Amour. Não foi assim. Depois de ter ouvido falar sobre as qualidades deste filme desde maio de 2012, quando ganhou a Palma em Cannes, só pude pôr olhos nele em janeiro de 2013. O resultado imediato: exagero seria dizer “quase um desapontamento”, mas, certamente, nenhum arrebatamento. Filme forte, desses que te faz pensar, dá vontade de ver de novo. Isso, sim, mas, isso, . Então, o que acontece? O filme voltou, volta, continua voltando, provavelmente, continuará. Ele retorna, semanas depois, meses depois. Não é tão fácil assim se desvincilhar dele. Aquele apartamento austero. Os velhinhos, cultos e indefesos. Hoje, um companheiro, no outro dia, “um monstro às vezes”. A vida se danifica não amanhã, não na idade que dizem ser a melhor. Amour não é para o futuro, Amour é para hoje. Não é meu Haneke favorito, mas é dificílimo resistir. Amour é a solução final, a história que Georges conta a Anne, sobre quando era criança. Mas é o que uma pessoa faz por outra, e por si própria. “Mal… mal… mal…”, Anne suplica. O tormento é intolerável. Mas, não. É tolerado. Apesar do mal. Por causa do mal. Contra o mal. Em favor do mal. Mais ainda, com o mal. Jeito gozado de ser misantropo. Georges e a pomba: ali está a poesia. Amour não foi meu filme favorito do ano quando o assisti. Mas me venceu pelo cansaço, pois coisas demais passaram, coisas demais aconteceram, mas o filme não me deixou mais em paz.

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Quem leva?

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Vamos brincar de apostar quem sairá de Cannes consagrado? Na Croisette, a dificuldade é que tu sabe que um prêmio condiciona o outro. O exemplo do filme vencedor do prêmio da crítica internacional, o FIPRESCI, “Blue Is the Warmest Color/La Vie d’Adèle”, é cabal. Esse é um filme que seria naturalmente favorito para ganhar o prêmio de atriz, para Adèle  Exarchopoulos, ou mesmo divido entre ela e Léa Seydoux. Se o filme for o favorito do júri, esqueça. (No ano passado, o júri presidido por Nani Moretti gostaria de premiar Emmanuelle Riva por sua atuação em “Amour”, mas teve de abrir mão dessa escolha, favorecendo as romenas de “Além das Montanhas”, para que o filme de Haneke pudesse ser contemplado com a Palma.) Da mesma forma, se o júri se ver divivido entre o filme de Abdellatif Kechiche e outro – o Koreeda, por exemplo – ele pode optar pelo filme japonês, que, a propósito, provavelmente não ganhará prêmios de interpretação, e oferecer o prêmio de atuação feminina a “Blue Is the Warmest Color”, como uma espécie de consolação. Uma coisa interfere na outra, portanto, previsões se tornam um pouco mais difíceis. De toda forma, abaixo, seguem os palpites, mais ou menos listados conforme a ordem de probabilidade, com comentários.

Palma

Apostas mais seguras

  • Blue Is the Warmest Color
  • La Grande Bellezza
  • Like Father, Like Son
  • Le Passé
  • Inside Llewyin Davis
  • Nebraska

No ano passado, não apostei em “Amour” – e nem mesmo em “Além das Montanhas”, creio que minha primeira opção era “Cosmopolis”, e nós todos vimos no que isso deu – e, naturalmente, não me dei muito bem. Vimos que os filmes de Haneke e Mungiu estavam um degrau acima dos demais, ao menos na preferência do júri e é bem verdade que o buzz acompanhou isso. Em 2011, “A Árvore da Vida”, de Malick também parecia um favorito difícil de ignorar, mas isso tudo é feito em retrospecto, e eu me lembro muito bem que, naquela ocasião, “Drive” era o filme mais comentado.

Esse ano, eu acho possível acreditar que o vencedor da Palma esteja no grupo dos 6 favoritos listados acima e, praticamente, qualquer premiado, não será surpresa. Minha tendência seria apostar em “Blue Is the Warmest Color”, o mais épico de todos – são 3 horas! – e que parece agradar a praticamente todos. Mas acho que o exemplo que dei no início, a situação com o prêmio de atriz, é bastante válido. O filme seria o grande favorito para ganhar o prêmio de atriz, o que invalidaria suas chances de Palma. A aposta aqui é de que o filme foi tão bem aceito que o júri está disposto a conceder o prêmio de atriz para outro trabalho, menos aclamado.

O único entre os outros 5 que tem chance de ganhar o prêmio de atriz é “Le Passé”, de Ashgar Farhadi, o que coroaria o trabalho elogiado de Berénice Bejo.  Vejo muita gente que acha que o júri de Spielberg pode se inclinar pelo filme do iraniano, uma vez que isso implicaria não só uma escolha artística, mas, igualmente, política. O fantasma de Jafar Panahi ainda está entre nós – Berlim não foi seu último capítulo. É possível, embora o filme, mostrado logo no início do Festival, parece-me não ter mantido todo o buzz ao seu redor que outros filmes da semana passada, como o filme dos Coen, “Inside Llewyn Davis” e o filme de Hirokazu Koreeda, “Like Father, Like Son”.

A favor de “Llewyn Davis” está o fato de que ele parece ser uma escolha consensual. Todos adoram os Coen, e todos adoraram o filme – talvez exceto o Merten, mas ele detesta qualquer coisa com a marca Coen. Contra o filme pesa o fato de que os irmãos já ganharam a Palma – embora há mais de 20 anos, com o genial “Barton Fink”, que, por sinal, foi o filme que fez Cannes mudar suas regras para impedir lavadas gerais – e, especialmente, o argumento de que esse é um Coen minimalista (em outras palavras, um Coen-Coen), diferente de filmes talvez mais grandiosos, como No Country for Old Men – que saiu de Cannes com as mãos abanando, entretanto – ou O Homem que Não Estava Lá. Na verdade, em relação a isso, realmente depende do júri. Já o filme japonês, desde os primeiros dias do Festival, foi apontado como um dos grandes favoritos, e o argumento empregado foi o de que ele toca justamente no ponto mais sensível de Steven Spielberg: a emoção, o drama familiar, a relação pais e filhos – ponto, por sinal, que pode, igualmente, pesar a favor de “Le Passé”, também. O filme de Koreeda é um dos quais é praticamente certo apostar que não sairá de mãos vazias. Se não ganhar a Palma, certamente deve ser lembrado nos prêmios secundários, ou como Diretor ou Roteiro. Mesmo assim, ao menos para mim, ele nunca pareceu ter “aquela cara de Palma”. Não parece ter impressionado tanto quanto vencedores passados.

Com isso, chegamos ao filme de Paolo Sorrentino, “La Grande Belleza”, uma espécie de atualização do magistral “La Dolce Vita”, de Fellini, e um filme que esteve entre os mais aclamados desta edição do Festival de Cannes. Certamente é um dos que me deixa mais entusiasmado, ao menos nesse estágio de expectativa. E talvez, além do apelo crítico, ele tenha também a grandeza que falta ao Koreeda e ao último dos Coen. Mas será do gosto do júri?

Há ainda “Nebraska”, de Alexander Payne. Confesso que não fiquei muito empolgado nem com o filme, nem com as reações. Pode ser a chance de Payne se redimir do desapontamento que foi “Os Descendentes”. Pessoalmente, eu não vejo esse filme com a mesma força que os outros favoritos – se qualquer coisa, ele pareceria mais um “Llewyin Davis” diminuído – e, na verdade, vejo-o com mais chances de conseguir alguma coisa no Oscar. No entanto, há muita gente que gostou do filme, e foi surpreendido com ele. Diria que se houver algo próximo de uma “quase surpresa”, seria “Nebraska”.

Filmes com talvez alguma chance de ganhar a Palma

  • The Immigrant
  • A Touch of Sin
  • Venus in Fur
  • Behind the Candelabra
  • Only Lovers Left Alive

Com isso chegamos ao segundo grupo. Acho que entre esses aqui, efetivamente seria uma surpresa se forem lembrados para ganhar a Palma, mas possuem um pouco mais de chance de beliscar uma premiação menor, aqui ou ali. O filme chinês, “A Touch of Sin”, muita gente considerou com muita força logo nos primeiros dias de Festival, e talvez alguns ainda apostem nele, mas, certamente, parece ter perdido o fôlego. Se um asiático sair com a Palma, será o Koreeda. “The Immigrant”, de James Gray, tem todo o pedigree de filme palmarizável. Eu acordei, na sexta-feira, pronto para ler que ele havia fechado a conta e se gabaritado como franco favorito. Não foi o que aconteceu; em vez disso, o filme teve uma recepção, de modo geral, fria. Algumas vozes apaixonadas, mas isoladas. Se o júri de Spielberg se apaixonar pelo filme, ele pode ainda ter alguma chance, mas seria uma escolha dissonante em relação ao que mais tem se ouvido entre os críticos. O último (?) filme de Soderbergh, “Behind the Candelabra”, teve uma recepção muito boa quando exibido. Mas tampouco parece um filme palmarizável. Suas chances aumentam consideravelmente em outras categorias, em especial, na premiação de Melhor Ator. “Venus in Fur”, de Polanski e “Only Lovers Left Alive”, de Jarmusch, foram os últimos filmes da mostra a ser exibidos, talvez sofrendo da ressaca com o desapontamento com “The Immigrant”. Parece que ninguém detestou os filmes, mas eles também não causaram grande impacto: tiveram uma recepção um pouco “Oh, que legal, isso, mas nada de especial.”.

Não conte com isso

  • Michael Kohlhaas
  • Borgman
  • Jeune et Jolie
  • Heli
  • Only God Forgives
  • Un Chatêau en Italie
  • Jimmy P: Psychotherapy of a Plains Indian
  • Grigris
  • Shield of Straw

Todo ano, Cannes tem surpresas. Ano passado, o prêmio de Diretor foi para Carlos Reygadas, por um dos filmes mais malhados da competição, “Post Tenebras Lux”. O Prix do Júri, meio que a medalha de bronze, foi para “A Parte dos Anjos”, de Ken Loach, de longe um dos mais fracos da edição. Em 2011, o mesmo “terceiro lugar” foi oferecido a “Políssia”, também um dos menos destacados de uma mostra que não premiou “O Porto” de Kaurismäki – que era quase dado como favas contadas – ou outros filmes muito mais fortes como “A Pele que Habito”, “Precisamos Falar sobre o Kevin” e “This Must Be the Place”. Ou seja: os nove filmes listados acima podem ser os com menos chance de ganhar a Palma, mas não quer dizer necessariamente que eles saiam de mãos abanando.

De longe, os mais execrados da edição foram o japonês “Shield of Straw”, de Takashi Miike e “Only God Forgives”, de Nicholas Winding Refn, que chegaram a ser vaiados na exibição. “Grigris”, representante da África, e “Jimmy P”, do conceituado Arnaud Désplechin também não animaram os críticos. Talvez pior ainda seja o estado de “Un Château en Italie”, da única cineasta mulher em competição, Valeria Tedeschi, sobre o qual praticamente não se escutou nada. Eu devo dizer que o “Michael Kolhass” de Des Palières pouco foi comentado, também. Mais centrou-se na figura do ator Mads Mikkaelsen, embora as chances de ele repetir o prêmio de atuação masculina que recebeu no ano passado, com “A Caça”, sejam mínimas. Por fim, “Borgman”, “Heli” e “Jeune et Jolie” foram filmes que mais se destacaram pela etiqueta de “chocantes” do que propriamente qualquer outra coisa. Eu, particularmente, fiquei muito interessado no holandês “Borgman”, de Van Warmerdam, mas talvez ele apenas herde o posto do “Michael” de Schleinzer que, o máximo que conseguiu, foi tirar aquela exclamação conhecida das pessoas: “O que há de errado com todo mundo na Áustria?”.

Diretor

Deve ficar entre Kechiche, Sorrentino, Koreeda, Farhadi, e os Coens, os mais celebrados cineastas da edição, dependendo de quem não levar a Palma. Talvez James Gray.

Roteiro

Os mesmos, aquele que não ganhar Palma ou prêmio de Diretor. Talvez Payne, celebrado que é pelos diálogos. Mas o DP Papamichael foi tão elogiado que é possível que Nebraska leve algum outro tipo de prêmio. É, mais provável que o filme tenha chances de roteiro nos prêmios de Hollywood.

Atriz

Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux são favoritas, se “Blue Is the Warmest Color” não ganhar a Palma. Se for assim, podem até repetir o que aconteceu com “Além das Montanhas”, no ano passado. Nesse cenário, são consideradas fortes candidatas Berénice Bejo por “Le Passé” e Marion Cotillard por “The Immigrant”. Cotillard é uma das grandes atrizes do momento e me surpreendeu o fato de não ter ganho este prêmio no ano passado, por “Ferrugem e Osso”. Mas o filme de Bejo é mais admirado. Correndo por fora, Marine Vacth, por “Jeune et Jolie” e, que sabe até, Kristin Scott Thomas, que é considerada a melhor coisa de “Only God Forgives”. Receio que este não será o ano de Tilda Swinton. Pouco comentou-se a respeito das atuações de “Only Lovers Left Alive”.

Ator

Aqui, as apostas mais prováveis são Toni Servillo, por “La Grande Bellezza”, Oscar Isaac, por “Inside Llewyn Davis” ou Michael Douglas (com ou sem a companhia de Matt Damon) por “Behind the Candelabra”. Também aqui o que favorece as chances de Isaac ou Servillo é o fato de seus filmes estarem na briga pela Palma, efetivamente, embora a atuação de Michael Douglas tenha sido muito celebrada.  Correndo por fora, Joaquin Phoenix em “The Immigrant” – um filme que talvez tenha sido mais lembrado pelas fortes atuações do que pelo próprio trabalho de James Gray – ou, quem sabe, pai e filho de “Nebraska”, Bruce Dern e Will Forte.

Grand Prix /Prix do Júri

É tudo uma questão de combinação. Se, por exemplo, “Blue Is the Warmest Color” ganhar a Palma, Bérenice Bejo, o prêmio de melhor atriz, e Oscar Isaac o prêmio de melhor ator, eu diria que grandes são as chances de vemos por aqui os filmes de Sorrentino, Koreeda e Alexander Payne.

Previsões Finais

Palpitômetro, como vocês sabem, e que, provavelmente, tem grandes chances de estar totalmente errado.

Palma: Blue Is The Warmest Color, de Abdellatif Kechiche.

Grand Prix: La Grande Belleza, de Paolo Sorrentino.

Prix do Júri: Like Father, Like Son, de Hirokazu Koreeda.

Prêmio de Diretor: Asghar Farhadi, por Le Passé.

Prêmio de Ator: Oscar Isaac, por Inside Llewyn Davis.

Prêmio de Atriz: Marion Cotillard, por The Immigrant.

Prêmio de Roteiro: Hirokazu Koreeda, por Like Father, Like Son.

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Aquecendo os motores

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Infelizmente, o tempo continua uma coisa meio inexorável, assim, meio difícil de lidar.

Eu digo isso porque o fato de eu estar vindo aqui, trazer o post de preview da edição 2013 do Festival de Cannes apenas me lembra que algumas coisas, eu planejo fazer no blog há meses, ou anos, e elas acabam demorando mais pra sair, inevitavelmente, do que eu esperava. But do carry on, eu digo pra mim mesmo, sem dispensar o sotaque britânico.

Eu li pouca coisa a respeito dos filmes desse ano, então isso aqui vai ser realmente uma coisa meio expectativas/primeiras impressões, apenas para eu não me demorar mais. E devo voltar com idéias um pouco mais concretas, uma vez que o festival tenha, já, começado e dado uma encorpada. Mas algumas coisas são, mesmo, até mais interessantes de se soltar, apenas no sabor da antecipação. Vamos à lista.

O filme que abre Cannes, como todos sabem, é O Grande Gatsby, que, contudo, não está em competição. O filme estreou nos EUA este fim de semana. Às vezes o filme de abertura do festival está na competição, às vezes não. Esse ano não está. Mas Gatsby é, de toda forma, um dos grandes highlights do festival. Não me considero propriamente um fã de Baz Luhrman. Mas o trailer do filme – especialmente o primeiro trailer, que apareceu acho que já há mais de 1 ano, com músicas de Jack White, Jay-Z e Frank Ocean, não é nada menos que deslumbrante. Os atores são magníficos. E o texto de Fitzgerald é genial, não dá pra errar com ele. Enfim, minha expectativa é bastante boa, e acredito [espero] que o filme será um deleite.

Em relação à competição…

Only God Forgives, de Nicholas Winding Refn. Há uma expectativa grande em torno deste, que marca o reencontro dos dois grandes nomes de Drive – o diretor, Refn, e Ryan Gosling. Temos também a inclusão de Kristin Scott Thomas, o que, por um lado, é entusiasmante, pelo fato de ela se tratar de uma grande atriz, mas, por outro lado, um pouco levantador-de-sobrancelhas, porque Kristin tem tido a infeliz tendência de escolher filmes ruins nos últimos anos, a despeito de seu inegável talento. Mas isso é besteira. Eu não fui um fã irredutível de Drive – e sei que há muitos deles por aí – mas gostei do filme, embora não o suficiente para ele entrar no meu Top 10 do ano. Dito isso, tenho uma boa expectativa para este aqui, que deve ter uma vibe oriental, tendo sido filmado em Bangkok. Uma expectativa boa, mas comedida.

Eu não sabia nada a respeito de La Vénus à la Fourrure/Venus in Fur, o novo filme de Polanski. Mas Polanski é um dos grandes, gente. E ele tem estado muito prolífico. Nem sempre ele arrasa, mas é sempre interessante aguardar o que ele tem pra nos mostrar. Então, mesmo sem saber qualquer coisa sobre o novo Polanski, minha expectativa é muito forte, apenas porque é o novo Polanski.  O novo Polanski é, uma vez mais, adaptação de uma peça, no caso, inspirada por um texto de Sacher-Masoch. Conta com o excelente Matthieu Amalric no elenco, feito na França, falado em francês… é, no mínimo, algo interessante que deve vir.

Agora, Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, é outra história. Como Gatsby, me era um dos filmes mais aguardados para este ano. (Aliás, continuará sendo, mas como a data de estréia dele nos EUA está marcada para o final do ano, já visando à temporada de prêmios, acho que a chance é bem grande de o público brasileiro só ter acesso a ele no próximo ano.) O trailer de Llewyn Davis saiu há alguns meses e soa extremamente interessante. A história parece bastante coeniana, mas o destaque eu dou para a colaboração dos irmãos com Bruno Delbonnel como diretor de fotografia. O DP tradicional dos Coens é o formidável Roger Deakins. Mas o encontro com Delbonnel produziu um visual – ao menos no trailer – que marca uma certa diferença em relação àquilo que estamos acostumados a encontrar nos filmes dos Coen. Delbonnel tem um currículo muito impressionante, acumulando trabalhos em filmes como Amélie Poulain, o Fausto de Sokurov e um dos filmes da franquia Harry Potter. O filme, no trailer, parece lindo. A expectativa está nas alturas e eu já o consideraria candidato a alguma coisa na premiação, senão à Palma.

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Borgman, de Alex van Warmerdam, é um filme sobre o qual não tenho nada, ou quase nada a dizer. O holandês é um cineasta de 60 anos e já teve um de seus filmes, Little Tony (1998) exibido na seção tradicional de Cannes, Un Certain Régard. E, basicamente, é isso o que sei de Alex. Borgman pode vir a ser uma boa surpresa.

La Grande Bellezza é o retorno de Paolo Sorrentino à Itália, após a experiência transnacional de This Must Be the Place. Bem, ainda não fui capaz de resgatar os filmes anteriores de Sorrentino, mas meu entusiasmo com TMBTP foi tal que o filme entrou no meu mais recente top 10 anual. Espero apenas coisas boas deste filme, que também reúne Sorrentino com Luca Bigazzi, seu DP em “Il Divo” e, também, DP do belíssimo “Cópia Fiel”, de Kiarostami.

Behind the Candelabra é o próximo (e último?) filme de Steven Soderbergh, que fala sobre o pianista Liberace, com Michael Douglas e Matt Damon no elenco. Sodebergh, de apenas 50 anos, anunciou um tempo atrás que estaria se aposentando da carreira no cinema. No início do ano, ele lançou Terapia de Risco, com Rooney Mara e Jude Law, que trata da questão do uso de medicamentos para lidar com problemas emocionais, deve estar estreando em cinemas brasileiros, já, já. Soderbergh não é propriamente um dos meus cineastas favoritos, mas ele costuma sempre apresentar filmes pelo menos interessantes. Gosto muito, particularmente, de O Desiformante[The Informant!] e também daquele filme estilo documentário, The Girlfriend Experience. Mas se eu tivesse que escolher entre um filme que teria mais vontade de ver, este ano, entre o filme que entrou na mostra de Cannes e o filme sobre os remédios, eu optaria pelo filme dos remédios. Mas sempre pode ser interessante. Se for, mesmo, o último filme de Soderbergh, que seja um belo filme.

Um dos mais aguardados, pelo que ouvi dizer, é Nebraska, de Alexander Payne. Parece que esse filme é um road movie de estilo mais cômico, contando com Will Forte, do SNL, num dos papéis principais. Bem, eu considero Payne um cineasta definitivamente interessante. Espero que o fato de ele retornar a uma linha de comédia faça com que, também, ele retorne a um universo criativo que me pareça mais satisfatório. Payne, certamente, não está se queixando do reconhecimento crítico que obteve com Os Descendentes que teve, na temporada 2011/2012, especialmente seu roteiro muito premiado e esteve, também, sempre entre um dos principais candidatos ao Oscar naquele ano. Para mim, Descendentes é um filme que não funcionou sob nenhum aspecto, achei-o sentimentalista, manipulativo, raso, enfim, tiro pouca coisa de bom ali. E gosto muito mais de alguns filmes anteriores de Payne, como Sideways e, principalmente, Eleição, que me parece uma das comédias mais inspiradas dos últimos 15 anos. Se Nebraska for algo nessa linha, estarei totalmente dentro.

Jeune et Jolie, de François Ozon. Ozon é um dos cineastas europeus mais prolíficos da atualidade. Ultimamente, ele anda quase num estilo-Woody-Allen-de-linha-de-produção: faz um filme por ano e, se num ano não lança um, no seguinte, aparece com dois. O filme mais recente de Ozon, Dentro da Casa, é extremamente inventivo e atraente, ao narrar a história de um professor de redação que deixa sua curiosidade incentivar ações questionáveis de um aluno seu, jovem escritor de estilo mordaz. A premissa era muito boa, mas acho que o filme, lá pelas tantas, se perde um pouco. Mesmo assim, a ousadia da história é louvável e eu certamente não me importaria de ver mais coisas da fonte de onde ele saiu. E, afinal, se Ozon está trabalhando bastante, mesmo num ritmo um pouco ensaio-e-erro, quem sabe ele é capaz de tirar proveito dos seus erros e imprimir cada vez mais qualidade nos filmes subseqüentes? Não se sabe muita coisa sobre este, mas, definitivamente, é um para se ficar de olho.

La Vie d’Adèle/Blue Is the Warmest Color, de Abdellatif Kechiche. O eu cínico em mim quer perguntar: num mundo imaginário, qual dos títulos seria a base para a tradução para o português da distribuição [imaginária] dele no Brasil? “Azul é a cor mais quente” definitivamente soa como um bom título, mas ao menos que o filme de Kechiche, de “O Segredo do Grão”, ganhe a Palma ou tenha um reconhecimento crítico major, eu não vejo grandes chances de ele ser distribuído por aqui. Pena, porque o título soa bom, mesmo, e o filme conta com Léa Seydoux no elenco.

blue is the warmest color

Shield of Straw/Wara no Tate, de Takashi Miike. Miike já esteve em Cannes. Normalmente seus filmes costumam ser aqueles thrillers de gângsteres da Yacuza e whatnot. Não seguraria minha respiração.

Like Father, Like Son, de Hirokazu Koreeda. Koreeda também já esteve em Cannes, mas, embora da mesma forma que Miike, eu nunca tenha visto um filme seu, teria bem mais esperanças com este aqui. Um filme dele que teve alguma repercussão no ano passado, e que me arrependo de não ter visto é aquele “I Wish”, que tem um menininho no pôster. Pelo que deu pra sacar, Koreeda segue mais a tradição de dramas familiares, talvez iniciada, ou tendo tido como ponto alto do cinema japonês os filmes de Yasujiro Ozu. Dentre os mais contemporâneos, talvez dê pra resgatar aquele filme que ganhou o Oscar de filme estrangeiro uns anos atrás. Sempre espera-se uma dimensão espiritual particular vindo do Japão e esse tipo de filme, quando conduzido com sensibilidade, pode se tornar uma experiência tremendamente enriquecedora. Eu ficaria de olho no filme de Koreeda.

A Touch of Sin, de Jia Zhangke. Jia Zhangke é um dos cineastas chineses contemporâneos mais proeminentes. Foi vencedor do Leão de Ouro de Veneza na década passada, com Still Life. Infelizmente, pouco tenho a acrescentar sobre ele.

Grigris, de Mahamat Saleh Haroun. É um filme do Chade! Alguém já viu filmes do Chade? Tenho a sensação que dá pra esperar praticamente qualquer coisa. Para ser justo, Haroun dirigiu “Um Homem que Grita”, que foi premiado pelo júri em Cannes alguns anos atrás. Enquanto aquele parecia ir por uma linha mais dramática, este aqui, Grigris, eu não sei bem porquê, me passa uma vibe um pouco “Intocáveis”, o que nunca é bom negócio.

The Immigrant, de James Gray. Gray tem poucos filmes, mas que costumam ser bastante cultuados. Seu último, vão-se já cinco anos, havia sido “Amantes”, com Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow, uma espécie de atualização da história dostoievsko-viscontiniana “Noites Brancas”. Ocorre dele ter entrado na minha lista provisória de top 10 para aquele ano.  The Immigrant remonta a parceria Phoenix-Gray e traz também Marion Cotillard no elenco, o que, por si só, já indica um tour de force na interpretação. Mais: conta com o iraniano Darius Khondji como DP. Khondji é um prodígio – ele já filmou com os cineastas mais aclamados – Fincher, Bertolucci, Polanski, Woody Allen, Won Kar Wai, Haneke, a lista segue. E mais: o filme é distribuído por Harvey Weinstein. Ok, estou cantando nesse instante: o filme não só é um dos favoritos para ganhar a Palma como tem 9 em 10 chances de ser indicado ao Oscar. Vocês ouviram aqui primeiro.

Heli, de Amat Escalante. Escalante é um jovem cineasta mexicano, teve seu primeiro filme exibido em Un Certain Régard alguns anos atras. Heli é seu terceiro longa. Ele segue a linha do novo cinema mexicano, provavelmente mais realista que poético. Realidade urbana, submundo, provavelmente esse tipo de coisa. Quando é bem feito e não se apóia muito em clichês, pode ser bem interessante.

The Past/Le Passé é o primeiro filme de Asghar Farhadi desde “A Separação”. “A Separação” foi um fenômeno do cinema internacional, 2 ou 3 anos atrás. Não só recebeu o Urso de Ouro em Berlim e o Oscar de filme estrangeiro, como tornou-se praticamente uma unanimidade entre os críticos, tendo habitado a grande maioria dos top 10’s de críticos mais célebres. Minha reação ao filme foi, de certa forma, over-reativa. Provavelmente, se eu tivesse assistido ao filme sem ter sido exposto a nenhum buzz prévio, teria ficado provavelmente bastante satisfeito. O problema é que com tantos apaixonamentos pelo filme, eu acabei ficando um pouco desapontado. Não me levem muito a sério, o filme é um bom filme, certamente. Mas é a melhor coisa que já aconteceu no cinema internacional dos últimos 10 anos? Certamente, não, embora algumas pessoas tenham reagido como se fosse.  Então, a despeito deste aqui ser a primeira incursão de Farhadi fora do Irã e contar com os talentosíssimos Tahar Rahim (O Profeta, Perder a Razão) e Bérénice Bejo (O Artista) no elenco, e de ter esse título tão sugestivo, minha expectativa é moderada.

Jimmy P: Psychotherapy of a Plains India, de Arnaud Desplechin. Dois grandes atores, Benicio del Toro e Matthieu Amalric. Desplechin não é um novato, mas creio que seu filme que despertou mais atenção foi o último, que já data de cinco anos, “Um Conto de Natal”. Espero algo bem francês. Se assim for, ficarei contente.

Michael Koolhass, de Arnaud des Palières. Palières tem poucos e não muito conhecidos filmes. Este trata-se da adaptação da novela homônina de Von Kleist, do século XIX, a respeito de um mercador do século XIX de personalidade controversa. Diz-se da história que tem teor existencialista, surpreendente moderno e que gerou grande impacto quando lida por Kafka. Curiosidade: a novela já foi adaptada para o cinema, nos anos 60, por Volker Schlöndorff, um dos representantes do novo cinema alemão. Soa extremamente interessante e, mais ainda, quando vemos que o papel-título é interpretado por Mads Mikkaelsen, vencedor do prêmio de interpretação masculina na edição passada do festival de Cannes, por A Caça, de Vinterberg. Será que Mads pode pleitear uma dobradinha? Note-se que o filme tem outros excelentes atores europeus no elenco – os alemães Bruno Ganz (o Hitler de “A Queda”, gente!) e David Kross (O Leitor), o francês Denis Lavant (Holy Motors e qualquer outro filme de Leos Carax [Holy Motors tá chegando, gente!]) e o espanhol Sergi Lopez (Partir, O Labirinto do Fauno, etc). Ok, estou oficialmente empolgado.

Un Château en Italie, de Valeria Bruni Tedeschi. Este é o terceiro longa de Valeria que, previamente a incursões como cineasta, construi uma carreira como atriz. Ela atua nos filmes que dirige. Seu filme anterior, “Atrizes”, recebeu o Grand Prix no festival de Cannes. Não sei o que esperar. O filme é protagonizado por Louis Garrel, o que nunca é má idéia.

Only Lovers Left Alive, de Jim Jarmusch. Nunca vi um filme de Jim Jarmusch, mas isso não seria tão chocante até vocês descobrirem a grande quantidade de cineastas importantes com quem meus caminhos ainda não se cruzaram. Vocês precisam saber duas coisas a respeito de Only Lovers Left Alive. Primeira: é um filme de vampiros. Segunda: Tilda Swinton. A última vez que Tilda Swinton esteve em Cannes foi com Moonrise Kingdom, em que ela teve um pequeno papel engraçadíssimo. A penúltima vez que Tilda Swinton esteve em Cannes foi com We Need to Talk about Kevin. (Apesar disso, quem ganhou o prêmio de interpretação feminina naquele ano foi Kirsten Dunst em Melancolia, um filme que eu adoro também, mas que, pra mim, teve em Charlotte Gainsbourg a interpretação mais impressionante, embora Kiki estivesse bem, também.) O que quero dizer com todas essas digressões? Tilda Swinton e o prêmio de melhor atriz do festival: vamos fazer isso acontecer, Cannes!

And we’re out.

A idéia era ter postado isso antes do início do festival, o que acabou não funcionando muito bem. Razão pela qual eu ainda não pus meus olhos sobre qualquer coisa, qualquer filme, qualquer crítica, qualquer buzz, de quarta para cá. Portanto isso funciona efetivamente como um preview.

Estarei de volta no próximo fim de semana – se os astros conspirarem, antes da premiação – para dar meus pitacos.

Será uma semana longa, e idílica.

Only-Lovers

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Esse ano, pouco falei sobre Oscars, a despeito de ter sido disparado o ano em que mais me inteirei sobre o assunto (bons presságios para os bolões?). Por nenhum outro motivo além do fato de que a temporada, a despeito da opinião consensual, não está muito inspiradora. Até certo ponto bastante tardio da temporada, não havia um favorito claro para levar os prêmios mais importantes. Eu diria, até logo após a divulgação dos indicados. Depois disso, Argo se consolidou como o filme a ser batido e dificilmente não ganhará o Oscar de melhor filme em dois dias. O consenso – mais uma vez, sempre ele – tenta nos vender a idéia de que essa foi uma grande temporada para filmes; e quando digo isso, me refiro, de modo geral, a filmes exibidos nos EUA entre janeiro e dezembro de 2012. Mas essa é uma idéia que não estou disposto a comprar. Se a “seleção” de filmes do Oscar serve como baliza para representar aquilo que de melhor se produziu no cinema em 2012, eu estaria compelido a argumentar que esse foi um dos anos mais fracos dos últimos tempos, de longe. Sem pensar muito, certamente foi o mais fraco dos últimos 4. Mas possivelmente tenha sido o ano mais desinteressante desde que comecei a acompanhar a premiação de perto, há quase uma década. Digo isso, inclusive, não só me deixando levar pelas escolhas do Oscar, mas, também, por aquilo que de melhor apareceu nos mais prestigiosos festivais internacionais de cinema – Berlim, Cannes e Veneza. Enquanto Berlim, em 2012, teve sua seleção mais forte dos últimos tempos (a qual, muito provavelmente,  esteve bem acima da de 2013), Cannes e Veneza apresentaram alguns bons filmes, mas, eu argumentaria, no seu conjunto, naquilo que pude observar, não tão impressionantes quanto no ano de 2011. Tivemos, então, um número pequeno de excelentes filmes, muitos filmes médios e um número razoável de filmes ruins. Assim sendo, Argo me parece um filme ideal para representar o que foi o ano de 2012 em Hollywood.

Isto posto, nunca deixa de ser divertido tentar adivinhar todas as categorias. Aqui seguem minhas previsões finais, acompanhadas de alguns comentários.

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Ok, longe de ser uma das minhas categorias favoritas, mas o bom desse ano é que ela está uma barbada. Das 24 categorias, acho que dá pra afirmar com confiança que 6 são barbadas esse ano. Essa é uma delas. Life of Pi na cabeça, graças ao tigre que, efetivamente, é o dragão.

MELHOR MONTAGEM

É dito que tradicionalmente, essa categoria está intimamente ligada à de Melhor Filme. Talvez a Academia pertence à vertente eisensteniana, e acredita que a montagem, num filme, é tudo, ou quase tudo. Verdade que no ano passado, veio daqui uma das principais zebras, com a vitória de Os Homens que não Amavam as Mulheres, de Fincher, que nem mesmo estava indicado a Melhor Filme. Bem, mas é verdade também que a Academia tende a recompensar seus favoritos sempre que possível. Depois que Argo se consolidou como franco favorito para o Oscar, alguns argumentaram: “Mas sem a indicação de Diretor, o filme vai ganhar apenas 1 Oscar?”. Pareceu, em algum momento, que o filme não era tão forte nas outras categorias em que estava indicado. Mas se há uma chance de premiar o filme além da categoria principal, essa é uma das mais prováveis. Pessoalmente, eu acho a montagem uma das piores coisas a respeito de Argo. O modo como as ações se desenrolam no último ato do filme, a seqüência da perseguição no aeroporto, tudo entrelaçado ali, é algo que realmente empobrece muito um filme que já carecia de mais substância. Certamente eu preferiria recompensar a montagem de um thriller muito mais sofisticado, como é o caso de Zero Dark Thirty (também conhecido como A Hora Mais Escura). No entanto, ficaria genuinamente surpreso se Argo não levar essa estatueta.

MELHOR MAQUIAGEM

Eu não faço a menor idéia, mas as pessoas que de fato entendem do assunto, dizem que essa categoria, com apenas 3 concorrentes (O Hobbit, Hitchcock e Os Miseráveis – ou simplesmente, Les Mis) está totalmente em aberto. Não acho que os atores do musical parecem tão envelhecidos assim, ao longo dos anos, mas, com a surpreendente ausência de Lincoln aqui, parece seguro apostar em Les Mis, o único filme concorrendo à categoria principal.

MELHOR FOTOGRAFIA

Para o meu gosto, estariam presentes aqui os trabalhos de Mihai Milamaire Jr. por The Master, Greg Fraiser por Zero Dark Thirty, Luc Montpellier por Take this Waltz (“Entre o Amor e a Paixão”) ou mesmo Eric Gautier por On the Road, todos filmes belissimamente filmados. Acho mesmo que não há um trabalho de fotografia que se aproxima do deslumbrante resultado obtido por Rui Poças em Tabu, mas não sei nem mesmo se ele estava elegível. De toda forma, possivelmente, todos os indicados na categoria dariam vencedores decentes. Provavelmente, a minha favorita entre as cinco é a fotografia de Janusz Kaminski em Lincoln, por acreditar que ela teve um papel narrativo muito importante no filme de Spielberg, agregando um tom sombrio às discussões intermináveis no interior dos gabinetes onde tanto falou-se sobre igualdade. Gosto da sobriedade do filme, que cede espaço ao roteiro admiravelmente bem construído de Tony Kushner, a meu ver, a grande estrela do filme. E acho que a fotografia de Kaminski funcionou muito bem nesse processo. No entanto, há também um senso de urgência para premiar o britânico Roger Deakins, por Skyfall. Deakins é um dos mais geniais diretores de fotografia do tempo presente, tendo sido responsável pela fotografia de filmes como: Barton Fink, Fargo, O Homem que Não Estava Lá, Onde os Fracos Não Têm Vez (irmãos Coen); Jarhead e Revolutionary Road (colaborações pré-Skyfall com Sam Mendes); Um Sonho de Liberdade; O Assassinato de Jesse James…; O Leitor; enfim, o homem é uma lenda. E no entanto, são 10 indicações ao Oscar e nenhuma vitória. Eu não teria nenhum problema em vê-lo premiado. No entanto, o favorito parece ser o chileno Cláudio Miranda, pelo trabalho virtuoso em Life of Pi. Miranda tem um currículo igualmente invejável, embora bem menos extenso que o de Deakins, o qual inclui: Zodíaco e O Curioso Caso de Benjamin Button. A disputa realmente parece estar polarizada entre Deakins e Miranda. Na aposta, eu favoreceria, com uma margem pequena, Miranda, por Life of Pi. Não nos esqueçamos que o 3D tem se dado bem.

MELHOR FIGURINO E MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO (ANTIGO DIREÇÃO DE ARTE)

Dizem que nessas duas categorias, é seguro apostar nos mesmos filmes. Às vezes, na realidade, emplaca-se uma trinca, junto com fotografia, porque tudo aqui tem muito a ver com o visual do filme. A dobradinha ocorreu, por exemplo, em 2010, com vitória dupla da Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, resultado que pegou muita gente, incluindo o blogueiro que vos fala, desprevenida. Temos 3 filmes indicados às 2 categorias: Anna Karenina, Les Mis e Lincoln. Os outros dois indicados a figurino são as duas adaptações da história da Branca de Neve: Mirror Mirror e Snow White and the Huntsman; em design de produção, figuram O Hobbit e Life of Pi. Coloque-se dessa forma: se Lincoln fosse o favorito disparado a varrer a maioria dos prêmios, provavelmente ele levaria esses dois. A chance disso ocorrer hoje é remota. Os filmes da Branca de Neve têm figurinos bastante chamativos; e o design de produção de Life of Pi parece bastante admirável, especialmente considerando que é um filme bem posicionado em várias das categorias técnicas. Dito isso, não parece seguro apostar em filmes diferentes para as categorias. E Anna Karenina é um dos filmes mais admirados em termos de categorias técnicas. Lembra muito o que, poucos anos atrás, foram A Duquesa e A Jovem Rainha Vitória. Para figurino, Jacqueline Durran, por Ana Karenina. Para design de produção, Sarah Greenwood e Katie Spencer, por Anna Karenina.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM E MELHOR MIXAGEM DE SOM

Acho que construí bem o argumento anterior, de porque é interessante ir nos mesmos filmes em categorias “primas”, mas aqui vou ser obrigado a me contradizer. Normalmente, sim, toda a vida, nas categorias de som tu vai nos mesmos filmes. Até porque dificilmente as pessoas sabem a diferença entre as duas categorias de som. Nos últimos 3 anos, o mesmo filme levou as duas categorias de som. É o esperado. E há 3 filmes indicados às duas categorias de som: Argo, Life of Pi e Skyfall. A diferença reside no fato de que este ano há um filme considerado favorito para mixagem de som e que não está indicado a edição de som: esse filme é Les Mis. Tradicionalmente, musicais levam vantagem em mixagem de som, porque essa categoria implica a mixagem de todos os efeitos sonoros do filme com a música, e com outros sons, eu acho. Enfim, e esse ano fizeram todo um estardalhaço com o fato de o Tom Hooper ter optado por fazer a gravação dos números musicais simultaneamente às cenas gravadas, em vez, de como comumente se faz, gravar as interpretações musicais em pós-produção. Em função disso, supostamente, a mixagem de som de Les Mis teria que ser formidável. Embora eu não considere essa, necessariamente, uma grande barbada, parece preciso afirmar que é esse o filme a ser batido na categoria. Para edição de som, a coisa já começa a encrespar, e alguns dizem que essa será uma das categorias mais difíceis de se prever. Como, supostamente, Argo, Life of Pi e Skyfall não são considerados favoritos em mixagem, mesmo os outros filmes indicados em edição de som – Django Livre e Zero Dark Thirty – podem, lá, ter suas chances. Aqui é, praticamente, um jogo de adivinhação. A título de informação, os filmes que saíram com melhores chances, após a premiação do sindicato de editores de som foram Pi e Skyfall. Possivelmente, a briga está entre eles, embora haja chance de dar zebra. Vou apostar, sem nenhuma segurança, em Skyfall. Sei lá, é o mais barulhento.

MELHOR CANÇÃO

Olha, eu nem me dei ao trabalho de escutar todas as cinco canções indicadas, mas essa categoria é barbada das barbadas. 10 entre 10 especialistas apostam em Skyfall, por Skyfall. E realmente não tem competição. A música de Les Mis é, de longe, uma das mais chatas do musical. A música de Pi, eu nem lembrava mais qual era.

MELHOR TRILHA ORIGINAL

Deixe-me apenas dizer que Jonny Greenwood foi garfado, não tendo sido indicado pela deslumbrante trilha de The Master. Indicações para os geniais Gustavo Santaollala, por On the Road, e Alexandre Desplat, por Zero Dark Thirty, também teriam sido bem vindas. Em vez disso, Desplat foi indicado por um trabalho que considero bem inferior: a trilha de Argo. Também não sou particularmente um entusiasta da música de John Williams para Lincoln, embora eu suspeite que ele não se abala muito com isso. Eu diria que me sinto ok com quaisquer dos outros 3 compositores vencendo, embora não me sinta muito inspirado por nenhum dos trabalhos, nenhum deles tão interessantes quanto os dos últimos vencedores – Bource, por O Artista; Reznor e Ross por A Rede Social, especialmente; ou mesmo Giacchino por Up. Eles são: Dario Marianelli, por Anna Karenina; Mychael Danna por Life of Pi; e Thomas Newman por Skyfall. É uma categoria difícil de decifrar. Danna saiu vencedor no Globo de Ouro. Newman triunfou no BAFTA, embora leve-se em conta que lá ele conta com o empurrãozinho do voto britânico. Apostaria em Danna, por Life of Pi.

OS CURTAS: CURTA DE ANIMAÇÃO, DOCUMENTÁRIO CURTA, CURTA LIVE ACTION

São palpites, não se esqueça. Tentei me informar um pouco sobre os curtas. Me sinto mais confiante na categoria live action: Curfew. É o único falado em inglês e parece que ele tem uma vibe um pouco diferente, talvez mais calorosa, que os demais. Curta de animação: cheguei a dar uma olhada em alguns – estão quase todos no You Tube. Fresh Guacamole e Head Over Heels, eu imaginaria que estão fora da disputa. O primeiro é legalzinho, o mais curto de todos, mas não tem exatamente uma narrativa. Não será compelativo. O segundo tem um aspecto mais narrativo, até emocional. Mas talvez não o suficiente. Haveria motivos para se despertar paixão por Adam and Dog e também pelo filme com a bebê Simpson, The Longest Daycare, mas, pelo que ouço, o favorito é, realmente, o filme da Disney, Paperman. Acho que não há motivos fortes o suficiente para não apostar nele. Por fim, curta documentário. Fiquei particularmente interessado num, chamado Redemption. Ouço falar que, de modo geral, são todos muito tristes. Ao que consta, o tido como favorito, até aqui, é Inocente, a respeito de uma jovem artista plástica com uma história comovente. No entanto, pessoal. Há um deles, chamado Mondays at Racine, que conta a história de um salão de beleza que em dada freqüência abre suas portas para receber pacientes de câncer. Você imagina isso não ganhando o voto emocional da Academia?  Bem, você está avisado. Ele não é considerado o favorito pelos especialistas, mas é meu palpite.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Interessante que, nos últimos anos, a categoria de documentário vinha sendo uma das mais disputadas.  Esse ano, ela é uma das barbadas. Searching for Sugarman empilhou troféus em todos os precursores. Não espere outro filme ganhando o Oscar que não este.

MELHOR ANIMAÇÃO

Mais uma categoria em que não tenho muito como opinar. A briga parece estar polarizada entre Brave e Detona Ralph. Brave surpreendeu no Globo de Ouro, quando, talvez, o mais esperado como “voto dos críticos” fosse Frankenweenie, de Tim Burton. Ralph foi mais bem-sucedido nos prêmios de dentro da Academia, mas, ao que consta, a briga está bem disputada, mesmo. Parece que Detona Ralph está um pouquinho à frente.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Na verdade, estou tentando, ainda, assistir aos filmes indicados. O Amante da Rainha (A Royal Affair), da Dinamarca, acho que só estreou a tempo em São Paulo (talvez Rio?). É um filme que tem seus admiradores e seus críticos, mas que tem sido enaltecido desde sua passagem por Berlim, em 2012. O filme do Canadá, War Witch/Rebelle, também foi premiado em Berlim-2012 e me deixa curioso, ouço coisas interessantes a seu respeito. Kon-Tiki, da Noruega, parece ser o filme com menos admiradores da lista, embora tenha o apoio irrenunciável de Harvey Weinstein. Por fim, os dois filmes que assisti, o chileno No, de Pablo Larraín, e o franco-austríaco Amour, de Michael Haneke, são ambos veteranos premiados no último Festival de Cannes (No na seção Un Certain Regarde e Amour, como se sabe, tendo sido o grande vencedor da competição, com a Palma de Ouro). Sinceramente, gosto muito dos dois filmes. Qualquer um deles sendo premiado me agradaria imensamente – e eu o consideraria meu vencedor favorito, ao mesmo desde o argentino O Segredo de Seus Olhos (2009). No entanto, sabemos que,  realmente, é propício considerar essa mais uma barbada. Amour é o favorito, disparado seguido, talvez, de longe, pelo filme norueguês, considerado o mais palatável da lista.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Aqui é outra chance de premiar Argo, e é isso o que deve acontecer. No WGA (sindicato dos roteiristas), semana passada, o roteiro de Chris Terrio desbancou seus concorrentes – creio que apenas o roteiro de Beasts of the Southern Wild não era elegível. Bem, é uma pena. Vejo o trabalho de Tony Kushner em Lincoln como muito superior aos demais e, reitero: é a melhor coisa a respeito do filme de Steven Spielberg. Talvez a única coisa a respeito da provável vitória de Chris Terrio por Argo é que poderia ser pior: eles poderiam inventar de premiar o péssimo roteiro de David O. Russell em Silver Linings Playbook.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Ok, essa é mais uma das categorias mais difíceis de se prever. John Gatins por Flight e Anderson & Copola por Moonrise Kingdom estão fora. Entre os outros três, qualquer um pode ser premiado. Eu ficaria contente se o vencedor não fosse Quentin Tarantino, por Django Livre, que é, a meu ver, um filme muito aquém àquilo que Tarantino é capaz de fazer. O roteiro é problemático, os diálogos são desleixados, a narrativa é previsível, enfim. Acho muito difícil não comparar com Bastardos Inglórios, que é um filme incomensuravelmente melhor. No entanto, Tarantino tem o precursor de ter vencido o prêmio de roteiro no Globo de Ouro (eles só entregam um) e o de roteiro original no BAFTA. Com certeza, ele está no páreo. Então, temos dois roteiros muito diferentes, mas ambos extraordinários: o roteiro de Amour, por Michael Haneke, e o roteiro de Zero Dark Thirty, por Mark Boal. O texto de Haneke é intimista, mas muito potente, brilhante. Algumas falas dali simplesmente não te deixam mais, quando, por exemplo, Anne abre uma porta ao dizer: “Você é um monstro, às vezes.” Haneke é clínico, cuidadoso, preciso. Seu roteiro se move como música. O trabalho de Boal é diferente, mas também, certeiro. Zero Dark Thirty é o que eles chamam de um “procedural”. Boal, como em Hurt Locker, constrói uma tensão que é de gelar a espinha. O crescendo da busca por Bin Laden é mesclado por momentos dignos de um thriller dos melhores, mas também por tédio, que demonstra o quanto tempo Maya dedicou sua vida a essa caça absurda. O roteiro é construído como um quebra-cabeças, que bem expressa a sensação de labirinto em que seus personagens se encontram. Enfim, eu ficaria feliz pela vitória de quaisquer dos dois trabalhos, embora admita que talvez torça um pouquinho mais por Mark Boal, especialmente pelo fato de essa ser provavelmente a única categoria em que o filme realmente tenha chance de ganhar. Boal foi o premiado do WGA, mas vale lembrar que nem Tarantino nem Haneke eram elegíveis. Vou apostar numa vitória de Amour.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Mais uma barbada: Anne Hathaway vai ganhar, por Les Mis. E, olha, gosto dessa atriz, mas, infelizmente, o trabalho dela é o que menos me agrada entre as cinco. Minha favorita é Amy Adams, por The Master. Helen Hunt também está excelente em As Sessões – injustamente, essa é a única categoria em que o filme está indicado. Sally Field é competente em Lincoln e Jacki Weaver é minha coisa favorita a respeito de Silver Linings. Mas, aqui, já sabemos quem ganhou o Oscar.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Essa é mais uma categoria muito difícil de prever, porque, praticamente, cada um dos indicados ganhou algum precursor. Phillip Seymour Hoffman ganhou o Critic’s Choice Awards. Tommy Lee Jones ganhou o SAG. Christoph Waltz ganhou o Globo de Ouro e o BAFTA. Robert DeNiro não ganhou nada, mas eu vejo muita gente apostando nele, até porque, supostamente, essa é a primeira vez, em muito tempo, que DeNiro “atua de verdade”. Alan Arkin é o mais improvável para ganhar, mas, não sei; com todo esse amor por Argo, não daria pra duvidar de nada. Meu favorito é, de longe, Phillip Seymour Hoffman. O trabalho dele em The Master está em outro nível. Gosto também das interpretações de Jones e Waltz, mas talvez por motivos diferentes. Em suma: creio que Jones potencializou o que já era um papel com potencial, num bom roteiro; Waltz conseguiu dar um pouco mais de vida a seu personagem, embora a coisa toda tenha muito gosto de déja vu. Quanto à previsão: é bem difícil, e houve um momento em que achei que Daniel Day-Lewis seria o único Oscar que Lincoln ganharia. Ainda vejo isso como possibilidade. Mas, nesse momento, estou mais inclinado a apostar em Tommy Lee Jones.

MELHOR ATRIZ

Não entendo o que Naomi Watts faz aqui. É excelente atriz, mas seu filme foi um dos mais chatos que assisti na temporada e seu papel é tão pequeno que poderia, então, valer como coadjuvante. Quvenzhané Wallis, por sua vez, é a alma de seu filme e foi bacana terem indicado-a. Ela consegue transmitir muita coisa, muitas vezes só com olhares. Jennifer Lawrence esteve excelente quando foi indicada, alguns anos atrás, por Inverno da Alma. Aqui, com Silver Linings, eu simplesmente não entendo o que há de tão especial. Uma boa/ok interpretação num filme totalmente dispensável. Jessica Chastain e Emmanuele Riva seriam minhas favoritas. Talvez a interpretação que detenha o maior grau de dificuldade seja a da francesa Riva, embora numa primeira olhada ela fique um tanto ofuscada por Jean-Louis Trintignant – verdade seja dita, aliás: Trintignant merecia, igualmente, ter sido indicado. Parece que, no apagar das luzes, está havendo todo um movimento em prol de Riva. A dificuldade toda, na verdade, é simplesmente arrastar os votantes até o filme, porque muitas pessoas não querem ter de tolerar assistir por duas horas ao sofrimento de um casal de velhinhos. Mas, bem. Dedos cruzados para que esse movimento resulte em alguma coisa. Eu adoto o ceticismo como filosofia. Acredito que o Oscar irá para Jennifer Lawrence.

MELHOR ATOR

Antes de mais nada, que seja dito: obviamente Daniel Day-Lewis ganhará o Oscar de melhor ator por Lincoln. E não que não seja uma boa escolha, mas, certamente, havia outras possibilidades. Meu favorito na categoria – sim, você acertou – é Joaquin Phoenix, por The Master, num trabalho de criação muito envolvente. Me sinto também muito entusiasmado com a atuação de Denzel Washington em Flight. Mas obviamente, Day-Lewis também realizou um bom trabalho e será um vencedor digno. Não vejo nada demais, realmente, nas atuações de Bradley Cooper e Hugh Jackman, embora eu conceda que Cooper realiza um trabalho sólido num filme que não me inspira elogios. Mas não o teria indicado ao Oscar – tampouco, Jackman.

MELHOR DIRETOR

Aqui reside a dificuldade. Ben Affleck não pára de acumular prêmios por Argo. Mas sem estar indicado, fica um pouco difícil, não é? A menos que os votantes resolvam acrescentar seu nome a caneta, no final da cédula – não que isso não tenha sido sugerido, ao longo da temporada, ou mesmo que não haja precedente. Mas, bem… pouco provável. Muita gente acha que, então, fica entre Spielberg e Ang Lee, dois diretores que já venceram o Oscar no passado. E pode ser que seja assim. Mas essa é uma categoria que vejo, realmente, aberta. É uma das poucas em que vejo justificada a margem para arriscar algo fora do convencional. Sempre acontece alguma surpresa no Oscar, embora a gente nunca consiga adivinhar qual. Então, aqui, não é propriamente apostar no escuro. A disputa está, de fato, acirrada. E vejo, portanto, a possibilidade de ser premiado alguém que não esteja aparecendo tanto, mas que, me parece, está lá nas cabeças. É David O. Russell, por Silver Linings Playbook.

MELHOR FILME

Alguns comentários sobre cada filme.

AMOUR: Não é meu Haneke favorito. Pessoalmente, gosto mais de “A Fita Branca” e “Caché”. Mas é, de todo modo, um exercício de excelência no cinema, é um dos melhores filmes que vamos ter tido oportunidade de ter visto esse ano. O filme é, de modo geral, rigoroso, metódico, clínico. Mas eu não seria capaz de descrever a potência que tem um dos momentos de mais poesia que vi no cinema recentemente: a cena da pomba. Aquilo é avassalador – como também é a cena do “monstro”. E, afinal, parabéns ao Oscar por ter sido tão generoso com ele, já que, sabemos, afinal, Haneke não costuma ser bem a praia do Oscar. ♦♦♦♦

ARGO: O que acontece: esse é um filme que não tem muitas ambições, um filme ok, com potencial para ser ok, potencial esse que vinha sendo alcançado até o filme – na minha opinião – derrapar feio no final. Ficou bem difícil levá-lo a sério depois disso, porque o filme simplesmente se sedimenta numa série de clichês. Resultado final: um pouco pior que ok. Mas, daí, ele chega, ganha uma enxurrada de prêmios, se gabarita pra ganhar o Oscar e, então, isso potencializa o descontentamento que tu teve com ele. Não é um filme péssimo. Mas é de uma mediocridade frustrante. ♦♦1/2

BEASTS OF THE SOUTHERN WILD [Indomável Sonhadora]: Também é um filme, acredito que possa-se dizer, relativamente despretensioso. Mas não tenta dar um passo maior que a perna. É, na verdade, uma história muito comovente, centrada na potência da inocência de uma criança. De como diante de tanta pobreza, de tanta feiúra, de tanto desespero e de tanta realidade, a sua fantasia a leva a lugares inimagináveis. Acredito que Benh Zeitlin acertou em cheio. ♦♦♦1/2

DJANGO LIVRE: Eu confesso – eu não tinha uma grande expectativa para o filme, então não posso propriamente dizer que ele me desapontou muito. Mas é frustrante, no sentido de que é um cineasta talentosíssimo e, no entanto, me pareceu estar no mode “piloto automático”, já desde a escrita do roteiro. Gosto de algumas poucas coisas no filme: Samuel L. Jackson – que, a bem da verdade, teve o papel mais bem construído -; Christoph Waltz, um poço de carisma. Mas o filme é longo, repetitivo, cansativo, desnecessário e extremamente previsível. Um filme de pretensão artística, mas, a meu ver, pretensão fracassada, ao final. Acontece nas melhores famílias. ♦♦1/2

LES MIS [Os Miseráveis]: Me sinto bem em cima do muro, com esse filme. Acho que, no final, o que acontece com ele é que ele não me toca. Foi um dos filmes mais “polarizantes” da temporada, bastante “ame-o ou deixe-o”. Eu não detestei o filme, mas também não fiquei muito empolgado. Mais uma vez: desnecessariamente longo. Algumas coisas funcionaram melhor que outras. Não acho Hugh Jackman um grande ator, então o fato de ele carregar o filme nas costas é um tanto quanto problemático. A câmera invasiva de Tom Hooper, de fato, incomodou em alguns momentos, mas, tenho a impressão que alguns números musicais funcionaram melhor que outros. Há alguns bons momentos emocionantes, mas me parecem mais fragmentados ao longo do filme do que produzindo um conjunto. Gostei dos momentos cômicos com o casal de escroques Sacha Baron Coen e Helena Bonham Carter. É, nem lá, nem cá, com esse aqui. ♦♦♦

LIFE OF PI: Não é um filme que amo, mas, certamente, é um dos filmes que mais respeito entre os indicados. Ang Lee é um excelente diretor, tem um senso de ritmo e de emoção muito precisos. Viajando por universos os mais diversos, ele é capaz de provocar algumas das questões mais inquietantes à alma humana. Acho, sim, que o filme tem alguns altos e baixos, mas que os altos superam os baixos. Acho o modo com a espiritualidade é abordada aqui absolutamente inquietante. É, afinal, uma história tão humana. Enfim, considero um empreendimento muito bem-sucedido. ♦♦♦1/2

LINCOLN: Um tanto semelhantemente ao filme anterior, não é um filme que amo, mas um que admiro bastante. Eu admito que o filme, como falou-se, é dotado de uma sobriedade, de uma discrição, que nem sempre são característicos dos filmes de Spielberg. No entanto, confesso que ainda há alguma coisa um tanto… doce, positiva, otimista, aqui, que talvez se traduz melhor no momento mais musical do filme, quando a emenda é aprovada. Não é uma história água com açúcar, obviamente, mas ainda o vejo bem mais como apolíneo que como dionisíaco. No entanto, há coisas muito admiráveis no filme, as quais já descrevi – o roteiro magnífico, as interpretações, a fotografia. Enfim, eu o consideraria um vencedor de melhor filme bastante digno, mas, este ano, a Academia tinha outros planos. ♦♦♦1/2

SILVER LININGS PLAYBOOK [O Lado Bom da Vida]: Lembro que quando li a respeito do filme anterior de David O. Russell, O Vencedor, fez-se referência a uma certa inflexão cassavetiana naquele filme. Eu consigo ver um pouco de Cassavetes lá e aqui também. E, possivelmente, essa é a melhor coisa que posso dizer a respeito desse filme. Veja bem: o filme tem uma premissa interessante. O personagem principal, de Bradley Cooper, com seu otimismo incorrigível, ingênuo e até mesmo neurótico, me lembra a personagem daquele filme de Mike Leigh de alguns anos atrás, “Happy-Go-Lucky”. Algo naquele estilo, ou mais Cassavetes, certamente teriam melhorado o filme de O. Russell. Mas, não, ele inicia com essa premissa interessante e, lá pelas tantas, veja só, é comédia romântica e apenas nada mais do que uma comédia romântica. Bem, aqui eu traço a linha. O filme me faz terminar com um gosto azedo na boca – e digo isso não num bom sentido. É tão falso que dá vontade de pedir o dinheiro de volta na bilheteria. Django Livre, de Tarantino, é um filme que considero ter mais falhas do que um queijo tem buracos. Mas é, apesar de tudo, um filme de pretensão artística, que fracassa. O filme de O. Russell, creio, ao final, não tem pretensão artística alguma – o que não quer dizer que ele não conte com alguma ajuda dos seus atores. ♦♦

ZERO DARK THIRTY [A Hora Mais Escura]: Bem, esse filme sofreu um ataque injusto nos EUA e tenho notado que alguns críticos brasileiros também não estão lhe dando passe livre. Agora, Kathryn Bigelow é uma cineasta magistral e é um crime que ela não tenha sido indicada como melhor diretora. A história de Maya e a história dos EUA durante a caça a Bin Laden é, como Bigelow coloca, a história de uma década sombria. Quem interpreta o filme como propaganda nacionalista está obviamente enxergando alguma coisa que não está lá. O filme de Bigelow é impecável, em todos os sentidos, expondo o ser humano no que há de mais sujo e repugnante nele mesmo, sem, no entanto, moralizar suas imagens. Ela mostra, ela faz cinema. Eu não poderia esperar nada mais de uma obra de tamanha magnitude. ♦♦♦♦♦

Bem, dito tudo isso, vocês já sabem, não há dúvidas, Argo será o escolhido. Não é, de fato, uma escolha muito inspirada, mas, talvez, esperar diferente da Academia seria esperar que ela fosse algo que ela não é. Aceite-se isso como se puder.

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TOP 10’S!

Aqui está o aguardado – ao menos por mim – post que trata dos filmes tidos como os melhores do ano. A dificuldade em elaborar essa seleção é sempre a definição de critérios próprios. Tu tem que limitar as possibilidades, de alguma forma. O que entra? Filmes assistidos esse ano? Filmes vistos no cinema? Pré-Oscar, Pós-Oscar? Filmes baixados? Filmes antigos que assisti esse ano? Uma vez eu tentei estabelecer critérios muito meticulosos e, no final, a lista acabou não saindo muito com cara de top 10. Serei injusto, inevitavelmente. Acho o critério “filmes que eu vi no corrente ano” o menos pior, provavelmente. Mesmo assim, fica estranho quando tu compara tua lista com as dos críticos, principalmente internacionais, e nota que há coisas na lista deles que só poderão estar na tua ano que vem. Enfim, eu poderia seguir.

Já é o quarto ano consecutivo que faço TOP 10’s para o blog. Devo dizer que, revisitando as três listas passadas, não me sinto muito envergonhado. Retomando o modo como apresentei meu top 10 do ano passado, este ano seguem, antes das minhas escolhas pessoais, algumas que julguei mais importantes, com breves comentários.

ANA MARIA BAHIANA

The Master (“O Mestre”, Paul Thomas Anderson)

Life of Pi (“As Aventuras de Pi”, Ang Lee)

Zero Dark Thirty (“A Hora Mais Escura”, Kathryn Bigelow)

Moonrise Kingdom (Wes Anderson)

Argo (Ben Affleck)

Amour (“Amor”, Michael Haneke)

Skyfall (“007 – Operação Skyfall”, Sam Mendes)

Beasts of the Southern Wild (“Indomável Sonhadora”, Benh Zeitlin)

Lincoln (Steven Spielberg)

The Dark Knight Rises (“Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, Christopher Nolan)

Comentários: A lista de Ana Maria Bahiana, para o UOL, reflete o consenso, de modo geral, dos críticos norte-americanos. Estabelecida em Hollywood e votante do Globo de Ouro, ela traz alguns dos longas mais aclamados pela categoria dos críticos – Amour, Zero Dark Thirty, Moonrise Kingdom, Argo, Skyfall, Beasts, The Master (esse já mais divisivo, mas com muitos apaixonados). Não quer dizer que vão se dar bem no Oscar. Mais interessante, que talvez foge do convencional, é a escolha pelo “Dark Knight Rises” de Nolan, longe de ter sido um consenso este ano, mas um filme definitivamente sólido que, também ele, tem seus fãs. A lista, como se nota, não está ordenada. Sempre tendo a não gostar disso.

ROGER EBERT

1.Argo

2.Life of Pi

3.Lincoln

4.End of Watch (“Marcados para Morrer”, David Ayer)

5.Arbitrage (“A Negociação”, Nicholas Jarecki)

6.Flight (“O Vôo”, Robert Zemeckis)

7.The Sessions (“As Sessões”, Ben Lewin)

8.Beasts of the Southern Wild

9.Oslo, August 31 (Joachim Trier)

10.A Simple Life (Ann Hui)

Comentários: Ebert é um dos críticos mais respeitados do planeta. Argo é um filme de que não gosto, não adianta, por mais que tenha agradado muita gente. Acho que agrada essa sua “palatalidade”, mas eu tiro muito pouco do filme, que vinha ok até derrapar imperdoavelmente no final. Ebert mostra também amor por End of Watch e Arbitrage, o que é notável. São dois pequenos bons filmes, que cumprem perfeitamente com aquilo que se propõem fazer. Flight, por sua vez, não foi consenso, mas é um dos poucos filmes da nova temporada do Oscar que me interessa. Ficar de olho também no intruso que vem da Dinamarca: ouço falar bem desse filme, que vem com o pedigree de Joachim Trier, bom jovem cineasta.

CAHIERS DU CINÉMA

1.Holy Motors (Leos Carax)

2.Cosmopolis (David Cronenberg)

3.Twixt (Francis Ford Coppola)

4.4h44 Last Day on Earth (“4h44: O Fim do Mundo”, Abel Ferrara)

In Another Country (Sang Soo-Hong)

Take Shelter (“O Abrigo”, Jeff Nichols)

Go Go Tales (Abel Ferrara)

8.Tabu (Miguel Gomes)

9.Fausto (Aleksandr Sokurov)

10.Keep the Lights On (Ira Sachs)

Comentários: Ok, a lista da “Cahiers” é totalmente “take it or leave it”, certo? Eu adoraria poder me render ao primeiro lugar conferido a Holy Motors – exceto que a Imovision não foi, ainda, tão caridosa com minha cidade. Vou ficar devendo. Cahiers tem o seu gosto e recusa fazer concessões. Respeito isso, e acho louvável. Não gosto de Cosmopolis de Cronenberg, o que é pena, porque queria muito ter gostado. Já o Take Shelter de Jeff Nichols é presença a ser louvada, assim como o deslumbrante Tabu, do qual vocês ouvirão mais em breve, tenho certeza. Assisti ao filme de Ira Sachs, que vale principalmente pela comovente interpretação de Thure Lindhart, mas, de modo geral, não consideraria “top 10 material”. Cahiers é isso aí, gente. Tão numa vibe bem Abel Ferrara esse ano. Mas respeito, respeito muitíssimo. Ano passado, o número 1 deles foi Habemus Papam, que considero um dos mais fracos da seleção de Cannes-2011, a despeito de admirar muito Nani Moretti. No ano anterior, o número 1 deles foi “Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas”, não por acaso, meu número 1 de 2011.

ZERO HORA

Hugo (“A Invenção de Hugo Cabret”, Martin Scorsese)

A Separação (Asghar Faradi)

As Praias de Agnes (Agnes Varda)

Drive (Nicolas Winding Refn)

Fausto

Habemus Papam (Nani Moretti)

Moonrise Kingdom

Pina (Wim Wenders)

Tropicália (Marcelo Machado)

Violeta foi para o Céu (Andrés Wood)

Comentários: Essa lista é fraca, não há como contornar. Sinto bastante. Retomem o que escrevi sobre a lista dos críticos de ZH no ano passado: exaltei a lista, por sua qualidade e, especialmente, por ela não ter cedido ao óbvio e convencional. Esse ano, as escolhas me parecem muito pouco inspiradas. Tropicália? Por quê? Habemus Papam? Ok, vão me chamar de hipócrita: “Cahiers pode, ZH não.” E ZH, ano passado, também lembrou de “Tio Boonmee”. Cedo. Mas Habemus me foi uma sentida decepção esse ano. Não sei, mas me incomoda, especialmente pensando no que a lista poderia ter sido. Lembro que concordei muito com os críticos de ZH, no início do ano, acerca das ausências mais sentidas do Oscar. Onde estão aqueles filmes? Dica: na minha lista, estão alguns. E aproveito, também, para dizer: A Separação, que tornou-se consenso entre os críticos, Urso de Ouro em Berlim-2011, Oscar de Filme Estrangeiro, em quantas listas ele não aparece no Top 10? Bem, para mim, é um bom filme, mas eu simplesmente não vejo motivo para tanta badalação. Respeito a escolha por Fausto, embora, a mim, ele não tenha tocado.

KRIS TAPLEY

1.The Grey (“A Perseguição”, Joe Carnahan)

2.Moonrise Kingdom

3.Looper (“Looper: Assassinos do Futuro”, Rian Johson)

4.Django Unchained (“Django Livre”, Quentin Tarantino)

5.Amour

6.Lincoln

7.Zero Dark Thirty

8.Argo

9.The Queen of Versailles (Lauren Greenfield)

10.The Master

ANNE THOMPSON

1.Life of Pi

2.Beasts of the Southern Wild

3.Zero Dark Thirty

4.Silver Linings Playbook (“O Lado Bom da Vida”, David O. Russell)

5.Lincoln

6.End of Watch

7.Argo

8.The Sessions

9.Moonrise Kingdom

10.Anna Karenina (Joe Wright)

Comentários: Kris Tapley e Anne Thompson são críticos norteamericanos, que colaboram no excelente podcast “Oscar Talk”, e escrevem para seus respectivos sites, “In Contention” e “Thompson on Hollywood”. Normalmente, o meu gosto bate bastante com o do Kris, enquanto tendo a achar o da Anne um pouco mais “light”, mesmo “vanilla”, embora, eventualmente, eu responda a algumas das escolhas dela. Esse ano, notavelmente, as listas deles estão semelhantes. Me desapontei um pouco com as escolhas do Kris. Moonrise tão alto? Esse filme The Grey, bem feito, mas que é apenas ok? Looper, também não consigo achar tudo isso. E tudo me parece tão hollywood-centric. Mesmo os indies pouca chance têm aqui. Digo, os indies-indies, não os indies disfarçados. A lista da Anne, talvez por eu ter menos expectativas, parece-me ligeiramente melhor, especialmente pela ordem dos filmes. Verdade que aí está Argo, mas não sei o que acontece com os críticos e esse filme. Deveria me perguntar o que acontece comigo e esse filme, talvez? Outra coisa que estraga é a presença de “Silver Linings”. Certo, eu não vi. Mas dê uma olhada no trailer. Dê uma olhada no buzz. Dê uma olhada no O.Russell. Não soa boa coisa. Interessante que volta a aparecer End of Watch. Também acho apenas ok. No fim, o que resta, são as expectativas, especialmente para “The Master”, “Amour” e “Zero Dark Thirty”. Noto que os americanos sentem que esse ano foi forte. Eu não vejo assim. Poucas vezes me vi tão pouco investido numa temporada de Oscars, a despeito de tudo estar, ainda, bastante imprevisível. Espero que goste bastante desses três que citei, porque senão… Mas, a essas alturas, me parece que Lincoln é o filme a ser batido.

PETER TRAVERS

1.The Master

2.Zero Dark Thirty

3.Beasts of the Southern Wild

4.Lincoln

5.Argo

6.Silver Linings Playbook

7.Life of Pi

8.Les Misérables (Tom Hooper)

9.Moonrise Kingdom

10.Django Unchained

11.The Dark Knight Rises

Comentários: Peter Travers é um dos mais respeitados críticos norteamericanos. Mas acho que ele é ainda melhor, enquanto crítico, como detrator dos filmes ruins do que elogiador dos filmes bons. Dê uma olhada nos vídeos do Scum Bucket – aquilo é pura alegria em formato de rabugice. Travers escolheu provavelmente os dois melhores filmes americanos da temporada no seu top 2. Mas ele acha jeito, também, de elogiar Les Mis (hmmm, veremos) e Silver Linings. E, mais uma vez, sobra amor pra Dark Knight Rises.

O GLOBO

1.Shame (Steve McQueen)

2.Argo

3.Like Someone in Love (“Um Alguém Apaixonado”, Abbas Kiarostami)

4.Pina

5.Habemus Papam

6.Holy Motors

7.A Separação

8.The Artist (“O Artista”, Michel Hazanavicius)

9.Moonrise Kingdom

10.A Música Segundo Tom Jobim (Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim)

Comentários: Mais uma vez Habemus Papam, A Separação, Argo…. Qual o problema de vocês, críticos? Brincadeiras à parte, eu digo que fica difícil avaliar essa lista, sem ter assistido ao Kiarostami ou ao Leos Carax. Então, a coisa fica inconclusiva. Mas digo, mais uma vez, respeitar as escolhas pouco convencionais do “Globo”, mesmo sem concordar com algumas delas (eu já fizera esse mesmo comentário no ano passado). E digo também que uma lista que põe “Shame” em seu número 1 merece minha máxima admiração.

LUIZ ZANIN

Brasileiros:

A Música Segundo Tom Jobim

Sudoeste (Eduardo Nunes)

Era uma Vez Eu, Verônica (Marcelo Gomes)

Uma Longa Viagem (Lúcia Murat)

Cara ou Coroa (Ugo Giorgetti)

Mr. Sganzerla – Signo da Luz (Joel Pizzini)

Eu Receberia as Piores Notícias dos seus Lindos Lábios (Beto Brant)

Tropicália

A Febre do Rato (Cláudio Assis)

Raul Seixas – O Início, o Fim e o Meio (Walter Carvalho)

Estrangeiros:

Habemus Papam

Mistérios de Lisboa (Raul Ruiz)

Fausto

A Separação

Cosmopolis

Like Someone in Love

Holy Motors

Le Havre (“O Porto”, Aki Kaurismäki)

Les Neiges du Kilimandjaro (“As Neves do Kilimanjaro”, Robert Guédiguian)

No (Pablo Larraín)

Comentários: O Zanin, do Estadão, trapaceia, porque faz listas intermináveis. Aqui vai um comentário sobre os filmes brasileiros, então: me sinto desapontado. Minhas duas primeiras listas de filmes do ano tiveram filmes brasileiros não apenas no seu top 10, como no top 5 (!!). Isso diz algo. Ano passado, vi alguns bons filmes nacionais, e algum mereceu destaque entre as menções honrosas. Esse ano, eu praticamente não assisti filmes brasileiros, porque, honestamente… eles não estavam parecendo muito atraentes. Gostei muito do doc de Walter Carvalho sobre Raul Seixas. E é isso. Verdade que perdi alguns que gostaria de ter visto, como “Eu Receberia as Piores Notícias…”, “Heleno” e “A Febre do Rato”, que, no entanto, não exatamente duraram muito tempo em cartaz, não é? Mesmo assim, me parece que a safra foi bem ruim. Tu acompanha o buzz, minimamente. Honestamente, tenho grandes espectativas por “O Som ao Redor”, mas veremos o que acontece. Quanto às escolhas internacionais, gosto de “No”. Queria ter assistido “Kilimanjaro”. “Le Havre” foi uma surpresa positiva, porque esperava pouco após ter lido sobre o filme na época de Cannes-2011.

MERTEN

1.Intouchables (“Intocáveis”, Olivier Nakache e Eric Toledano)

2.The Artist

3.Holy Motors

4.A Separação

5.A Febre do Rato

6.Sagrado Segredo (André Luiz Oliveira)

7.Minha Felicidade (Sergei Loznitsa)

8.War Horse (“Cavalo de Guerra”, Steven Spielberg)

9.Le Quattro Volte (“As Quatro Voltas”, Michelangelo Frammartino)

10.The Hobbit (“O Hobbit”, Peter Jackson)

Comentários: Merten, do Estadão, é meu crítico favorito, já devo ter dito isso algumas vezes. Nossa, como tu aprende lendo o blog dele. Isto posto, me sinto compelido a exclamar: que lista horrível! War Horse? The Hobbit? (Tu escuta o buzz.) E, principalmente, antes de qualquer coisa: “Intocáveis”? Esse posso falar, sem qualquer intimidação. Péssimo filme, péssimo. Merten continua sendo meu crítico favorito, mas, crianças, eu não usaria as listas dele para me guiar sobre o que assistir no fim de semana.

INÁCIO

Melhor: Mistérios de Lisboa

Mais agradável: Habemus Papam

Mais enganador: Drive

Mais poderia ser e não foi: Argo

Mais arriscado: Elefante Blanco (“Elefante Branco”, Pablo Trapero)

Melhor retorno: Cosmopolis

Memoráveis: Moonrise Kingdom, On the Road (“Na Estrada, Walter Salles), Carnage (“Deus da Carnificina”, Roman Polanski)

O menos visto: Cara ou Coroa

O mais “unânime”: Tropicália

Decepções pernambucanas: Era uma vez Verônica e  A Febre do Rato

Alegria pernambucana: O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho)

Mais errado: Corações Sujos (Vicente Amorim)

Mais chorão: Gonzaga, de Pai para Filho (Breno Silveira)

O Mais ou Menos: Boca (Flavio Frederico)

Mais fantástico: O Homem que Não Dormia (Edgard Navarro)

O Mais “Entre”: Luz nas Trevas (Helena Ignez & Ícaro Martins)

Comentários: E o Inácio, da Folha de SP, acho que meio enjoado de fazer Top 10’s, optou por esse outro formato aqui. Não compartilho do desdém dele por “Drive”, mas acho que até entendo. Inácio, embora não conste nessa lista, foi um dos poucos críticos que se atreveu a falar mal de filmes de consenso, como “Holy Motors”. Veremos. Mas, enfim, eu gostaria de um top 10 clássico.

NEW YORK TIMES

1.Amour

2.Lincoln

3.Beasts of the Southern Wild

4.Footnote (“Nota de Rodapé”, Joseph Cedar)

5.The Master

6.Zero Dark Thirty

7.Django Unchained

8.Un Amour de Jeunesse (“Adeus, Primeiro Amor”, de Mia Hansen-Love)

9.O Som ao Redor

10.The Grey

Comentários: Haha, bons augúrios para o filme de Kleber Mendonça Filho? Bacana esse reconhecimento. Veremos se faz jus ao buzz. O que me surpreende muito, no entanto, nessa lista, é a presença de Footnote, outro herdeiro de Cannes-2011. Mas a lista me parece suficientemente singular para eu me queixar.

SIGHT AND SOUND

1.The Master

2.Tabu

3.Amour

4.Holy Motors

5.Beasts of the Southern Wild

Berberian Sound Studio (Peter Strickland)

7.Moonrise Kingdom

8.Dupa Dealuri/Beyond the Hills (“Além das Montanhas”, Christian Mungiu)

Cosmopolis

Once Upon a Time in Anatolia (Nuri Bilge Ceylan)

This Is Not a Film (“Isso Não é um Filme”, Jafar Panahi)

Comentários: Tendo assistido apenas a 5 filmes desta lista de 11, eu digo que, entre todas, foi a que mais me agradou. Não exatamente concordo com a votação promovida pela revista, que sacramentou Vertigo de Hitchcock como o maior filme de todos os tempos, à frente do Kane de Orson Welles, mas, este top 1011 anual parece bem satisfatório.

GUY LODGE

Aguardo a lista do Guy, também crítico do In Contention, e que está disputando comigo para ver quem entrega a lista mais atrasada do ano.

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Isto posto, vamos ao top 10 do blogueiro que vos fala.

Sabem que tradicionalmente, todo ano, antes do top 10, eu trago uma pequena listinha de menções honrosas. Esse ano farei diferente. Acho que tivemos alguns bons filmes esse ano, embora eu esteja longe de concordar com os americanos de que esse foi um grande ano. Mas ao repassar filme após filme, cheguei, no final, a um número insatisfatório: 11. Bem, eu me sinto bastante confortável para criticar as listas dos outros, quando elas não vêm ordenadas, ou vêm com truques para caber mais filmes. Então, me vi forçado a excluir um do top 10. E por essa forma, para honrá-lo, ele será a única e solitária menção honrosa do ano. Este filme é…

A Dangerous Method (“Um Método Perigoso”), de David Cronenberg. Basicamente, gosto de tudo nesse filme, não tenho nenhum problema com ele. A criticada interpretação de Keira Knightley não me incomoda nem um pouco, pelo contrário. O filme foge um pouco à tradição “visual” do cineasta canadense, porque ele é todo fala, todo roteiro. Isso não é ruim. Cronenberg faz um filme sobre a tão controversa (não só na aurora do século XX, ainda hoje, mesmo), cura pela fala, cortesia do senhor Sigmund Freud. Então, seu filme é todo fala. Ele faz algo como um “pedaço de biografia intelectual” de Jung, justamente mostrando o momento em que seu caminho se cruza com o de Freud, para ser, adiante, inapelavelmente separado. Cronenberg vai ao íntimo da relação entre Jung e Sabina Spielrein, mostrando o quanto, para além de grandes nomes no desenvolvimento e na história da Psicologia Clínica e da Psicanálise, não conseguiram trair aos próprios destinos, pessoas da época e da sociedade que eram, terminando tão solitários e próximos da loucura como os pacientes que eles próprios vieram a ajudar.

Vamos ao top 10, sem mais delongas.

10

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Sleeping Beauty (“Beleza Adormecida”, Julia Leigh)

Esse filme foi muito pouco visto, tenho certeza. Eu mesmo só consegui pegá-lo na matinê de uma quarta-feira ensolarada, no meio do ano, num dos cinemas menos freqüentados da cidade. O longa de estréia da romancista australiana Julia Leigh foi um dos menos bem recebidos pela crítica, durante sua exibição no Festival de Cannes de 2011 (certamente precisamos retomar Cannes-2011), muito em função de sua frieza, sua austeridade, sua inadequação – e vamos dizer bem: sua esquisitice. Ao retratar a fábula de uma bela adormecida contemporânea, uma jovem estudante que, em plena era da emancipação feminina, opta por prostituir-se para complementar a renda de três outros empregos, que ajuda a pagar os estudos. Leigh nos apresenta a uma personagem algo robotizada, algo amorfa. Mas isso é o que há pela superfície. Lá pelas tantas, qualquer coisa de bizarra acontece – não a primeira no filme. E um velho homem conta uma história. E não sabemos se ele está falando dele mesmo ou não. Mas sabemos, isso, sim, que Leigh está nos mostrando, por meio desse velho homem, de sua história, algo que toca à moça sinistra que acompanhamos, à bela inconsciente. Leigh está contando, fundamentalmente, a história de algo quebrado, algo que se partiu. Você pode também usar a metáfora do adormecimento, que é relativamente fácil, para compreender o estado catatônico da personagem, relacioná-lo com algo como uma espécie de coma existencial em que vivemos. Não digo que esteja de todo errado. Mas há certamente algo muito mais profundo e intrigante naquilo que Leigh nos apresenta mais explicitamente. Definitivamente um filme a ser revisitado.

9

On The ROad New Picture (4)

On the Road (“Na Estrada”, Walter Salles)

Pode uma obra como o livro de Jack Kerouac ser adaptado para as telas? Sim, definitivamente. Contanto que ela consiga preservar o espírito libertário, irresponsável, louco, da obra original. Não será a mesma coisa, mas será um pedaço de arte que caminha com as próprias pernas. Assim vejo o filme de Walter Salles, que faz brotar das bocas de seus personagens sujos aquelas frases que nos assombram quando retornamos para nossas vidas mundanas: “The only people for me are the ones that are mad. The ones that are mad to live, mad to talk, mad to be saved.” Não são esses personagens, talhados com tanto carinho por seu escultor, apenas jovens idiotas que ainda não aceitaram a ordem natural das coisas: que ainda não abandonaram as noitadas de blues e álcool, as pernas escancaradas prontas para o sexo, o frescor do suor infernal da vida na estrada, o vigor de estar pronto para a próxima novamente. Eles são verdadeiramente almas insanas, torturadas pela insatisfação que o dia-a-dia põe à mesa, eles querem transcender os próprios poros, eles querem fazer as páginas envelhecidas da cópia gasta de “Swan’s Way” transcender, tomar vida por eles próprios, eles desejam, eles precisam, eles suplicam. E se essa inquietação transparece efetivamente na fotografia de Eric Gautier, na música do genial Gustavo Santaollala e nas palavras entoadas como música pelos frágeis e ávidos argonautas de nosso tempo, bem, então creio que Walter Salles fez seu trabalho muito bem feito.

8

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Young Adult (“Jovens Adultos”, Jason Reitman)

Acho que Jason Reitman, em sua segunda parceria com Diablo Cody, encontra, mais uma vez, com muita precisão, um jeito de falar sobre o estado da arte, no que se refere aos relacionamentos humanos e à (falta de) maturidade emocional. De modo geral, se tu tomar a curta carreira de Reitman, verá que ele está sempre falando disso, mesmo nos seus outros três longas (“Thank You for Smoking”, “Juno” e “Up in the Air”), ele está fazendo um comentário sobre como as pessoas se relacionam e como lidam com seus problemas. E como, muitas vezes, não lidam: varrem-nos para debaixo do tapete, capricham na maquiagem e vendem o seu peixe. Reitman já mostrou isso de maneiras mais humoradas, como nos seus dois primeiros filmes. De “Up in the Air” pra cá, há um agravamento notável, um ar sério, muito embora “Young Adult” seja um filme, na sua essência, irônico. É impossível não rir da Mavis Gary de Charlize Theron, porque ela é, absolutamente, uma pessoa ridícula. Suas intenções, suas preocupações… tudo é tão pequeno e infantil e, ao mesmo tempo… é possível não se identificar com essa pequeneza tão humana? Certamente não é por outro motivo que quem se aproximará dela será o average joe dos averages joes, a “vítima de um crime de ódio” interpretado com sobriedade por Patton Oswalt – no fundo, tão loser quanto ela, embora disfarçado de “good guy”. É um filme de personagens, portanto. E de máscaras. Acho que Reitman acertou no tom, porque embora este seja um filme muito mais risonho do que “Up in the Air” (o roteiro de Cody tem, obviamente, uma graça e feminilidade que os separam), o filme tem também uma certa melancolia, que se expressa muitas vezes nos detalhes, como no alcoolismo enrustido de Mavis ou mesmo nos tons frios da pequena Mercury, filmada com acuidade pela câmera de Eric Steelberg.

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We Need to Talk About Kevin (“Precisamos Falar sobre o Kevin”, Lynne Ramsay)

Aqui é possível fazer uma declaração ousada: “Kevin” é a exceção da regra, o exemplo em que acredito ser possível dizer que o filme é superior ao livro. Isso é tão raro que, quando acontece, deve ser ressaltado. O romance de Lionel Shriver é um bom livro, sem dúvida, graças ao fato da escritora ser uma obsessiva observadora da alma humana. Ela compele seu leitor, presenteando-o com detalhes, peculiaridades e, ao mesmo tempo, não é compassiva com seus personagens, mostra-os quando são mais feios e tolos.  E, afinal, a escolha de Shriver, com esta obra, é tratar de um assunto delicado, mas importantíssimo: esses “kids columbine”, uma geração  norte-americana de adolescentes que, dos anos 90 pra cá, passou a interpelar o mundo com massacres, especialmente em escolas. E Shriver, decisão das decisões, opta por fazer isso a partir da perspectiva de uma mãe: não uma mãe vítima, mas uma mãe culpada, uma mãe confusa, indecisa entre o amor e o horror pelo próprio filho. Ponto para Shriver. Mas o que Lynne Ramsay faz é levar isso para o próximo nível. O filme de Ramsay, embora possa ser considerado uma adaptação fiel, difere muito no ritmo e no tom, embora conserve a atmosfera do romance de Shriver, talvez o seu elemento mais visceral e mais importante. Ramsay foi bem-sucedida em levar para as telas a angústia que perpassa a família Katchadourian, um Kevin perenemente desconfortável neste mundo e sua mãe desconfortável em corresponder com o papel que dela se espera: amá-lo. Ramsay consegue, portanto, com o uso magistral de música, com a pontuação de silêncios que faz gelar a espinha e com, vivas ao DP Seamus McGarvey, o uso do vermelho, fazer operar a idéia de que esta história, como Lionel Shriver uma vez disse, fala sobre a violência enquanto linguagem. Ramsay merece ser louvada por fazer todos esses elementos operarem a seu favor. Mas o principal deles, certamente, é a interpretação “fora deste mundo” da genial Tilda Swinton, que, por meio de um olhar, é capaz de expressar a alma torturada de sua personagem. Salvas também a John C. Reilly e ao jovem Ezra Miller.

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Tinker Tailor Soldier Spy (“O Espião que Sabia Demais”, Tomas Alfredson)

Surpreende a mim mesmo o quão alto esse filme, adaptação da obra de John Le Carré, está na lista. Mas é interessante porque algo diferente se passou aqui. É comum que a memória se enfraqueça em relação a títulos assistidos mais cedo no ano. E a memória, para um cinéfilo, faz toda a diferença. Com este filme, mesmo tendo-o assistido em fevereiro – 2 vezes, apenas – eu constantemente retornava a ele, e ele foi se fortalecendo em mim. O que dizer? Que excelente empreendimento cinematográfico! Tudo funciona aqui, harmoniosamente – o roteiro, os atores, o ritmo, a fotografia deslumbrante de Hoyte van Hoytema, a música formidável de Alberto Iglesias, a mise en scène como um todo de Alfredson. “Tinker Tailor” é o típico filme que, goes without saying, tu precisa assistir de novo. É um filme cerebral, naturalmente não se consegue acompanhar de uma só tacada todos os caminhos pelos quais Alfredson nos guia. À segunda vista, já se compreende melhor o labirinto pelo qual percorre George Smiley, em busca do agente duplo que colabora com os inimigos comunistas – capitaneados pelo temível Karla, que jamais vemos -, passando informações da agência da inteligência britânica. Aqui nós estamos envolvidos pela aura de nostalgia e paranóia da Guerra Fria. Alfredson consegue captar bem esse estado de confusão mental que causava um mundo bipolar, sem jamais perder a elegância. Como nos lembra a dado momento um dos personagens, a escolha, por quaisquer dos lados que fosse, era fundamentalmente uma escolha estética.

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This Must Be the Place (“Aqui É o Meu Lugar”, Paolo Sorrentino)

Aqui estou um pouco sozinho, não? Creio que somos poucos os apaixonados defensores desta pequena jóia apresentada por Sorrentino. Sorrentino, em vários elementos, bebe da tradição dos irmãos Coen – da escolha de Frances McDormand como a esposa do Cheyenne de Sean Penn, passando pelo judaísmo que se reverencia sem perder o riso e, especialmente, pelo tipo de humor,  um pouco autodepreciativo, um pouco mórbido. O filme é, fundamentalmente, uma história sobre o medo – o medo que nos engessa e nos impede de amadurecer. Essa é a história do frágil e infantil Cheyenne, com seu visual punk, seu desconhecimento sobre o mundo e as pérolas que recita freqüentemente, que vão de encontro a esse próprio desconhecimento, como: “Você já reparou que há um momento na vida em que paramos de dizer ‘Minha vida será assim’ e passamos a dizer ‘Assim é a vida’?” ou “Tenho a impressão de que tristeza não combina muito com tristeza.”, e que poderiam servir para as letras de música as quais Cheyenne não escreve mais. Quando convidado a ir em busca do homem que, em Auschwitz, torturou seu recém falecido pai, Cheyenne se reconecta com suas raízes judaicas, as quais ele esquecera totalmente. Mas, especialmente, com todo o frescor que Sorrentino adiciona, nos impedindo de acharmos que já vimos essa história antes, ele encarna o personagem típico do road movie, e põe seus medos à prova. Funciona maravilhosamente, em especial, pelo cuidado que Sorrentino tem com cada fração de sua narrativa; as múltiplas referências são deleites ao cinéfilo, como a piscina vazia (Tarkovski) em que Cheynne pratica pelota basca com sua esposa e uma cena crucial, que envolve uma máquina de fotografia e um assassinato (Antonioni). Há tantas cenas memoráveis que enumerá-las passa a se tornar injusto.

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Take This Waltz

Take this Waltz (“Entre o Amor e a Paixão”, Sarah Polley)

Melhor título teria o filme de Polley no Brasil – concordo que ficaria difícil traduzir a canção de Leonard Cohen simplesmente por “Tome Essa Valsa” – se fosse “Entre o Amor e o Amor”. Talvez não melhor, concedo isso: mas mais acurado, certamente. A história contada por Polley, ouso dizer, é a história de amor do ano. A hiperrealidade da mise en scène de Polley adere à narrativa para explicar por quê o amor é tão difícil de ser concretizado. Isso se denota na cena da janela, em que Margot tenta fazer as pazes com Lou, embalada pela belíssima canção de Jason Collet, “Rave on Sad Songs”, e que relê um dos mais belos filmes de amor já feitos: “O Eclipse”, de Antonioni. A bem da verdade, por mais visualmente vibrante que seja o filme de Polley, todo cores, e mimos, e hipsters canadenses vivendo em Little Portugal, se alguém quisesse contar a sua história apenas por meio da música, isso seria exeqüível. A sensibilidade de Margot em “Green Mountain State”, de Corinna Rose, o que, em última instância, será o que decreta a tragicidade de seu destino sentimental. Collett ajuda a explicar por quê histórias de amor duram apenas três minutos: o tempo de uma canção. Leonard Cohen, usado em “Closing Time” e na canção que dá título ao filme ajuda a explicar o fim das coisas, a morte de uma festa, ou a morte de uma dança: a valsa, como o sexo, é o perder-se no outro – é perder-se de si mesmo, portanto. E então, “Video Killed the Radio Star”, dos Buggles, dá o tom nostálgico do pequeno conto sem fadas de Sarah Polley: na história de Margot, há faíscas que indicavam a imortalidade dos seus sentimentos: quando ela de fato sentiu-se completa. Essas faíscas agora brilham apenas evocadas na memória, quando acessada pela música que dá sentido àqueles momentos. O filme de Sarah Polley é poesia para os corações ávidos por histórias de amor que durem mais que uma canção: ao menos 120 minutos.

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Dupa Dealuri (“Além das Montanhas”, Christian Mungiu)

Quando Mungiu fez “4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias”, a bela história de amizade entre duas moças que tentam realizar um aborto ilegal na Romênia dos últimos anos da ditadura Ceausescu, com seu naturalismo, sua pungência, sua falta de concessões, pensou-se: “Bem, e o que mais? Ele não conseguirá superar isso.” Na verdade, embora o filme tenha sido o único a receber dois prêmios em Cannes-2012, a maioria das pessoas acredita que, de fato, o Mungiu de 2012 não é tão bom quanto o de 2007, esse, sim, o filme que foi contemplado com o prêmio máximo em Cannes, a Palma. Inversamente, no entanto, “4 Meses” não foi indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro, o que causou grande comoção na época, já que foi um dos filmes europeus mais celebrados daquele ano e, diz-se, inclusive, foi o que acarretou que o Oscar modificasse em parte as regras para a indicação nessa categoria. O que temos aqui? Em 2012, “Além das Montanhas” está indicado na “lista curta”, de 9 títulos, e  segue na briga por uma indicação, muito embora os especialistas digam que ele seja, de longe, o azarão. Por quê? Por sua dureza, seu tema e visual sombrios, sua proclamada “falta de acessibilidade”. Razão pela qual, por exemplo, nos últimos anos, filmes como “Tio Boonme, que Pode Recordar Suas Vidas Passadas” e “Era uma vez na Anatólia” não receberam indicações, enquanto “A Fita Branca”, indicado, perdeu a estatueta para “O Segredo de Seus Olhos”. Exatamente por isso, vejo a presença do filme de Mungiu na lista curta deste ano como algo a ser celebrado. Dificilmente será indicado, mas, ao menos, nota-se um progresso. O filme de Mungiu é uma história delicada, que fala de fé, devoção, exorcismo e amor sem razão. Com seu rigor estético, o auteur romeno não faz concessões. Certamente, ele não espera condescendência de seu público. Mas aquele que se sentir tocado pela história narrada por Mungiu pode atestar que a experiência de assistir seu filme foi ímpar.

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Tabu (Miguel Gomes)

Estamos diante de uma obra-prima, senhoras e senhores. Tenho a impressão de que esse filme será lembrando por anos e anos vindouros. Eu estaria apenas me repetindo tornando a elogiar a potência da história contada por Miguel Gomes. É difícil deixar de pensar no filme uma vez que se lança os olhos sobre ele. Miguel elucida alguns pontos obscuros na sua recente entrevista à Cahiers du Cinéma, o que apenas deixa mais embasbacados os fãs de seu filme. “Tabu” é uma história de nostalgia, a história da rememoração de um paraíso – a juventude – que se perdeu. Essa nostalgia é apresentada não como pastiche, mas como imagem: eis o porquê da opção pela estética do filme silencioso na segunda metade do filme. A memória de algo tão antigo que deseja evocar vem apenas esfumaçada, como sonho. Estamos no limiar da metanarrativa. Tabu, esse algo interdito, mais que o amor proibido que é rememorado diante de nossos olhos: o tabu de dar cena aos fantasmas da juventude desse que é seu próprio objeto, o cinema.

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Shame (Steve McQueen)

A escolha do meu filme favorito foi feita absolutamente com o coração. Vivas a Steve McQueen. “Shame” não tem a inventividade de “Tabu”, o rigor de “Além das Montanhas”, a poesia de “Take this Waltz”, a vivacidade de “This Must Be the Place” ou o cerebralismo de “Tinker Tailor”. Mas, tem, em vez disso, algo que me sensibiliza ainda mais profundamente. Tem uma rara autenticidade, que me faz parar, por um momento, de contemplar, e simplesmente sentir o que está sendo projetado. É um filme que retrata, como poucos, a dor. Consigo me identificar com a melancolia do Brandon de Michael Fassbender, no sentido mais profundo. E quando isso acontece, tu esquece por um instante que é um voyeur numa sala escura esperando ser tocado por algo: tu apenas vive. E se 1 filme, que seja, é capaz de fazer isso por ti, ao longo do ano, eu diria que esse ano compensou, de alguma forma.

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Me Mostra

Este ano, consegui assistir a 41 filmes da Mostra de São Paulo. 41, não 40. Não conto como.

Isso é importante, especialmente, porque o cinéfilo tem o grave defeito do esquecimento. Se eu der uma olhada no programa da Mostra-32, a de 2008, já esqueço muita coisa que vi ali, na época. O tempo é realmente inexorável.

Aqui vão alguns comentários dos filmes assistidos, primando sempre pela pueril e irrenunciável lógica “do pior ao melhor.” Os filmes estão agrupados, inclusive, conforme as notas dadas a cada um, na saída das sessões. Talvez mais tempo de meditação, como proponho nas notinhas deste blog, alterasse alguma coisa. Mas é tudo “calor do momento”, o que combina bastante com a cidade paulistana destes dias tórridos.

1 ESTRELA

Paraíso (Paradeisos, Panagiotis Fafoutis). Um filme ruim, bem ruim. Sofre pela modinha das várias histórias paralelas e não consegue desenvolver bem sequer uma. Não dá pra se aproveitar muito. Ao menos uma das historietas tinha potencial, se melhor trabalhada. Passe longe.

A Parte dos Anjos (The Angel’s Share, Ken Loach). Olha, é hypado, é endossado pela crítica, não me importa muito, o filme é terrível. Sessão da tarde da pior espécie. O que mais me alarma é que esse filme não só é Cannes como é Prix do Júri em Cannes. Como lidar com tal disparate? Fuja dessa bomba. Fuja enquanto é tempo. Talvez ele merecesse 2 estrelas, mas meu desapontamento foi tamanho que não pude evitar dar a nota mínima.

2 ESTRELAS

Shameless (Bez Wstydu, Filip Marczewski). Tudo bem que a cópia ruim não ajudou. Mas esse filme não anda, infelizmente. Tinha uma premissa interessante, que acompanhava o desejo incestuoso de um jovem por sua irmã mais velha. Mas ele se assenta em personagens inacreditavelmente caricatos. Tem os ciganos. Daí, tem os nazistas. Daí os nazistas são os mauzinhos. Os ciganos são os oprimidos. O guri incestuoso fica no meio da coisa toda, obviamente, pendendo pro lado dos ciganos, porque é errado ser nazista. Aí está seu filme.

Rio (River, Ryuichi Iroki). Chato, pouco interessante. O início é promissor. Uma jovem caminha, como que perdida, pelas ruas de uma grande cidade japonesa. A dado momento, é parada por uma fotógrafa, que deseja registrá-la porque a jovem chama atenção, parecendo daquele jeito, peixe fora d’água. Guardarei isso deste filme. O resto não se aproveita. Eventualmente, a fotógrafa retorna mais tarde, constatando que a jovem está mudada. Mas nada significativo se passou com ela, é tudo truque de roteiro. E toca Moonriver, o que é bacana.

Nível Cinco (Level Five, Chris Marker). O programa exibiu antes, um curta, parece que célebre, chamado “La Jetée”. O curta é bem superior. Narra por meio de fotografias uma história de distopia. Visualmente, é de tirar o fôlego. O “prato principal” agradou bem menos. A idéia é bacana, essa estética de vídeo game, a proposta de falar sobre Okinawa e seu papel na guerra, tudo mais. Mas, oh, não cola bem.

O Frágil Som do Meu Motor (Leonardo António). Este pretensioso filme português quer fazer coisas demais e acaba mal-sucedido em todas, ou quase todas. Tem uma aura de noir que é bem interessante. Boa sacada também de botar um feto na barriga da mãe pra narrar a poesia da história. Mas ele se perde nas intercalações, mistura coisas que não tem nada a ver, o triângulo amoroso é todo clichês, obviamente, exceto o final. Mas o final é ruim que dói.

Eu, Anna (I, Anna, Barnaby Southcombe). Este filme me desagradou muito quando o assisti, mas passada uma semana, ele tem me desagradado menos. Ainda assim, não é grande coisa. Filmado pelo filho de Charlotte Rampling, conta com a formidável Rampling como protagonista, e também com o belo ator que é Gabriel Byrne. Os atores carregam esse meio que neonoir nas costas, mas o roteiro não ajuda muito. Alguns bons momentos esparsos, mas como um todo, não funciona.

Elegia Moscovita (Moscovskaya Elegiya, Aleksander Sokurov). Os fãs que me desculpem. Fui entusiasmado assistir esse doc sobre Tarkovski, mas Sokurov erra a mão. Ele tenta fazer um filme sobre Tarkovski como Tarkovski. Como Tarkovski, não dá. Sobre Tarkovski, não fica muito sendo, ele se concentra no período final de vida do célebre cineasta soviético, no período em que fez seus dois filmes no ocidente, “Nostalgia” e “O Sacrifício”. Mas o resultado é maçante, pouco se fica sabendo sobre Tarkovski, parece que Sokurov quis apenas se exibir. Talvez fãs dos dois diretores possam aproveitar algo; não creio que outrem.

3 ESTRELAS

Como um Homem (Comme un Homme, Safy Nebbou). É um filme ok, mas nada notável. Dois adolescentes “desajustados emocionalmente” seqüestram uma professora. A trama segue, em ritmo de thriller, mas sem maior aprofundamento psicológico. O resultado é bastante previsível. A França pode mais.

Alimente-me com Palavras (Nahrani Me Z Besedami, Martin Turk). Um pequeno empreendimento correto que vem da Eslovênia. O longa mistura três histórias que se interconectam, cada uma focada num membro de uma família. O melhor fragmento é o terceiro, que mostra o evento disparador dos outros dois, envolvendo um jovem que busca encontrar Jesus por meio de pesquisa de caligrafias. Quando concentra-se no tom místico e flerta com o terror, em detrimento de um estudo insipiente de psiquês, o filme funciona.

Hemel (Sacha Polak). Este longa holandês parte de uma boa premissa e, de fato, é muito bem-sucedido na primeira metade, caindo bastante na segunda. Hemel é uma jovem bonita, rica e que procura explorar sua vida sexual com diferentes parceiros tanto quanto o possível. Tem uma relação peculiarmente íntima com seu pai. É um estudo de personagem que não busca respostas ou causalidades, sem ser superficial. Mas a dado ponto da trama, a história empaca e o roteiro não sabe pra onde ir, sem terminar abruptamente.

O Cordeiro (Behold the Lamb, John McIlduff). É uma dramédia britânica bastante razoável, que investe em dois personagens dinâmicos, losers, irracionais, altamente disfuncionais, socialmente carismáticos. Ela, a namorada de um junkie, sem perspectivas na vida, respondona, tough girl; ele, o pai do junkie, epiléptico, desajeitado, metido em trambiques. Os dois ligados pelo drama de terem abandonado seus filhos. Vivem coisas duras, sofridas, mas o filme (quase) o tempo todo em tom satírico, irreverente. Vale o ingresso.

Programa Tarkovski 1: O programa Tarkovski 1 incluía dois curtas do célebre russo, sendo que um deles (algo como “Não haverá saída”) não foi exibido, ao menos na sessão que acompanhei, o outro, o primeiro filme realizado por ele, “Os Assassinos” (Ubiytsy); e também o clássico documentário realizado com Tonino Guerra na Itália, à época de pré-produção de “Nostalgia”, “Tempo de Viagem”. O curta surpreende o espectador de Tarkovski que está acostumado à sua estética corriqueira, que acompanha o tempo, e o esculpe em golpes suaves. Lembra bastante um estilo à noir e Nouvelle Vague, algo como, por exemplo, “Atirem no Pianista”, de François Truffaut, embora o filme de Tarkovski não seja particularmente notável. Já o documentário é bem mais interessante, por exemplo, que o documentário feito por Sokurov, e concentra-se na mesma época, de quando Andrey deixara a União Soviética e buscava na Itália de Tonino Guerra e Antonioni inspiração para sua próxima empreitada. Minha primeira visão de “Nostalgia” foi desapontadora, mas creio que quando der uma segunda chance ao longa, após ter tido contato com estes epifenômenos, o que também inclui a exibição de polaróides de Tarkvoski no Masp, do início dos anos 80, terei outra visão daquele filme.

A Cara que Mereces (Miguel Gomes). Miguel Gomes, cabe adiantar desde já, está se revelando um pequeno fenômeno do cinema contemporâneo. Posso esboçar mais alguns comentários adiante, quando tratar de “Tabu”, seu último e mais bem acabado filme. Mas eu já me impressionara bastante com a inventividade dele desde “Aquele Querido Mês de Agosto”, assistido há uns 3 anos. “A Cara que Mereces”, seu longa de estréia, é, de longe, o mais imperfeito dos três, possivelmente o menos palatável. Mas aqui já há algo que provoca, que instiga, e que será melhor desenvolvido em outras de suas obras. A idéia de uma história dentro da outra, que move Miguel. E isso é extremamente interessante. Temos aqui um prelúdio, que envolve um homem que vai completar 30 anos. Ele é todo inadequado, imaturo, desagradável, antipático, mas sobretudo, engraçado. Então, a narrativa se desloca para… para? Convém não falar demais. Mas algo estranho se passa aqui, mesmo que o segundo momento do filme não seja muito bem-sucedido. A cena final, contudo, amarra as descontinuidades.

Arcadia (Olivia Silver). Um pequeno bom road movie, despretensioso. Uma família corre os Estados Unidos rumo à Califórnia. Um pai nervoso, em belo trabalho de John Hawkes, e três filhos desorientados. Nada muito fora da convencionalidade do seu filme indie norte-americano padrão. Mas a história é contada com delicadeza e sensibilidade.

A Riqueza do Lobo (La Richesse du Loup, Damien Odoul). Este é um filme intrigante e, pelo que pude notar, dividiu opiniões. Pude pescar alguns comentários ruins ao filme, do tipo “É o pior filme da Mostra!, etc”. Não é. Mas se você não entrar na viagem como eu entrei, ninguém irá culpá-lo. A premissa é muito boa: um casal se separa, o homem jamais aparece. Tudo que resta à mulher são horas e horas de gravações em vídeo intermináveis realizadas pelo homem, das coisas mais arbitrárias possíveis. Pessoas na rua, caminhos andados, lenhadores derrubando árvores, besouros e outros animaizinhos em guerra, you name it. E a mulher investiga o que deu errado: com ela, com o homem que a deixou, com a relação. Investiga pelos caminhos do pensamento, rememorando, lembrando de detalhes, impressões, usando a própria palavra e as imagens deixadas para refletir sobre a psiquê do homem que partiu. Há algo de Marienbad aqui, definitivamente. O final da narrativa não é satisfatório, concedo isso. Mas a jornada é prazerosa: é uma tensão que agrada a alma daquele que se dispõe a compartilhar dela.

O Fim do Amor (The End of Love, Mark Webber). Esse é sem sombra de dúvidas um dos filmes mais tristes que assisti na Mostra deste ano. Alerta-se: Mark Webber não oferece nenhum consolo ao seu espectador, o alívio que se procura é negado o tempo todo. Aqui temos a história de um pai viúvo com um filho de dois anos. O pai, interpretado pelo próprio Webber, é um jovem ator que tenta emplacar em Hollywood, mas padece de azar, e do próprio isolamento em que está preso. É um pai dedicado, ama seu filho, mas está irremediavelmente sozinho e, numa condição assim, a tarefa de ser pai se torna progressivamente mais difícil. Fora dele, procura conforto, no amor, no sexo, nos amigos, até num peixe, mas não encontra. Webber tem o mérito de não cair em sentimentalismos fáceis. Mas seu filme não é bonito. É de uma crueza espantosa. Nessa espiral, se acha riso, se acha inocência na criança. Mas não se acha beleza em tanta solidão.

Bergman & Magnani: A Guerra dos Vulcões (Bergman & Magnani: La Guerra dei Vulcani, Francesco Patierno). Esse é um doc bastante divertido que trata de uma história já célebre do cinema internacional, mas a partir de um ângulo ainda pouco explorado e com uma perspectiva renovadora. A história de como o fundamental cineasta italiano Roberto Rossellini trocou Anna Magnani – então, “a atriz mais querida da Itália” – por Ingrid Bergman, à época, casada, e uma das maiores estrelas do cinema hollywoodiano. O relacionamento de Rossellini e Magnani inicia na época de “Roma, Cidade Aberta”; mas, logo, Bergman, encantada com os filmes de Rossellini, vem à Europa e se torna estrela de alguns dos mais importantes filmes do cineasta – “Stromboli”, “Europa 51”, “Viagem à Itália”. O envolvimento entre os dois, além das telas, foi escandaloso, na época. O real mérito deste documentário é confrontar dois filmes que foram feitos na mesma época, filmados na mesma região, o Stromboli, o já conhecido “Stromboli”, que marca a primeira colaboração entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini, um filme eternizado pela cinefilia, e o menos conhecido “O Vulcão”, protagonizado por Anna Magnani. Mas Patierno os confronta com humor, explorando, sempre apenas com imagens de arquivo, a intensidade dramática do conflito – vale-se muito, portanto, do exagero melodramático da abandonada Anna Magnani em “O Amor” e a confusão emocional de Ingrid Bergman em filmes como “Stromboli” e “Europa 51”, todos de Rossellini. É imperdível para cinéfilos.

Na sua Ausência (J’Enrage de Son Absence, Sandrine Bonnaire). É a primeira experimentação de Bonnaire na ficção e é, de modo geral, bem-sucedida. Embora o protagonista seja o norteamericano William Hurt, a história encarna aquele espírito tipicamente francês, de comportamentos disfuncionais, por vezes perturbadores, que se resolvem emocionalmente muitas vezes de modos bizarros. Temos aqui o reencontro de um casal que se separou há cerca de 10 anos, depois da morte do filho de 4 anos. O homem tornou-se um eremita solitário, que retorna à França para tratar do inventário do pai recém falecido. A mulher refez a vida, casou-se e teve outro filho, que é hoje mais velho do que aquele que havia perdido.  Quando William Hurt conhece o filho de sua ex esposa, algo se processa. O filme aposta na dinâmica da relação entre o adulto e o menino, que é simultaneamente doce e mórbida, alimentando as memórias de um pai sem filho. O filme exagera na falta de verossimilhança e seu espectador é obrigado a fazer muitas concessões em prol do andamento da narrativa. Mas o final, em retorno, não concede nada, o que é um ponto forte.

Transpapa (Sarah Judith Mettke). É um pequeno bom filme, que persegue uma idéia interessante. Como uma adolescente em pleno despertar da própria sexualidade lida com a descoberta de que seu pai, que deixou seu convívio quando da infância, agora retorna uma mulher? É, portanto, uma história de descoberta para todos. O filme funciona, pela sensibilidade empregada por sua diretora.  Há algo de muito carismático nos personagens, que faz com que o espectador não tenha outra alternativa se não empatizar.

Invasion (Dito Tsintzadse). Este filme alemão se mostrou uma grata surpresa, especialmente pela forma como tira o melhor dos diferentes registros entre os quais transita. A história nuclear é: um homem de meia-idade acaba de perder a esposa. Em meio ao luto, ele conhece, por acaso, uma família que foi amiga de sua esposa, tempos atrás. A família acaba se apresentando como uma forma de aliviar a dor do luto, à medida que o convívio com eles torna-se cada vez mais constante, o que atinge o ápice quando eles, temporariamente, passam a habitar a mansão em que reside o viúvo. Mas essa convivência constante  atinge um ponto em que se torna inconveniente, desagradável – talvez nociva. Um filme assim, o que é? Um drama psicológico? Uma comédia de situações? Um suspense? Tudo isso, circunstancialmente, e, em dado momento, flerta com o terror, evocando “Shining”, de Kubrick. Tsintsadze habilmente explora o melhor de cada momento e atmosfera do filme, escura, fria e sufocante, contribui para o clima de mal-estar.

Alpes (Alpeis, Giorgos Lanthimos). A próxima parada do inventivo diretor de “Dente Canino” – obrigatório na lista de 9 entre 10 cinéfilos e que este que vos fala ainda não assistiu – é “Alpes”. O grande lance de “Alpes” é que tudo é tão absurdo e aparentemente gratuito, arbitrário, aleatório, que você nunca espera o que vai acontecer na seqüência. Para quem está cansado de sempre ver as mesmas coisas, isso é maravilhoso. Isso quer dizer que é um filme esplêndido, entre os melhores da Mostra? Não. O filme é irregular, tem alguns momentos melhores que outros, não funciona em sua inteireza.  Mas é nonsense cômica e dramaticamente numa medida saborosa. Talvez aí resida seu grande mérito. Se fosse apenas engraçadinho, daria pra dar algumas risadas, mas não levar muito a sério. Mas “Alpes” tem algo de muito sombrio nele, o que talvez só fique mais explícito perto do final. E isso eleva muito sua qualidade. Lanthimos conta a história de um clube de pessoas que se propõe a substituir outras. O mote é esse. Além disso, quanto menos você souber a respeito, melhor. Lá está o espanto – do riso e do susto.

O Perdão (Gnade, Matthias Glasner). Este é um filme a se refletir. Pois ele inicia com uma premissa relativamente convencional, mas sua envergadura expande notavelmente, até aportar a um final desapontador. Temos um casal em crise, ela mergulha no trabalho, ele tem um caso extraconjugal. E temos o filho do casal, um menino aparentemente alheio às dificuldades dos pais, com dificuldades ele próprio em se relacionar com seus colegas. Então, algo acontece, um evento, que altera radicalmente a ordem das coisas. Um problema ético se coloca a ser resolvido pelo casal, que os faz compartilhar um familiar sentimento de culpa e que, perturbadoramente, os reaproxima. Mas é um fardo que eles carregarão até ter de tomar uma difícil decisão. Não é fácil falar mais sobre o filme sem entregar spoilers significativos. Basta dizer que a forma como se encadeia a reaproximação do casal é ao mesmo tempo sutil e bem construída, assim como a forma que, na narrativa, é integrada a própria ação do filho, que tem conseqüências, se não diretamente na ação dos pais, na discussão que o filme propõe. E o impasse ético problematizado é justamente: sob qualquer aspecto, é possível promover uma reparação, uma vez que um mal foi causado? É possível perdoar? Ou, que significa um perdão? Infelizmente, o final do filme derrapa. Mas isso não tira dele a consistência com que trabalha os dilemas tão pessoais que perturbam seus personagens.

Salsipuedes (Mariano Luque). Talvez o potencial deste pequeno filme argentino seja o de despertar reações extremas. Posso visualizar com facilidade um espectador que entra de cabeça na história e outro que não penetra na bolha. A meu ver, este é um filme bastante bem-sucedido, diante dos seus poucos recursos, e da história que pretendia contar, que é algo minimalista, algo documental, quase nada, realmente, nada acontece, ou muito pouco acontece, mas tanta coisa está sendo dita. Evoca, portanto, bastante o mesmo estilo de “Las Acacias”. Talvez seja ir um pouco longe demais evocar os infames shippings do tipo: “Las Acacias meets Anticristo”. Um casal passa alguns dias num camping. As coisas não vão muito bem entre eles. No início da história, eles são visitados pela mãe e irmã dela. Mais tarde, quando deixados sozinhos novamente, a tensão entra em ebulição. Mas nada realmente parece acontecer. Tudo é sugerido, quase nada é declarado. Estou a bordo.

Oh Boy (Jan Ole Gerster). Um belo filme de estréia de Gerster, que foi assistente de direção de Wolfgang Becker em “Adeus, Lênin”. Esse filme é uma pequena comédia existencialista (acho que está mais pra comédia do que pra dramédia) a respeito de um rapaz perto dos 30 anos que não sabe exatamente o que quer da vida ou pra onde está indo, exceto pelo fato de ser-lhe constantemente negado o direito de tomar um café. (Isso soa familiar pra mais alguém?) Gerster usa PB e jazz, então somado isso ao humor algo nonsense, que evidencia o existencialismo do personagem, seu filme fica muito com cara de Woody Allen.

Memories Look at Me (Ji Yi Wang Zhe Wo, Song Fang). Um documentário muito bonito, de poesia ímpar, a respeito do envelhecer e, de maneira geral, da passagem do tempo. A própria diretora, Song Fang, que mora em Beijing, retorna à casa de seus pais, numa cidade menor, onde passa a ter contato com diferentes membros da família, além de estreitar laços com aqueles mais próximos. As crianças a lembram onde ela esteve. Os velhos a lembram para onde ela está indo. Memórias entremeadas. A morte como coadjuvante. As ações do cotidiano, que fazem tudo que é efêmero parecer tão duradouro. Algo a se guardar.

Na Neblina (V Tumane, Sergei Loznitsa). É apenas o segundo longa de ficção de Loznitsa, que já possui uma carreira de envergadura como documentarista, e cujo primeiro filme de ficção, “Minha Alegria”, ganhou bastante notoriedade. “Na Neblina” foi exibido em Cannes. É um empreendimento portentoso. O filme narra a história de um homem, que em meio à Segunda Guerra, na região soviética de confronto direto com os alemães, é confrontado por questões morais. Os russos acreditam que ele servia como “agente duplo” para os alemães. Esse simples fato provoca turbulências inimagináveis. Diante de outros personagens da Guerra, o homem se sente, já, condenado ao pior possível. O filme é plasticamente belíssimo. A fotografia é deslumbrante e Loznitsa esbanja poesia no final. Mas não posso dizer que o filme realmente me pegou. Lamento ter perdido as exibições de “Minha Alegria”. Loznitsa (como Miguel Gomes) estava homenageado na Mostra, com direito a retrospectivas.

Après Mai (Olivier Assayas). O filme de Assayas ganhou o prêmio de roteiro em Veneza. É um bom filme, sem sombra de dúvidas. Na esteira da “desilusão” pós-68, Assayas propõe uma interessante discussão a respeito de arte e engajamento político. Temos a juventude de Gilles, suas decepções, percalços, e os anos que moldam sua visão das coisas, chegando a um ponto em que certas coisas não se conciliam mais. É um filme instigante, mas se ressente um pouco do ritmo. Chega ao final com menos fôlego. Os atores não são particularmente notáveis. Mas é um esforço a ser louvado, filme de tese numa acepção não pejorativa do termo.

4 ESTRELAS

L (Babis Makridis). O filme de Makridis é uma viagem. Bem, a Grécia tem nos surpreendido. Já desde Mostras passadas esbarro em coisas curiosas que vêm de lá, inventividade é o que não lhes falta. Aqui temos a história de um homem que vive em seu carro. Mais que isso, ele vive seu carro, ele é seu carro. Motorista profissional, tem de lidar com todo tipo de adversidade absurda em seu trabalho, como chefes que mal têm contato com a razão, e uma gangue de motociclistas que condena moralmente automóveis. Mas esse homem, também ele, o contato com a razão não é lá seu forte. Vemos aos poucos o quanto ele está destroçado emocionalmente e o quanto sua persona se aparenta com a de um outro célebre chofer que deu o ar de sua graça nos cinemas – para nós – este ano, também: o Driver. Esse homem, afinal, o Driver grego, é, também ele, uma espécie de psicopata. Tenho o filme em boa conta, por nonsense que tudo se apresente, já que é um belo estudo de caráter.

Keyhole (Guy Maddin). Muito interessante esta produção canadense, com Isabela Rossellini e Udo Kier no elenco, oferecendo nova roupagem à sempre atual história de Ulisses. Bastante experimental, esta odisséia se passa no interior de uma casa. Penélope-Rossellini aguarda pelo retorno do marido deitada na cama, enquanto interage com espíritos perniciosos. A casa está habitada por fantasmas, mas de uma forma mais poética que as atuais adaptações estilo “Lincoln caçador de vampiros” ou “Ana Karênina e zumbis”. Ulisses esquece muitas coisas e o caminho até o quarto de Penélope implica caminhos diversos, muitos obstáculos e várias fechaduras a serem abertas. O filme é difícil, enigmático, pode ser que se apresente como truncado para seu espectador, especialmente o pouco familiarizado com a história milenar de nosso célebre guerreiro. Mas a sofisticação da narrativa e o belo trabalho de fotografia de Ben Kasulke enriquecem a obra, forçam com que imagens, as mais bizarras possíveis, dificilmente se apaguem da memória, mesmo diante do mais poderoso elixir.

A Caça (Jagten, Thomas Vinterberg). Mads Mikkelsen ganhou o prêmio de atuação masculina no último festival de Cannes por sua tocante atuação de um homem encurralado numa perseguição kafkiana. O filme é espinhoso. Uma menininha diz ter se relacionado inapropriadamente com seu professor do jardim de infância. Depois, se confunde. Terá dito a verdade ou imaginado?  Ou apenas contado uma mentirinha inocente? Antes que alguém possa se certificar disso, o personagem de Mads sofrerá uma condenação bem mais severa que a dos canais oficiais de justiça. O grande mérito da obra é seu estado de tensão permanente. E Vinterberg é habilidoso, jamais fechando totalmente a porta das incertezas. O filme claramente se filia a um estudo do mal que tem sido trilhado por cineastas como Michael Haneke e Lars Von Trier. Seus críticos mais desafiadores apontam um suposto tom monocórdio na problematização, mas isso não me parece realmente um problema. O modo como Vinterberg expõe a difícil posição que ocupa a criança supostamente abusada mostra que se preocupa com uma complexidade dos afetos. O filme não é redundante, ele vê personagens presos numa armadilha das circunstâncias e, como dito em “This Must Be the Place”, quando o homem tem licença para ser monstro, ele deseja ser um monstro. Nesse sentido, o filme, interessantemente, aparta-se de um naturalismo que Vinterberg cultivou em outras obras, como “Submarino”, o qual até prefiro a este já muito bom: ele funciona, desde a simplicidade das ações à claustrofobia do espaço como uma parábola do absurdo. É como parábola que vejo “A Caça”.

No (Pablo Larraín). É o quarto longa de Larraín e, a meu ver, um vasto progresso em relação a seu segundo filme, “Tony Manero”, que tinha uma boa idéia, mas pecava na execução. Aqui, Larraín se aproveita muito bem do excelente roteiro, que adaptou uma peça de teatro sobre o emblemático plebiscito de 88 que deu fim à ditadura Pinochet, para fazer um belo filme que ajuda a pintar o panorama histórico do Chile na época, mas que também aborda essa questão a partir de um ponto de vista peculiar, que é o da campanha publicitária do grupo em torno do “Não”: não à continuidade de Pinochet no poder – e no que tem feito o filme ser chamado de “o Mad Men chileno”. A controvérsia toda, em relação aos raivosos homens da política oposicionista, é que René Saavedra, o coordenador do departamento publicitário da campanha, interpretado com muita sabedoria por Gael García Bernal, deseja associar o coração da campanha à alegria, à felicidade, ao bom humor, algo que em nada lembra o teor sombrio do período de ditadura no Chile, com a dor da opressão e o luto pelos desaparecidos. O que funciona para assegurar o Não, o que vende? Se eu me estender nessa discussão, tudo ficará muito óbvio. O importante é que o filme é um thriller político, e dos melhores. Destaque ainda para o belo trabalho de fotografia, que deixa o filme com cara de imagens de arquivo, ressaltando a atmosfera retrô. “No” é a escolha chilena para o Oscar de Filme Estrangeiro.

O Último Passo (Peleh Akhar, Ali Mosaffa). Uma escolha de título para o português muito infeliz deste belo longa de Mosaffa, estreante cineasta iraniano. Bem mais apropriado seria “O Último Degrau”, precisão que talvez tenha se perdido na tradução intermediária pelo inglês, “The Last Step”. Não importa. Digo que esta boa surpresa da Mostra ganhou muitos pontos pela engenhosidade de seu roteiro. “O Último Passo [Degrau]” é um filme cerebral, cheio de meandros, repetições, detalhes importantes que fazem a diferença. Mas seu núcleo dramático, o centro da emoção, reside na situação em que se vê a atriz interpretada por Leila Hatami (a mesma de “A Separação”, vencedor do Oscar de Filme Estrangeiro deste ano), que é incapaz de concluir uma cena por ter um ataque de riso. É bom não dizer mais além disso, nem comentar porque “Degrau” funciona melhor que “Passo”. Saibamos apenas que a atriz não é a única coisa em comum que este filme tem com o de Asghar Farhadi. A tensão, o “cerebralismo”, está todo aqui, também. Mas, blasfêmia das blasfêmias, gosto menos do criticamente aclamado “A Separação” do que deste.

Perder a Razão (À Perdre la Raison, Joachim Lafosse). O Lafosse da vez, escolha da Bélgica para o Oscar de Filme Estrangeiro, foi um dos filmes mais concorridos da Mostra. Não imaginem o que tive que fazer para assisti-lo (!). Mas, vale. Vale perfeitamente, pois o blogueiro que vos fala é um grande entusiasta do cinema Realista de Joachim Lafosse, expresso no excelente “Propriedade Privada” e naquele que, até aqui, é sua obra-prima, o fabuloso “Lições Particulares”/”Elève Libre”. Não tardo a sentenciar: o último Lafosse não supera seu longa anterior, mas, de modo algum isso é motivo para desapontamentos. Temos uma história igualmente forte, personagens marcantes, com destaque para os excelentes Niels Arestrup e Émilie Dequenne – desta vez, Tahar Rahim parece ofuscado – e, enfim, a marca autoral do cineasta belga. A trama é de gelar os ossos, e se desenvolve na relação entre um jovem casal e seu benfeitor. Estamos, naturalmente, no território da dificilmente delimitada fronteira dos limites, tema muito caro a Lafosse. Mas, aqui, a louca e magnânima devoção do personagem de Arestrup ocasionará um preço muito alto a ser pago. Melhor não dizer mais.

Imperdoável (Impardonnables, André Techiné). Téchiné é um diretor veterano relativamente conhecido no cinema francês contemporâneo, tendo começado a filmar nos anos 60, uma geração mais jovem que os célebres Godard e Truffaut. Dele, ainda me ressoam dois filmes que pode se dizer, de uma forma ou outra, associados com a temática gay, o belo “Rosas Selvagens”, dos anos 90, e o duro, e mais recente, “As Testemunhas”. O que talvez me chama atenção é que, guardadas as proporções, enquanto aqueles filmes anteriores focavam, em sua maior parte, a perspectiva de jovens “descobrindo coisas”, este aqui, embora apresente também jovens disfuncionais, perturbados, simultaneamente irracionais mas intelectualizados, portanto, bastante franceses, temos, sobretudo, um olhar de maturidade e até, num certo sentido, de decadência. Temos uma história central, que acompanha o ciúme doentio do personagem de André Dussolier, e a peculiaridade da dinâmica da relação com sua esposa bem mais jovem. Mas essa história central vai se ramificando, apresentando tipos incomuns, perdidos, violentos, infelizes, hedonistas, insatisfeitos, criminosos, voyeurs, you name it. E, especialmente, com aquela particular cara de franceses, que numa extrema civilidade, e fazendo uso severo de racionalizações, conseguem dizer e fazer as coisas mais perturbadoras possíveis. Téchiné em grande forma, certamente um vasto progresso em relação a “As Testemunhas”, então seu penúltimo longa. “Imperdoável” foi mais uma das mais agradáveis surpresas da Mostra.

Andrei Rublev (Andrey Rublyov, Andrei Tarkovski). Sinto que esta pérola do cinema mundial deveria ser hors councours, não? Então, se o filme não se encontra no meu top 5 da Mostra, pode ser que seja mera tecnicalidade. “Andrei Rublev” era o último longa de Andrei Tarkovski que eu faltava para completar, e foi um privilégio e tanto poder tê-lo assistido em película na Mostra. Gosto muitíssimo de “Solaris” e “O Espelho”. “O Sacrifício” e “A Infância de Ivan” também foram filmes que me agradaram muito, numa primeira assistida. Já “Stalker”, confesso que não mexeu tanto comigo, talvez padecendo de expectativas muito elevadas. Mas é algo a ser revisto. “Nostalgia”, também, foi um filme que a princípio não me pegou, mas após o contato com as coisas tarkovskianas da Mostra, deixo em aberto, com possibilidade de reconsideração. De todo modo, me agrada muito o estilo de Tarkovski, que tanto se aparenta com um dos meus cineastas mais caros, Michelangelo Antonioni. Bem, devo dizer de “Andrei Rublev” que ele esteja talvez entre o grupo dos dois primeiros filmes dos anos 70 e aquele formado pelo primeiro e último longa do cineasta soviético. É, sem dúvida, um filme difícil e, infelizmente, as condições da cópia não auxiliaram a que a narração fluísse, em função da legenda incompleta. Mesmo assim, é possível tirar muito das imagens potentes e poéticas de Tarkovski. Sua reflexão sobre a arte e a espiritualidade, expressas de modo mais intenso, num tempo tão deslocado quanto o Medievo… O horror e absurdo da guerra. O silêncio, a fé, o sofrimento. E o tempo, já aqui. O tempo, a preocupação maior e fundamental de Andrei Tarkovski. O filme é um dos grandes; o contundente final não nos deixa perder isso de vista.

Laurence Anyways (Xavier Dolan). E aqui está o novo Dolan, senhoras e senhores. Precoce, nouvellevagueano, colorido, rococó, francês demasiado quebecquois. Enfim, Dolan é rotulado disso tudo e mais, não importa. Dolan segue Dolan, guri que mal fez 20 anos e já tem 3 longas na carreira. E aqui, o que realmente importa: “Laurence Anyways” é disparado seu melhor filme. “Eu Matei Minha Mãe” e “Amores Imaginários” haviam sido bons filmes, mas este aqui está em outro nível. Dolan mostra uma história relativamente convencional – vamos dizer, mais convencional estruturalmente do que seus dois longas anteriores – caracterizada por circunstâncias totalmente inusitadas. Acompanhamos a história de um jovem casal heterossexual, hipster, cool, divertido, ao correr dos anos 90. E, lá pelas tantas, o homem do casal aparece com a notícia de que viveu a vida toda no corpo errado – e que precisa fazer a transição para se tornar mulher. Como o casal lidará com isso? De um jeito bastante Dolan, mas mais sério e profundo. Show de interpretação dos atores – para mim – totalmente desconhecidos, Melvil Poupaud e Suzanne Clément. Uma história linda, intensa, provocadora, absolutamente tocante. Dolan, sempre menino promissor, dessa vez acertou em cheio.

Formentera (Ann-Kristin Reyels). Uma jovem cineasta alemã, a recém em seu segundo longa. Um casal de atores brilhantemente escalado: ela, alemã, Sabine Timoteo, com menos trabalhos, entre os quais destaca-se o premiado “The Free Will”, de Matthias Glasner; ele, um dinamarquês, Thure Lindhart, já com alguma experiência internacional, incluindo participações em filmes estadunidenses como “Na Natureza Selvagem” e “Keep the Lights On”, que ganhou o Teddy Bear no último Festival de Berlim. E um paraíso natural, a mais bela paisagem filmada em digital nos últimos tempos. Férias idílicas nas Ilhas Baleares: Maiorca, Menorca, Cabrera, Ibiza… Formentera. Um casal com idéias diferentes em relação a um futuro comum. E uma mulher, estranha, indesejada, que simplesmente desaparece. Em “A Aventura”, de Antonioni, essa desaparição serviu para aproximar o casal. Aqui, ela expressa o quanto estão afastados. Não tenho, mais, muitas palavras para descrever meu entusiasmo por esse belo filme apresentado por Reyels, que paga tributo a Antonioni, sendo, contudo, seu próprio filme e, não, uma cópia fiel. Reyels trata seus personagens com delicadeza e simplicidade, deixando que a paisagem, forte, violenta, como o horizonte do Monte Etna no próprio filme de Antonioni, ou o vulcão de “Stromboli” de Rossellini, assuma o papel mais épico da narrativa. Casais em isolamento, do resto do mundo e de si próprios, nessa matriz antonioniana, estou completamente nessa; mal posso esperar para assistir ao primeiro longa de Reyels e, especialmente, para o que virá a seguir.

Entre o Amor e a Paixão (Take this Waltz, Sarah Polley). Este filme e o próximo da lista poderiam estar tranqüilamente no grupo dos de 5 estrelas, que acabou se tornando solitário. Mas assisti ambos no primeiro dia de Mostra e, ali, pareceu comedido não sair dando 5 estrelas tão rápido. Não imaginaria que logo no primeiro dia já assistiria dois de meus, ao menos, 5 filmes favoritos dentre os 41. E o filme de Sarah Polley, o primeiro que assisti, não me deixou em momento algum – é, possivelmente, aquele que permanece mais firmemente grudado. Tudo encanta nessa pequena jóia, tudo é um deleite para os sentidos. As músicas, a mise en scene colorida, barroca, o sabor de verão, as interpretações tão cuidadosas de todos os atores. Os “cômicos”, Seth Rogen e Sarah Silverman, extremamente exigidos na dramaticidade, entregam interpretações comoventes. E Michelle Williams? Dispensa comentários, é a grande atriz de sua geração. O “novato” Luke Kirby está à altura dos demais. O texto de Sarah Polley é riquíssimo. A hiperrealidade combina perfeitamente com a atmosfera que o filme evoca. Realidade, assim, tão realidade, que torna-se quase uma antirealidade. Devaneios como os da Margot de Michelle Williams, efetivamente entre dois amores (não entre o amor e a paixão, como sugere a infeliz adaptação do título). Mas, mais que isso: diante de um desafio que é elucidado perfeitamente, perto do fim do filme, por uma fala pungente e certeira: “There’s a gap in life.”

Tabu (Miguel Gomes). Assim como em Veneza, o filme mais aclamado, e publicamente declarado o preferido do júri, “The Master”, de Paul Thomas Anderson não ganhou o Leão de Ouro [a premiação foi para “Pieta”, de Kim Ki-Duk], em Berlim, o filme mais comentado, mais enaltecido pela crítica, “Tabu”, de Miguel Gomes, teve de contentar-se com o prêmio Alfred Bauer, “pela inovação” – o vencedor do Urso de Ouro foi “César Deve Morrer”, dos irmãos Taviani. Nem me cabe discutir se foram injustiças ou não, pelo fato de não ter assistido “Pieta” ou “César…”. Mas, que fique claro isso: “Tabu” é um dos grandes filmes do ano, um empreendimento de excelência inegável e, portanto, rapidamente renuncio ao zelo: não posso crer que ele não merecesse maior reconhecimento em Berlim. Tabu é sonho. Tabu é cinema. Tabu é de uma beleza inexprimível. Miguel Gomes, que já acenara um grande potencial em “Aquele Querido Mês de Agosto”, com este filme, se põe entre os mais interessantes cineastas de nosso tempo. A linguagem dele, como referida no comentário a respeito de seu outro filme assistido, é a da mostragem de representações. Ele te apresenta uma história e, em seguida, você descobre que ela era uma projeção. Ele analisa a narrativa. O que está em jogo não é apenas o conteúdo, o material bruto. Miguel investiga formas de interpelar o meio, a forma do que está sendo contado – e faz isso com poesia sublime.  Assistir “Tabu” é, justamente, se permitir ser sedado, tombado por um encanto que só pode ser obra de feitiçaria, sedimento que Miguel usa, para pagar tributo a uma de suas referências máximas, F.W. Murnau, de quem pega emprestado o título de seu filme, assim como outros elementos. Nas duas partes que formam o conjunto da obra, “Paraíso Perdido” e “Paraíso”, o espectador é dona Pilar, que assiste com confusão e curiosidade a história de Aurora, hoje uma idosa senil, em atrito com sua única cuidadora, a empregada Santa e ontem, uma jovem fazendeira vigorosa, vivendo uma história de amor proibida na África. Perpassa o encontro das duas histórias  a nostalgia por esse mundo perdido, que é também a juventude, e é mais. Mas, ainda, a aura de suspense, de um embriagar-se no mistério, dada desde um prólogo surpreendente, ajuda a atar as extremidades dessa história provocativa. E a trilha brilhantemente composta por Joana Sá, o trabalho de fotografia deslumbrante de Rui Poças, o texto absolutamente genial de Miguel Gomes e Mariana Ricardo, que canta língua portuguesa em forma de prosa. (Lusófonos, tirem proveito! A melodia das palavras entoada pelos atores é algo que tradução alguma recupera. Não me recordo de escutar a língua portuguesa empregada em melhor uso recentemente.) Pela vertigem da atmosfera, a musicalidade das palavras, a doçura das imagens e a arbitrariedade da história narrada, “Tabu”, e eu não sei defini-lo de outra forma melhor, é uma experiência estética que se aproxima do sonho.

5 ESTRELAS

Além das Montanhas (Dupa Dealuri, Cristian Mungiu). O único filme da Mostra que me compeliu a ponto de votar com a nota máxima. Sim, quem me acompanha há algum tempo, pode já ter notado que sou um entusiasta do cinema romeno. E realmente não posso afirmar categoricamente, com objetividade, que o mais recente longa de Mungiu (runner-up em Cannes, tendo vencido os prêmios de Roteiro e Interpretação Feminina, este dividido pelas duas protagonistas da história, Cosmina Stratan e Cristina Flutur) supera “Tabu”, por exemplo, de forma geral. É um filme mais encadeado, certamente, mas isso não representa, de forma alguma, sinônimo de “mais qualidade”. E ressalto que diante do desbunde de beleza que é “Tabu”, “Além das Montanhas” não compete. É um filme feio, escuro, ousaria dizer sujo. E é incômodo, causa desconforto, certamente não convida os olhos do espectador de maneira direta. Não posso realmente dizer que tenho predileção por este filme em detrimento, especialmente, dos outros dois mais abaixo na lista, como já reiterado. Mas não tive dúvidas, ao término da sessão, minha penúltima na Mostra, a cravar nota 5. Algo especial me compele no filme de Mungiu, e é sua pungência, sua dor absolutamente humana e irrenunciável. Sua história é bastante simples, e contada de forma dura, seca. Uma história de compaixão, de amor, de cegueira, de fé e, sobretudo, de sacrifício. Alina e Voichita foram criadas juntas, num orfanato, na Romênia. Ao chegarem à idade adulta, têm de, forçosamente, se separar. Alina mudou-se para a Alemanha, para trabalhar. Voichita aderiu a um convento num vilarejo no interior da Romênia e tornou-se freira. Agora, as amigas se reencontram, com Alina tentando convencer Voichita a viajar para a Alemanha com ela, de modo a estarem novamente juntas. Mas Voichita, agora, encontrou um amor maior, o de Deus, e não estará disposta a deixá-lo tão facilmente. Alina, proprietária de um amor louco, desmedido, tentará se reaproximar de Voichita, ingressar em seu mundo. Mas, além de Deus, há agora, entre elas, um padre. Há qualquer coisa de atemporal nesse filme. Tão acostumados estamos aos filmes da Nova Onda do cinema romeno que tendemos a pensar que “Além das Montanhas” se passa nas décadas do século passado que viveram o período da ditadura comunista de Ceausescu. Por vezes, no isolamento daquele convento no meio do nada, é possível enganar-se, e pensar que o filme está, agora, no período medieval. Não é o caso. O enredo é encenado contemporaneamente. Mas a história que se desenovela tristemente perante nossos olhos é tão universal, tão pura, que o tempo acaba ficando como pano de fundo. Há filmes que, dizem, devem ser assistidos de joelhos, orando. Este é um filme que se deveria, ou se pode assistir com um aperto por dentro, um nó. Talvez seja a semente de uma oração querendo brotar num peito deserto de esperanças.

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