Feeds:
Posts
Comentários

the-entire-history-of-the-world-in-one-chart

“No more… no more…

No more, no more…”

¡Baby, don’t hurt me!

“I don’t know why you’re not there…”

Billy Wurtz é um(a) cara engraçado.

¿Fruta?

Não

¿Pão?

Não

¿Fruta-pão?

Dificilmente.

Probably, p-ão.

Problaby pain.

Probrably solace, my game.

Solace, my game.

Helllllll(estrela-da-manhã)lyeah.

Sollllllldance, my pain.

Solllllllace, your gain.

E os lobos, que tão só que são dentes.

E de manhã eu ligarei de novo.

Solace, myyyyyyyyy blame.

Sweet solace send…

eu acho.

Eu acho que é isso que eu acho.

E o que pode ter se perdido,

e um que pode ter ser perdido,

e o que pode tem se perdido,

e o que pode ter sido perdido,

UM pode ter se perdido.

Alguém pode ter se perdido.

O que pode ter se perdido.

E o que eu acho que é ser pedido…. rrrrrrr.

Talvez, a história do mundo.

Trilha sonora: “The Wolves”, Bon Iver.

 

Late Bloomers [2]

Nymphomaniac

5.Nimphomaniac

Uma coisa que é preciso deixar claro antes de mais nada é que não existe essa baboseira de “volume 1” e “volume 2”. O último Lars von Trier foi cortado em duas partes, ponha-se fé no disclaimer, porque provavelmente o povo não toparia 5 horas consecutivas. Pois, dane-se isso. É um crime distribui-lo separadamente, já que uma coisa não faz sentido sem a outra. Ninfomaníaca só pode ser lido como uma unidade; se o separássemos, teríamos um longa ridículo sem nenhum propósito e outro, decididamente melhor, mas francamente enfraquecido em razão da falta de contexto. A narradora Charlotte Gainsbourg e seu atento ouvinte, Stellan Skarsgaard, desenvolvem uma relação peculiar, que culmina com um final inesperado, o qual perde muito de sua envergadura sem que as partes do todo estejam acopladas, até porque é esse final que dá sentido ao desenrolar das historietas de Gainsbourg. Assim, o filme-ensaio de Von Trier, bem aos moldes daqueles filmes – no melhor sentido da expressão – “pedagógicos” de Godard assemelha-se, em termos de estrutura, a um romance. Há uma tese a ser desenvolvida. Ela não está clara a princípio. A cada episódio, a cada personagem diferente que passa pela vida de Gainsbourg, a cada passo de sua jornada sexual, ela vai sendo construída. Ao final, está montada, e pode-se melhor apreciar o passo a passo. Lars Von Trier é um obsessivo estudioso da natureza humana. Ele não se surpreende com a humanidade, e também não a julga. Já houve quem dissesse que o sexo foi a maior peça que Deus pregou nos homens. No universo de Ninfomaníaca, quanto mais bizarra a tara, maior a graça que ele tira dela. No fundo, o filme é uma comédia. Mas uma comédia que promete – e cumpre – tratar suas marionetes e seus espectadores com o devido respeito. Nunca vi, e creio que isso não valha apenas para o cinema, uma abordagem tão crua, tão honesta e tão digna sobre o drama da pedofilia, no breve episódio que aborda o tema. A discussão é conduzida sem maniqueísmos, sem condescendência, sem concessões. Mas a Gainsbourg de Lars von Trier só poderá ter reconhecido isso e demonstrar compaixão ao outro depois que já tiver passado por sua via-crúcis. Essa mesma compaixão não é artigo abundante no mercado do próximo, do bem-intencionado. Estranho como o cineasta dinamarquês logra uma vez mais ser tão religioso por meios tão amorais.

 

gone-girl-movie-still-20

4.Gone Girl [Garota Exemplar]

David Fincher é decididamente um realizador instigante. Seu último longa foi um dos que, durante o ano, mais me fez pensar; sigo tentando digeri-lo. Seus filmes revelam uma capciosa obsessão pela psicopatia, que, no que tem de essencial, mais revela curiosidade do que qualquer outra coisa. A psicopatia é um tema, de fato, extremamente atraente, parecendo reunir em si um dos pares mais antigos da história do pensamento humano, uma das dualidades que aparece com mais eloqüência nas obras de Fincher: natureza e cultura. Fincher é, sobretudo, um humanista. Talvez não haja nenhum filme que deixo isso tão claro quanto O Curioso Caso de Benjamin Button, no qual o diretor decide confrontar o homem com seu inimigo mais íntimo: o tempo. Se esse humanismo parece por vezes assumir feições macabras, e até sádicas, é porque ele se expressa esgueirando-se, à espreita, pelo disfarce. Fincher precisa do intrincado para poder desvelar o simples: recorre à luta do homem contra o mal para enunciar a dignidade daquele. Esforça-se por registrar a nuance do crime para que nela seja visto o seu negativo, para que surja, no/do vil, abominável, aquilo que é mais humano, e que obedece às suas próprias leis – por vezes tentando contornar as leis que o conjunto dos humanos forjou -, tal qual fosse o resquício de vírus que existe na vacina, a medida exata de antídoto que encontramos no veneno. Gone Girl, como os demais filmes do cineasta, é o típico “filme de zeitgeist“, se é que existe essa categoria. Enriquece o diálogo que se estabelece entre nós, ultimamente, sobre tecnologia, sobre mídia, sobre humanização, sobre perversidade, sobre a insistência que temos em continuar sendo bizarros e, é claro, sobre psicopatia, mas quando ela existe em dose exata e certeira – não exatamente aquela caricata, estereotípica, que vemos nos filmes, mas não exatamente aquela que atende pelo nome de ovo da serpente. Em vez disso, num ponto médio, diluído, que nos permite olhar para a sociedade em que vivemos e refletir sobre o grau de psicopatia que ela já atingiu. (Mais: Rosamund Pike está, doravante, no meu radar.)

 

Relatos_salvajes_1

3.Relatos Salvajes

Ponto crucial do sucesso de Damián Szifrón: ritmo. Bastante se falou sobre esse filme, ressaltando o quanto cada uma das histórias é dotada de força própria. Ok, isso não prejudica o filme nem um pouco. Mas a catarse que ele proporciona ao final, e eu acredito que ele proporciona uma catarse ao final, advém do modo como Szifrón cuidadosamente acomodou qual episódio vem em seguida ao anterior, do início ao fim, com a mesma acuracidade mediante a qual um montador seleciona que plano vem depois do outro. Pasternak prepara o terreno, e nada faz além disso, e seria um excelente curta se fosse apenas ele próprio, e lança apenas a marca do insólito, contornando a sutil linha do “aquém-realismo-fantástico-embora-além-nonsense”. Las Ratas forma um excelente equilíbrio com A Proposta, tornando claro que a investigação de Szifrón é eminentemente de cunho moral. Trata-se sobretudo do tema da responsabilidade, e de como agir com responsabilidade, num mundo como esse. E, bem, tanto numa história quanto noutra, se vê as linhas que os indivíduos permitem a si próprios cruzar, sejam eles guiados pela retaliação com tons de escatologia ou pelo simples e velho cinismo amoral. A lição é, para os efeitos de choque, “socrática”: escolha o seu veneno. Então, O Mais Forte recapitula e radicaliza a anedota contada por Las Ratas, alterando a escala – do pedaço de civilização perdido no meio do nada para, literalmente, o meio do nada; da agressão astuciosa para o flanco da força bruta; do acinte escatológico como meio para o acinte escatológico como fim; da barbárie empetecada, maquiada, preparada para a festa, portanto, para a barbárie nua em pelo, pronta para o abate. As conseqüências são imagináveis. Bombita é como uma síntese de tudo o que é dito, por isso é tão propício para causar identificação. É simultaneamente o mais prosaico e o mais absurdo, o mais ridículo e o mais trágico, o mais fantasioso e o mais verdadeiro relato entre todos: é o que mais se parece com nossa vida, sem que jamais deixe de soar pouco crível. A delícia de A Proposta é o fato de que ele é um pequeno caleidoscópio da vida humana, permitindo-nos rapidamente perceber quão estúpido é o maniqueísmo. Humaniza o bom e o mau, o fraco e o forte, o rico e o pobre, mostrando o que há de semelhante entre os pólos opostos. Até que a Morte nos Separe, por fim, é o tiro de misericórdia. Espectador, que riu, gozou, se identificou, sofreu, sentiu nojo, falhou em compreender, permitiu-se sentir alguma coisa… agora, prepara-se. Trem desgovernado feito a energia com que a noiva guia o noivo, esse episódio não tem medo de cometer o maior pecado que pode cometer um filme sobre seres humanos: fazer seus personagens parecerem desenho animado. E, ainda assim, não há qualquer coisa que aquela noiva “borderline ambulante” não faça que não pareça assustadoramente genuína. (Sem contar que é, de longe, o filme que mais me fez rir em muito tempo.) Ponto, Damián.

0

2.Enemy [O Homem Duplicado]

Para o meu gosto, o que certamente não quer dizer qualquer coisa além disso, o mais recente longa do prodígio québécois (o outro – Quebec está com tudo, ultimamente) é um filme impecável. A adaptação de um texto de Saramago, que por sua vez bebe na fonte de Dostoiévski, se bem realizada, seria formidável (seria, já, de toda forma, mais do que conseguiu o mestre Bertolucci com seu “Partner”) . Mas o que Denis Villeneuve alcança aqui é um destino muito além do “bem feito”, do elogiável. Ele provoca uma inquietação tão forte que causa até desconforto. Ele combina um efeito ímpar, desafiando os olhos com seus planos bem construídos e valendo-se da magnífica trilha composta por Danny Bensi e Saunder Jurriaans  (vale muito a pena ficar de olho nessa dupla!) para atingir seu espectador com uma sensação de vertigem, de sobressalto. Normalmente esse efeito só alcançam os melhores filmes que transitam as fronteiras não muito bem definidas entre o suspense, o drama psicológico e o filme de horror. É um pouco como um calafrio, pois a história de um homem desconcertado diante do seu duplo propõe ao espectador um enigma em forma de ambivalência: à mente, é apresentado um quebra-cabeças; ao corpo, uma descarga elétrica. Certamente o que menos importa aqui é tentar encontrar respostas ou certezas, pois a experiência de Enemy proporciona um prazer muito mais sofisticado do que o encontro com um gabarito. Mas reconhecer as notas temáticas das quais Villeneuve se vale para construir seu filme apenas estimulam a fruição, ainda mais. Não é inválido propor soluções como “Era tudo um sonho!” ou “É a alegoria de uma sociedade totalitária!”, como aquelas com as quais pode-se esbarrar com facilidade por aí. Mas o filme ressoa de um modo tão arquetípico que as peças do tabuleiro se parecem com algo muito mais abstrato do que qualquer teoria tão fechada. Uma hipótese psicanalítica, embora não resolva o problema todo, certamente funcionaria melhor, porque os peões, as rainhas, os reis e as torres aqui caminham de um jeito que se parece que as formas do inconsciente. Há algo de fundamental nas mulheres do filme – é impossível se esquecer da cena isolada, mas capital, do almoço com a mãe; Isabela Rossellini tem praticamente duas falas no filme e, ainda assim, é com uma potência categórica que ela grava o que tem a dizer: “Você é meu único filho, sou sua única mãe”. O modo como o sexo se resolve, ou não se resolve… e a barriga daquela estranha mulher ridiculamente grávida, tão onipresente, e parecendo querer confirmar com tanta audácia o que nosso professor de História afirma nas seqüências iniciais e tão insignificantes: “Os padrões se repetem”. E, ainda assim, qualquer coisa meio atemporal, meio mundo de ficção científica, na Toronto fantasmagórica, também, tão-onipresente. Enfim, tudo o que precisamos saber está no próprio filme. Mais um grande trabalho de interpretação entregue por Jake Gyllenhaal, talvez seu melhor até aqui. Em entrevista, Denis Villeneuve reconhece que “o filme é uma exploração do interior de si” e que “há às vezes compulsões que vêm do inconsciente que não se consegue controlar… são elas o ditador dentro de nós mesmos”. E ele realmente não precisa dizer mais nada. O resto está na esquisita e magnética canção dos Walker Brothers, brilhantemente usada no filme: “Someone called for you/ But I hung up the phone – what could I say?”

Cinematography03

 

1.Inside Llewyn Davis

Ok, grande surpresa, não é mesmo? Aqui eu mesmo me sinto compelido a não dizer muita coisa, pois essa escolha é absolutamente sentimental. No fevereiro retrasado, quando assisti a esse filme pela primeira vez, eu sabia que qualquer coisa que eu fosse ver novamente dificilmente se comunicaria comigo da mesma forma. Não tenho elogios para espalhar. Tenho apenas a convicção de que Llewyn Davis e eu estamos na mesma sintonia. Fare thee well… ♫

…e, por hoje é só, folks.

Nos vemos no ano que vem.

Late Bloomers [1]

Este blog pouco atendido retorna à sua tradição anual de eleger os dez filmes favoritos do ano.

 

NEBRASKA

10.Nebraska

Quando ouvi falar a respeito da première do último filme de Alexander Payne, em Cannes, em preto e branco, fiquei cético, receoso de se tratar de um truque desnecessário. Eu me enganei, a fotografia funciona organicamente, mas não sem alguma razão. O anterior de Payne, The Descendants, ainda me parece um fracasso artístico. Mas Payne é um cara sério, não são todos que acertam sempre. Me parece que o tema que mais lhe interessa, também antes, mas particularmente de alguns anos para cá, é o dos encontros e desencontros. Por isso o filme funciona tão bem, convidando-nos a habitar por algum tempo o mundo do personagem de Bruce Dern, que é um homem totalmente perdido, como fica provado já na seqüência inicial. Payne consegue equilibrar bastante bem a graça e a melancolia advindas dessa falta de lugar para o velhinho rabugento – a música aqui ajuda um bocado. Os outros não o compreendem muito bem, só parecem encontrar-se com ele, realmente, quando iludidos pela farsa que ele montou involuntariamente. O golpe de doçura acontece finalmente quando seu filho – que estupenda a revelação de Will Forte num papel dramático! – consegue entrar em contato com seu pai, mesmo que a recíproca não seja verdadeira.

 

Foto6-0

9.O Lobo Atrás da Porta

O primeiro longa de Fernando Coimbra é surpreendente, ridiculamente preciso em carregar o suspense de ponta a ponta. É um noir, basicamente. Já vimos essa história, ou muito do que acontece nessa história, mil vezes. Mas a narrativa é meticulosa, intromete-se no conteúdo que quer ser contado, prendendo nossa atenção para além do que seria provável. À medida que vão ficando claras as ações de cada personagem da história – mas nunca quem é vítima e quem é carrasco, pois é justamente esse o precipício da ambigüidade em que somos lançados -, Coimbra não faz concessões. Ele pede que reflitamos, ao final, para identificarmo-nos com o papel do juíz ou do advogado, em causa de que ou de quem…? Não senão após termos olhado atentamente a todas as provas. Pois é esse exercício de ser forçado a olhar o pior, o insólito, o duradouro, que impele à sensação de náusea e, não obstante, impressiona.

 

Boyhood-1

8.Boyhood

Claro que este filme é um colosso, já pelo modo como foi concebido e realizado. E há muito que pode ser pinçado dele para sublinhar várias de suas qualidades. No entanto, nada me prendeu mais a atenção, nada me pareceu mais fundamental, enquanto o assistia e semanas depois, ainda, do que tudo que está expresso na fotografia. O filme de Richard Linklater, a viagem que ele representa, do gramado à montanha, é essencialmente a história da constância e das revoluções do olhar de Ellar Coltrane. Se o filme vale por alguma coisa, e penso que vale muito, é pelo registro do olhar do menino, dos 6 aos 18. Sua “meninice” é um olhar amedrontado, na transição da inocência para a não-inocência (a sabedoria, diriam alguns), que é fundada na infância. Esse olhar está lá, descobrindo o mundo, vivendo-o e sentindo-o. Lá pelas tantas, o olhar não está mais lá. Algo aconteceu. É quase como se o menino não fosse mais menino, fosse outra coisa, não sei o quê, que perdeu aquilo que fazia dele menino. É quando começa a envolver-se com coisas mais prosaicas, como emprego, namorada, reflexões adultas, desdém pela nossa cultura tecnolófila. Então, o olhar retorna, na seqüência das montanhas, a última do filme. Quando a coisa mais banal de todas parece evidente. Agora, talvez, o menino com corpo de homem parece sentir-se mais confortável para ser apenas ele mesmo. E percebe que cresceu.

 

mommy-movie-review-0942014-204900

7.Mommy

Talvez esse seja o filme mais difícil de assistir, não só dessa lista, como do ano todo. Tudo é tão bruto nele, como provavelmente Xavier Dolan nunca havia sido. O cálculo da mãe, o desespero da mãe, a violência do filho – em tudo o que ele faz, em como se porta, em como trata os outros, em como sente, em como demonstra tanto raiva quanto compaixão -, o desespero do filho, a fraqueza da vizinha, o desespero da vizinha. Dolan gosta de dizer que seu cinema é inspirado em Truffaut, no cinema americano, mas aqui ele faz um “desvio” almodovariano,  mais que vibrante. passional, autoral: carnal, grotesco, mesmo, e incômodo. Há uma cena dolorosa, que ressoa pelo restante do filme, com a melodia de “Vivo per Lei” ecoando feito um fantasma em tudo o que resta após. Dolan quer fazer um filme que tensione a relação entre liberdade e prisão. É impossível não se identificar com o carisma animalesco de nosso amigo, que está para o Maculay Culkin de Esqueceram de Mim como o Jean Pierre Léaud de Baisers Volés está para o Jean Pierre Léaud de Les 400 Coups. Mas não há nada que humaniza tanto o filme quanto a trajetória da mãe vingadora, a mãe de Dolan. Depois de ele tê-la matado em seu filme de estréia, ela volta e, leoa ferida, morde de volta. Contra a natureza e por causa da natureza.

 

praiadofuturo_21

6.Praia do Futuro

Existe uma máxima gravada no inconsciente de todos e de cada um, mas que muito poucos seriam capazes de admitir em alto e bom som. No entanto, muitos sintomas que alimentamos ao longo da vida – adulta, sobretudo – ratificam essa mensagem. Há quem diga que o sexo é o mais expressivo desses sintomas. Vejo, no entanto, que ele mais se presta como mensageiro, veículo, de um tipo de forma, essa, sim, cabal: a forma do vício. Todo o tipo de vício que se possa imaginar reivindica a veracidade dessa máxima, que nada enuncia senão a relação de cada ser humano com a característica mais fatalista que rege sua existência: é a sua relação com o tempo. Agir conforme o tempo, pensar sobre o tempo, fazer de conta que o tempo não está passando, agir com medo de que o tempo está passando rápido demais, ou devagar demais, enfim. No ser humano, em algo que lhe é estranhamente cerebral, ainda que tão pouco racional, é assim que age o vício. O vício quer ser satisfeito. Ele não precisa de mais nada além disso. O vício, então, confirma aquela verdadezinha recôndita que queremos guardar de nós mesmos: o passado é melhor do que o futuro. Agimos contrariamente a isso, o tempo todo, até porque não nos faz muito bem não ficar alheio a isso. Cada um por si e Deus contra todos. A menos que haja alguém mais – um próprio tipo de Deus – que nos possa salvar. É o herói. Por isso foi inventado o salvador. Mas o herói, não o herói-em-si, mas aquele que cremos – sim, realmente cremos nisso, religiosamente – que existe em outra pessoa, ainda no mais distópico dos lugares, não é um cyborg. No primeiro ato do delírio congelante de Karim Aimouz, o herói se afoga. No segundo, está partido ao meio. No terceiro, é assombrado por fantasmas. E precisa percorrer toda essa odisséia até perceber o óbvio que tanto quer desdizer: no rio congelado, na selva de concreto, na piscina do choro do amante de Aline, ou no litoral que se avizinha, o passado é melhor do que o futuro.

To be continued…

Breves notas cannesianas

Parecia que não, mas mas não dá pra deixar passar em brancas nuvens esta tradiçãozinha woolfiana, mesmo que em doses diminutas.

Podem chamar-me de despeitado, mas acho que não é coincidência que este ano, que justamente não puder acompanhar o festival tão de perto, a seleção tenha parecido a mais fraca dos últimos anos. Eu mesmo, quando bati os olhos na lista da Competição, me senti um pouco desapontado e não senti interesse por tantos filmes quanto em anos anteriores. Ainda assim, é Cannes.

Falando, então, de interessologia, antes de entrar na área da achologia, após ter acompanhado, um pouco de longe, algumas repercussões sobre os filmex exibidos digo que o filme que permanece mais me interessando, entre todos, é o autoralíssimo projeto pessoal de Mike Leigh, Mr. Turner. Em primeiro lugar, porque Mike Leigh é f…, e isso já resolve a questão, por si. Eu diria que pré-Festival, apenas pelo pedigree dos autores, e/ou pelo teor da história, me chamavam mais atenção, fora esse, os filmes de Bennett Miller, Foxcatcher, Godard, Adieu au Language e David Cronenberg, Maps to the Stars. Acho que após as exibições, com o buzz que os críticos produziram, juntam-se a esses Mommy, de Xavier Dolan e Leviathan, de Andrey Zvyagintsev. Mas eu tenho que advertir que nada aqui parece muito arrebatador.

Isto posto, vamos às apostas, que estão bastante excitantes, porque os prêmios estão particularmente difíceis de se prever. Conforme as previsões, há pelo menos seis filmes brigando seriamente pela Palma: Winter SleepMommyAdieu au LanguageStill the WaterMr. TurnerLeviathan, ainda com o filme da Mauritânia, Timbuktu, correndo por fora.

O método aqui é escolher o vencedor da Palma primeiro – a tarefa mais difícil e mais importante – e distribuir os demais filmes importantes nas outras categorias. O truque é evitar o overthinking. Alguns apostam em Still the Water, da japonesa Naomi Kawase, pois seria a chance de Jane Campion premiar uma mulher. Há também grandes chances de a Palma retornar a um país francófono, e a briga estaria entre o gaulês-virado-em-suíço dinossauro Godard e o canadense bebê Dolan. Winter Sleep e Mr. Turner são filmes de cineastas com muito prestígio (Ceylan e Leigh) e que eram considerados os pesos pesados nas apostas pré-Festival e conseguiram manter um bom status depois da exibição. Leviathan e Timbuktu estão entre os principais queridinhos da crítica. Na prática, a disputa está completamente aberta e é quase impossível apontar um favorito. Eu acredito que o filme que gerou mais buzz, dentre todos, foi Mommy. Seria o caso de premiar um autor tão jovem? É difícil tentar “pensar como Jane Campion”, ou “como seus filmes”. Basta dizer que: em 2010, Tim Burton foi ousado e extremamente feliz em escolher Tio Boonmee que Pode Recordar Suas Vidas Passadas; em 2011, Robert DeNiro “fez o que pôde”, premiando A Árvore da Vida, enquanto o filme mais comentado por todos era Drive; em 2012, Nani Moretti bateu o pé, repreendeu os filmes que negligenciam os próprios personagens e, humanisticamente, surpreendeu sem surpreender, coroando o misantropo Michael Haneke, com Amour; em 2013, embora muitos não acreditassem que Spielberg fosse por esse caminho, a Palma para Azul É a Cor Mais Quente era praticamente uma barbada. Agora…

No fim, o que vale na escolha de um júri muito seleto não é o buzz, é o gosto daquele grupo. Sem mais delongas, minha aposta para a Palma em 2014 é… o bebê. Por nenhum outro motivo além do fato de não tentar violar minha regra de ouro – não ao overthinking -, aposto em Mommy, contra todas as possibilidades, palmear um Dolan de 25 anos que cita como grandes inspirações suas Titanic e Uma Babá Quase Perfeita. (Dolan, em 2010, tu citava Truffaut… Que que houve contigo?)

A listinha inevitável, do que tem mais ao que tem menos chance de ganhar a Palma, só pra dar uma perspectiva da situação.

1.Mommy

2.Adieu au Language

3.Still the Water

4.Leviathan

5.Mr. Turner

6.Winter Sleep

7.Timbuktu

8.Clouds of Sils-Maria

9.Foxcatcher

10.Deux Jours, Une Nuit

11.The Homesman

12.Maps to the Stars

13.Jimmy’s Hall

14.Relatos Salvajes

15.Saint Laurent

16.Le Meraviglie

17.The Captive

18.The Search

De longe os dois mais malhados da seleção foram os filmes de Atom Egoyan e Michel Hazanavicius. Better luck next time.

Se em parte, creio que Godard é o que tem mais chances de tirar a Palma de Dolan, acho menos provável que ele ganhe algum dos prêmios secundários, a menos que fosse o de diretor, o qual suspeito, contudo, que tenha mais chances de ir para Naomi Kawase, no caso de o júri ter realmente simpatizado com o filme dela, que parece ser um dos mais divisivos da mostra. Faria, nesse caso, sentido oferecer o Grand Prix ao Leviathan, de Zvyagintsev e o Prix do Júri a… Timbuktu, possivelmente. Em razão da falta de consenso a respeito dos filmes considerados melhores (diferente dos dois anos anteriores, por exemplo, quando Amour e Além das Montanhas; e Azul e Inside Llewyn Davis foram, de longe, considerados os grandes filmes das edições, pelos respectivos júris), é bom levar a sério a grande chance de haver empates. Em outros cenários, eu certamente apostaria no Godard ou nos filme japonês ou russo sendo contemplados com a Palma, o Dolan sendo lembrado possivelmente na categoria de diretor, onde é costume premiar jovens talentos, e não descartaria Grand Prix(s) para o Mike Leigh e/ou o Nuri Bilge Ceylan.

Nas categorias de interpretação, as coisas parecem estar bem mais tangíveis. Como atriz, Marion Cotillard reina como franca favorita, pelo filme dos irmãos Dardenne, 2 Jours, 1 Nuit. Isso, no entanto, inviabiliza a possibilidade de usar essa categoria como prêmio de consolação (já que o filme dos Dardenne não está tão comentado) para, por exemplo, as atrizes de Mommy, se este não ganhar a Palma, nem Dolan o prêmio de diretor. Correriam por fora as atrizes de Sils Maria. Entre os atores, os pesos pesados são Steve Carell, que impressionou mostrando outra faceta em Foxcatcher, e Timothy Spall, por atuação muito elogiada em Mr. Turner. Lembro que poucos anos atrás Javier Bardem dividiu o prêmio de interpretação masculina, por Biutiful, com um ator italiano semi desconhecido, do qual nunca mais ouvi falar. Dificilmente este prêmio escapa de algum deles. Para roteiro, creio que os mais bem cotados são os filmes russo e turco – aquele que não ganhar em outra categoria mais prestigiada – ou, de repente, até uma surpresa, como Sils Maria, o próprio Timbuktu, ou até, inesperadamente, um filme como Maps to the Stars, dito ser controverso, mas original.

Previsões finais:

Palma: Mommy

Grand Prix: Leviathan

Prix do Júri: Timbuktu

Diretor: Naomi Kawase, por Still the Water

Roteiro: Nuri Bilge Ceylan, por Winter Sleep

Ator: Timothy Spall, por Mr. Turner (possivelmente, empate com Steve Carell, por Foxcatcher)

Atriz: Marion Cotillard, por Deux Jours, Une Nuit

Et, voilà, Croisette! Nenhuma segurança na aposta de Palma, mas que amanhã traga-nos boas notícias, sejam elas quais forem. Surpresas, afinal, normalmente, mesmo que meio clandestinas, sempre há.

Ode ao perdedor

llewyn davis

Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum é o grande filme dessa temporada de Oscar.

Para além disso: talvez o grande filme do ano de 2013, na companhia de outros, como Azul É a Cor Mais Quente, vencedor da Palma de Ouro em Cannes (ILD recebeu o Grand Prix do Júri de Steven Spielberg) e Gravidade, exibido fora de competição em Veneza e, presumivelmente, o grande vitorioso da noite de 2 de março.

E já foram feitas suficientes interpretações do porquê de o último filme dos irmãos Coen não ter sido reconhecido de modo mais generoso pela AMPAS (Academy of Motion Picture Arts and Sciences), salvo pelas duas tímidas indicações a Bruno Delbonnel, pela majestosa direção de fotografia, e Lievsay, Orloff e Kurland, pelo trabalho de mixagem de som.

Não importa, na realidade. Alguns filmes são simplesmente bons demais para o Oscar, claramente superiores a alguns dos campeões de indicações aqui: penso em Blue Jasmine, Frances Ha, Antes da Meia-Noite, O Grande Gatsby, Amor Bandido, Os Suspeitos – para ficarmos apenas com os filmes americanos.

Em Inside Llewyn Davis, a melancolia de um homem atormentado pela própria sensibilidade artística ganha diferentes matizes, que vão do inferno a que desce, em companhia dos personagens de John Goodman e Garret Hedlund, no momento road trip da odisséia de Llewyn, e que é estampada pela meticulosa fotografia de Delbonnel, pintando aridamente o fogo da perdição na paisagem fria, azulada, dessaturada da atmosfera do inverno de 61, ao ritmo ridículo da graça debochada, em tiradas como a da esposa do professor Gorfein, constatando algo sobre o gato resgatado, e na inocência cômica, embora engenhosa, da única música escrita especialmente para o filme, a deliciosa composição “Please Mr. Kennedy”, entoada entusiasmadamente por Justin Timberlake e Adam Driver, e sem um pingo de credulidade, por nosso herói Llewyn Davis.

Llewyn Davis oscila do mesquinho, do banal, do simplesmente asshole, quando é insensível com aqueles que o ajudam, quando acredita piamente merecer mais do que a vida está disposta a lhe conceder e quando aproveita a primeira oportunidade que tem para ceder ao escárnio daquele que é tão frágil quanto ele, quando no abismo do palco à doçura e vulnerabilidade que só é capaz de emular por meio das canções folk, envelhecidas, mitologizadas, que escolhe para se apresentar, ou quando é capaz de um gesto de solidariedade, mais que pelo casal Gorfein, que tolera sua falta de gentileza, pelo felino, que observa com medo e curiosidade as estações de trem se movendo mais rápido que os momentos que se movem diante dos olhos humanos.

Em razão da própria falta de compreensão pela situação que ocupa, Llewyn Davis, o personagem genialmente construído por Oscar Isaac, está fadado, como um herói homérico fatalista, a incorrer nos mesmos erros, a cair nas mesmas armadilhas do destino e, talvez, a ser a sombra daquele que se despede com maior eloqüência, e com melhor timing – daquele que tem mais tino para ser o que justamente o inajudável Llewyn Davis tanto almeja ser.

Mais uma vez, aquilo no que os irmãos Coen sucedem aqui, é em construir cirurgicamente um filme sobre o mistério. Quando o empreendem, como em obras-irmãs, como em Barton Fink – Delírios de Hollywood e Um Homem Sério é quando são verdadeiramente brilhantes.

________________________________

E ainda há o Oscar.

Sobre Gravidade, já tive chance de falar. É um filme essencial, que vai ao núcleo da emoção, dominando com maestria a distância entre o grande e o pequeno. Um filme ao qual certamente retornaremos.

12 Anos de Escravidão é também belo filme, movido sobretudo pelas belíssimas interpretações, além da potência visual das imagens que Steve McQueen construiu ao lado de Sean Bobbitt. É um filme que segue uma tradição mais convencional, o que digo sem conotação pejorativa.

Na realidade, embora os dois sejam provavelmente os grandes filmes da premiação, os mais satisfatórios ao lado dos dois próximos, ainda há um tom conciliatório que me incomoda, ao final de tanto um quanto do outro.

O Lobo de Wall Street e Nebraska foram dois dos filmes que mais me surpreenderam, a despeito do pedigree. Não poderiam ser filmes mais diferentes na aparência. O de Scorsese é impulsionado pela megalomania de seus personagens, pelo ritmo histérico e deliciosamente amoral, embora não cesse de mostrar o desespero por trás da farsa, o que invalida as críticas precipitadas, de que ele endossaria o comportamento de seu (anti)herói. O filme de Alexander Payne, por sua vez, me parece uma expressiva melhora em relação ao tépido Os Descendentes. Com sensibilidade, também valendo-se de uma fotografia melancólica, que ressalta a solidão de seus personagens, desiludidos com a vida e bem-intencionados, mostra um bonito retrato do interior da América. Creio que tanto um quanto o outro sabem dosar perfeitamente o humor com a tragédia, evidenciando o quanto essas dimensões, em vez de opostas, conjugam-se, numa dinâmica interessante para falar daquilo que é humano.

Ela é, sem sobra de dúvidas, um filme interessantíssimo. Acho que merece estar na discussão, simplesmente por aquilo que se propõe a fazer. Muito mais que Gravidade, por exemplo, aproxima-se do desafio lançado por Kubrick em 2001. Infelizmente, ele ainda me parece um daqueles filmes em que a premissa funciona melhor do que a execução. Há várias boas idéias na trajetória de Theodore e em sua relação com Samantha, mas nem sempre tão bem desenvolvidas quanto eu gostaria. É, no entanto, mais um que merece redobrada atenção.

Clube de Compras DallasPhilomena são dois bons filmes. Nascem, como vários outros desta lista, de uma história verídica que a princípio parecia promissora para “dar um filme”. Os roteiros deixam a desejar – principalmente do segundo -, onde os atores aparecem para resgatá-los do que poderia ser um resultado menos que medíocre. Não são filmes em que estarei pensando em alguns meses.

Trapaça é um pouco como um trem desgovernado. Eu até entendo o que David O. Russell queria fazer com esse filme, mas ele simplesmente não funciona. Há uma certa pretensão de “grande obra”, apostando no over que são aquelas perucas e overacting dos atores. As músicas foram escolhidas, parece, da maneira mais óbvia possível. Os momentos que O. Russell tenta “eternizar” acabam denunciando o próprio filme do pecado de levar-se excessivamente a sério, se é que isso é possível. Mas dá para notar que ele pode cair no gosto de alguns. Pelo menos ele tem um ou outro momento que equivale ao que hoje em dia prega-se como “entretenimento”, o que é mais do que eu posso dizer a respeito de…

Capitão Phillips. O filme é simplesmente chato e longo demais, ponto. O objetivo era fazer um retrato humanista de dois homens corajosos, ocupando lados opostos, face às circunstâncias da política internacional, sem que com isso eles desempenhem marionetes maniqueístas? Não foi alcançado.

____________________

Palpites.

Esse será o ano dos 20 acertos? Não estou confiante, receio.

MELHOR FILME

Entre o filme de McQueen e o filme de Cuarón, qualquer que sair vitorioso, o Oscar estará bem entregue. O senso comum nos adverte de apostar numa separação entre Oscar de melhor filme e melhor diretor, exceto numa situação como a do ano passado, quando era óbvio que Argo ganharia melhor filme, mesmo com Ben Affleck não estando indicado a melhor diretor. Muitos acreditam que Gravidade conquistará essa dobradinha, mas acredito que a aposta mais segura, com base nos precursores, é marcar que o vencedor será 12 Anos de Escravidão.

MELHOR DIRETOR

No-Brainer. Qualquer resultado que não seja Alfonso Cuarón, por Gravidade, será um choque. Um prêmio para McQueen também seria justo, embora, na minha humilde opinião, seu grande filme ainda seja Shame, um filme tão ignorado pelo Oscar quanto Inside Llewyn Davis, este ano.

MELHOR ATOR

Eu daria um Oscar a Matthew McCounaghey pela brilhante interpretação na série True Detective. Não daria pelo bom trabalho em Clube de Compras Dallas. Acredita-se que seu grande adversário seja Leonardo DiCaprio, um estupendo ator, que também está muito bem em O Lobo de Wall Street, mas que, para meu gosto, esteve ainda melhor em O Grande Gatsby. Meus favoritos na categoria são Bruce Dern, por Nebraska, e Chiwetel Ejiofor, por 12 Anos de Escravidão. Não se sabe o que Christian Bale, muito bom ator em outros contextos, está fazendo aqui. Dito isso, é muito improvável que o Oscar não fique com Matthew McCounaghey.

MELHOR ATRIZ

Outra barbada. Amy Adams é uma excelente atriz e, provavelmente, a melhor coisa em Trapaça. Mas o parâmetro aqui é outro. Meryl Streep e Judi Dench nunca desapontam e estão, como de hábito, excelentes. Eu jogaria uma moeda pra cima e qualquer uma que ganhasse, entre Sandra Bullock, por Gravidade, e Cate Blanchett, por Blue Jasmine, me deixaria satisfeito. Naturalmente o Oscar irá para Cate Blanchett.

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Essa é uma das categorias mais fracas deste ano. Desempenhos bons ou razoáveis, mas nada de fazer o chão tremer. Meu favorito certamente seria Michael Fassbender, por 12 Anos de Escravidão, no papel talvez mais complexo entre os cinco indicados. Quem ganhará o Oscar, já tendo arrebatado todos os precursores, é Jared Leto, em desempenho convincente, por Clube de Compras Dallas.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Gosto muito que Sally Hawkins tenha sido indicada, por Blue Jasmine. June Squibb e Julia Roberts também estão muito bem, em seus respectivos dramas familiares. Jennifer Lawrence, eu simplesmente não entendo. Não há dúvidas de que o grande desempenho da categoria seja o de Lupita Nyong’o, por 12 Anos de Escravidão. A briga é acirrada entre Jennifer e Lupita, mas ficarei com a segunda. Esse é um voto um pouco do “quero acreditar”.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Essa é uma categoria muito difícil de prever. Eu daria o Oscar sem pensar para Woody Allen, por Blue Jasmine. No entanto, a briga está com certeza entre Spike Jonze, por Ela, e Eric Warren Singer & David O. Russell, por Trapaça. Não sinto confiança na previsão, mas a aposta é em Trapaça, um filme um pouco mais popular entre os votantes.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Seria delicioso ver o trio Linklater, Delpy e Hawke premiado pelo excelente texto de Antes da Meia-Noite. No entanto, dificilmente o Oscar não irá para John Ridley, por 12 Anos de Escravidão, e certamente estará em boas mãos.

MELHOR ANIMAÇÃO

Nada sei, apenas sigo os gurus. Aqui dá Frozen: Uma Aventura Congelante.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Sempre uma das categorias mais interessantes. Ano passado consegui assistir aos cinco indicados, o que foi bom, embora fosse uma barbada apostar em Amour. Esse ano, vi apenas três, sem chances para comentar sobre o filme do Camboja, A Imagem que Falta, e o da Palestina, Omar. A impressão que fica, no entanto, é que não foi uma das seleções mais fortes. Entre os filmes indicados pelos comitês nacionais, não foram escolhidos Um Episódio na Vida de um Catador de Sucata, da Bósnia; O Som ao Redor, do Brasil; Grigris, do Chade (Cannes, bem ou mal); Gloria, do Chile; Renoir, da França; O Menino que Comia Alpiste, da Grécia; O Grande Mestre, de Hong Kong; O Passado, do Irã; Heli, do México; Borgman, da Holanda; Linhas de Wellington, de Portugal; e Instinto Materno, da Romênia. Com toda certeza os filmes do Chile, do México e da Romênia estariam em alguma lista minha. Isso para não falar dos filmes exibidos em Berlim, Cannes ou Veneza, que não seriam elegíveis conforme os critérios do Oscar, mas que certamente constariam numa lista de filmes internacionais mais celebrados do último ano. Isto posto, quero dizer que meu favorito entre os três que assisti certamente é A Caça, do talentoso Thomas Vinterberg, que representa a Dinamarca. O filme belga, Alabama Monroe, tem qualidades, me parece inventivo e atraente, mas imperfeito, demora a engrenar. Fiquei desapontado ao assistir A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, mas creio que seja ele o mais bem-recebido entre os votantes do Oscar.

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Pena que não conste aqui o excelente Histórias que Contamos, de Sara Polley. Entre os indicados, assisti somente ao exuberante O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer, que em outro contexto certamente levaria a estatueta para casa. O consenso aqui nos diz que o vencedor deve ser A Um Passo do Estrelato, de Morgan Neville, o mais leve entre os indicados.

MELHOR DOCUMENTÁRIO CURTA

Apostas vão em The Lady in Number 6: Music Saved my Life.

MELHOR CURTA LIVE ACTION

Essa é uma das categorias mais difíceis de prever, escuto vozes dissonantes. Ao abismo: Helium.

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO

O filme da Disney, Get a Horse!

MELHOR TRILHA SONORA

Infelizmente, não foi um grande ano para trilhas sonoras de filmes, uma categoria pelo qual meu interesse cresce cada vez mais. Em anos anteriores, tivemos trilhas brilhantes de Gustavo Santaolalla (Brokeback Mountain, Babel, On the Road); Alexandre Desplat (O Curioso Caso de Benjamin Button, O Escritor Fantasma, The Ides of March, Moonrise Kingdom, A Hora Mais Escura – embora o trabalho mais recente dele, em Caçadoras de Obras-Primas seja claramente uma bola fora), que este ano está indicado pela trilha pouco memorável de Philomena; Trent Raznor e Atticus Ross (A Rede Social, Os Homens que Não Amavam as Mulheres); Hans Zimmer (Inception); Alberto Iglesias (A Pele que Habito, O Espião que Sabia Demais); e Jonny Greenwood (O Mestre), para citar alguns. E, bem, algumas pessoas também gostam muito de John Williams. Este ano, minha escolha teria ido provavelmente para Hans Zimmer, pelo trabalho em 12 Anos de Escravidão, trilha que, certamente, não por acaso, muito me lembra o que Harry Scott produziu para Shame. No entanto, o Oscar deve ficar com Steven Price, por Gravidade, que é um bom trabalho, certamente. Mas a seleção como um todo deixou a desejar.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Certamente eu teria escolhido “Please Mr. Kennedy”, de Inside Llewyn Davis. Entre os indicados, optaria por “The Moon Song”, de Ela. O Oscar deve ficar com “Let It Go”, de Frozen: Uma Aventura Congelante.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Aqui tem seqüência o festival de prêmios técnicos para Gravidade, diga-se de passagem, merecido. Quem conhece da matéria, no entanto, tece loas ao trabalho de som em Até o Fim.

MELHOR MIXAGEM DE SOM

Seria uma chance de dar alguma coisa para Inside Llewyn Davis, mas vocês sabem que isso não vai acontecer. É Gravidade.

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

Acredito que não seja apenas wishful thinking. Não há trabalho que salte mais aos olhos do que o realizado em O Grande Gatsby.

MELHOR FOTOGRAFIA

Aqui, outra barbada, muito embora essa categoria seja fortíssima. Meu favorito pessoal seria Bruno Delbonnel pela fotografia deslumbrante de Inside Llewyn Davis. Phedon Papamichael fez um trabalho fantástico em preto e branco, em Nebraska. E Deakins é Deakins, genial como sempre em Os Suspeitos. Abstenho-me de comentar sobre o Grande Mestre. Com certeza o prêmio irá para a estupenda fotografia de Gravidade, cortesia de Emmanuel Lubezki. Sean Bobbit deveria estar aqui, por 12 Anos de Escravidão.

MELHOR MAQUIAGEM E CABELOS

Ok, se há UM (!) prêmio que Trapaça mereceria ganhar, seria o prêmio de perucas. Isso não aconteceu. Fez-se todo um lobby em cima da maquiagem de Clube de Compras Dallas, que teve um orçamento baixíssimo. Ele deve ganhar e, no final, o filme sairá provavelmente com três Oscars. A despeito disso, a julgar só pelo trailer, eu daria o prêmio para Vovô sem Vergonha. É muito impressionante a transformação de Johnny Knoxville.

MELHOR FIGURINO

Há quem aposte em Trapaça. Vou de O Grande Gatsby.

MELHOR MONTAGEM

Essa é uma das mais difíceis de prever. Capitão Phillips ganhou o prêmio do sindicato de montadores. Se é verdade que esse filme é tão querido entre os votantes, essa seria a categoria para dar um prêmio de consolação. Ao mesmo tempo, Gravidade é um prodígio. Eu não riscaria nem mesmo a possibilidade de surpreenderem, com Clube de Compras Dallas, que tem um ritmo peculiar, ora frenético, ora cadenciado, denotando o trabalho de montagem, de modo mais explícito. O próprio Trapaça teria chances. Difícil. Vamos lá: por que não aqui também? Gravidade. Absurdo que não esteja aqui a célebre Thelma Schoonmaker, por O Lobo de Wall Street.

MELHORES EFEITOS VISUAIS

A mais barbada de todas: Gravidade.

________________________________

A julgar pela lista de filmes, eu não acho que o ano de 2013 tenha sido tão forte quanto os americanos querem nos fazer crer. É verdade que o Oscar não escolheu filmes tão bons quanto poderia ter feito. Mas se eu fosse julgar pelo menos os candidatos mais fortes, que devem brigar pelos prêmios principais, certamente já tivemos anos bem piores. Saldo razoável, então.

________________________________

Fica aqui, por fim, nossa saudação ao grande Alain Resnais. Um verdadeiramente grande.

R.I.P.

Mais um ano

Não vou me ater sobre o filme de Mike Leigh de 2010, embora ele certamente ressoe no embalo do meu espírito nessa parte do ano. Mais duas ou três estações toleráveis, mais um verão de lascar, e aqui estamos novamente, prontos a cumprir com nosso compromisso anual de declarar quais foram os dez filmes do ano que mais nos fizeram sentir alguma coisa.

A coisa toda das listas, como sempre digo, e aborreço a mim mesmo por reiterar, é provisória e algo mutante. Eu acabo inevitavelmente tentando comparar minhas listas com a de outros críticos e outros cinéfilos, até para achar um pouco de consenso, e, como cada um adota um critério, fica essa coisa meio sem pé nem cabeça. O critério deste ano, seguindo o dos anos passados, é o de filmes “assistidos” em 2013. Se eu fosse reorganizar essa montagem por outros critérios, as coisas ficariam um pouco diferentes.

Com isso digo, de antemão: o grande filme do ano, deste e do passado, é Tabu, de Miguel Gomes, indiscutivelmente.  Tabu entra na lista de 2013 de alguns críticos, não entrará na minha, porque já entrou na lista de 2012, embora só tenha chegado ao circuito brasileiro no ano presente. Não importa, realmente. Tabu é o melhor filme dos últimos dois anos, ponto. Em razão desses criteriozinhos chatos que somos obrigados a adotar, para não ficar repetindo filmes de ano a ano, opto por deixá-lo hors concours. Mas Tabu é o cara, estamos conversados.

Algumas observações, antes de partir pras listas, que partem da observação da minha própria lista. Quando cheguei ao corte final dos dez, achei a lista excessivamente americana, e vinha ao blog pronto para dizer: “Nunca antes na história dos top 10’s deste blog, fui tão americanófilo”. Mentira! Em 2010 (que foi um ano de Mostra – para mim, ao menos), escolhi 7 filmes americanos. Sete! Hoje em dia, fica um pouco mais difícil precisar exatamente essas coisas. Dois exemplos, que pego do ano passado: Precisamos Falar sobre o Kevin – britânico ou estadunidense? This Must Be the Place – europeu ou americano? Dane-se, isso. Eu tenho a sensação que os filmes da lista deste ano são mais tradicionalmente, ao menos, americanos. Talvez reflita aquilo que muitos críticos, este ano, entenderam como sendo um ano mais forte do cinema dos Estados Unidos, pelo menos se nos dispomos a compará-lo com os dois anos anteriores.

Outra coisa que me chama atenção – e isso vai além da americanice desta lista – filmes, ao menos na aparência, simples, que ou tratam da simplicidade, ou se revestem de alguma maneira de simplicidade para atingir aquilo que não é assim tão simples. Simples não quer dizer ordinário.

Passo a algumas listas de críticos que me chamaram atenção, com um ou outro breve comentário, e, por fim, tentar extrair algum tipo de consenso, antes do sem mais delongas.

Guy Lodge

1.Gravidade [Gravity]

2.The Selfish Giant

3.Under the Skin

4.A Imigrante [The Immigrant]

5.Mother of George

6.Instinto Materno [Child’s Pose]

7.Tom à la Ferme

8.Frances Ha

9.Azul É a Cor Mais Quente [La Vie d’Adèle]

10.As Bem-Armadas [The Heat]

Guy é um doido de pedra, colocando “As Bem-Armadas” apenas uma posição abaixo de “Azul”. Não importa. Ele é um dos críticos mais interessantes que há por aí e é louvável o quanto há de “fator idiossincrasia” nas suas listas. O filme romeno, vencedor do urso de ouro em Berlim, ressoa em mim da melhor maneira possível, mas talvez tenha sofrido um pouco em função da expectativa criada. “The Immigrant”, de James Gray, segue sendo um dos meus mais aguardados para o futuro.

Kris Tapley

1.Gravidade

2.Amor Bandido [Mud]

3.Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum

4.Antes da Meia-Noite [Before Midnight]

5.É o Fim [This Is the End]

6.O Lugar Onde Tudo Termina [The Place Beyond the Pines]

7.Até o Fim [All Is Lost]

8.Spring Breakers: Garotas Perigosas

9.Nebraska

10.Tudo por Justiça [Out of the Furnace]

Kris também é um crítico rigoroso, que respeito e que costumo achar ter um gosto próximo do meu, a maior parte do tempo. Aqui ele se puxou um pouquinho, na coisa toda de “Team USA”. Quero apenas dizer: Llewyn Davis, estou pronto para você. (Há cerca de um ano, já.) Você está pronto para mim?

Ana Maria Bahiana

*12 Years a Slave

*Ela [Her]

*A Grande Beleza [La Grande Bellezza]

*Gravidade

*Vidas ao Vento [Kaze Tachinu/The Wind Rises]

*Nebraska

*O Lobo de Wall Street [The Wolf of Wall Street]

*Alabama Monroe [The Broken Circle Breakdown]

*O Passado [Le Passé]

*Fruitvale – A Última Parada [Fruitvale Station]

Pra quem curte desenho, tenho certeza que o Miyazaki é um prato cheio. Para além disso, interessantemente, poucos críticos estão lembrando do Farhadi, que não fez tanto barulho assim em Cannes, mas, agora, parece ainda mais distante.

O Globo

1.Amor

2.Azul É a Cor Mais Quente

3.A Bela que Dorme [Bella Addormentata]

4.Blue Jasmine

5.A Caça [Jagten]

6.Cesar Deve Morrer [Cesare Deve Morire]

7.Django Livre [Django Unchained]

8.Frances Ha

9.O Som ao Redor

10.Tabu

Normalmente, sempre conto com a lista de “O Globo” para me encontrar no consenso dos críticos brasileiros. Dessa vez, quase não é diferente, e confesso que até me irrita um pouco quão próximas foram algumas impressões que tivemos. No entanto, Django é, para mim, um filme que simplesmente não funciona, a despeito de seus óbvios admiradores; e Cesar, por mais belo exercício que seja, dificilmente deixará de ser “o filme que injustamente (!) venceu o Urso de Ouro em Berlim/12″, uma vez que Tabu estava na briga. Que O Globo o posicione quatro posições acima do filme português apenas faz com que eu sinta cheiro de blasfêmia.

Zero Hora

*Tabu

*A Caverna dos Sonhos Esquecidos [Cave of Forgotten Dreams]

*Amor [Amour]

*O Som ao Redor

*Um Toque de Pecado [Tian Zhu Ding]

*Azul É a Cor Mais Quente

*A Bela que Dorme

*Depois de Maio [Après Mai]

*Dentro de Casa [Dans la Maison]

*Killer Joe – Matador de Aluguel

Eu acho que tem alguns filmes superestimados nessa lista, como o Assayas, o Ozon e o Jia Zhang-Ke, que, meio que de uma hora para outra, virou o cineasta favorito de nove entre dez críticos. Eu acho, sim, que Um Toque de Pecado é um filme interessante, e, tendo-o assistido recentemente, sinto que ainda estou maturando, refletindo sobre ele. Mas que não é tudo isso, não. Muita coisa para mim não funciona. E choca que de apenas um filme americano na lista, o escolhido tenha sido Killer Joe. Apesar disso, quero dizer que gosto imensamente de Bella Addormentata – que não é elegível para mim, pois entrou na conta de 2012 -, mas que, fundamentalmente, essa lista implica, a meu ver, vasto progresso em relação à lista que apresentaram no ano passado.

Luiz Carlos Merten

*Um Estranho no Lago

*Azul É a Cor Mais Quente

*Zarafa

*Gravidade

*O Homem de Aço [Man of Steel]

*Rush – No Limite da Emoção

*O Som ao Redor

*São Silvestre

*O Estranho Caso de Angélica

*Branca de Neve [Blancanieves]

O negócio é que o Merten se puxa nas idiossincrasias, o que nem deixo de achar bom, embora assente que seja um pouco bizarro. Rush? Ok. Não vou falar de Zarafa ou do filme do Superhomem, pois não os vi. Comove-me, no entanto, a lembrança a Blancanieves, que é um belo filme.

André Barcinski

*The Act of Killing

*Gravidade

*O Mestre [The Master]

*Killer Joe – Matador de Aluguel

*Bastardos [Le Salauds]

*Beware of Mister Baker

*O Som ao Redor

*A Caça

*Computer Chess

*Hannah Arendt

Nada contra o Barcinski, pois já li algumas críticas dele e acho que sempre tem um ponto de vista interessante a oferecer. Me lembro, por exemplo, que foi um dos caras que melhor expressou meus sentimentos em relação a Django Livre, que considero um equívoco. Nada contra ele, que escolheu alguns filmes muito bons, entre os que vi, e opa, como os críticos brasileiros estão festejando Killer Joe! Nada contra. Mas Hannah Arendt é abominável. Isso, no fim, é somente meu pretexto para dizer o quanto desgostei do filme de Margarethe Von Trotta, que é fraquíssimo, péssimo, feito para [discurso reaça chegando em 3, 2, …] intelectual de esquerda achar que está ajudando a difundir o pensamento de uma das mais fundamentais pensadoras do século XX. Hannah Arendt é o cúmulo da pieguice, desde o modo como sua diretora constrói as cenas – aquela da escada, talvez o clímax do filme, é de revirar os olhos. Não temos que nos pautar pela virtude dos valores sendo, supostamente, postos em discussão. Nada está sendo posto em discussão neste filme. Pelo pouquíssimo que já pude ter contato com essa autora, chego à conclusão que o filme não consegue chegar nem perto de cumprir aquilo a que se propõe, ser um recorte no tempo de uma biografia intelectual, cujo foco é um dos episódios mais interessantes de sua carreira e vida pessoal, mesmo: a questão do julgamento de Eichmann em Jerusalém e a construção do conceito de banalidade do mal. Querem um exemplo magnífico daquilo que Hannah Arendt, o filme – não se enganem, por favor – tentou ser e não conseguiu? Um Método Perigoso, de Cronenberg, ponto. O filme de Von Trotta, no máximo, tenta pintar um desenho bonito da filósofa, à luz de uma capa de feminismo virtuoso que, no máximo, consegue evocar a emancipação feminina nos moldes de Sex and the City. E não é minimamente tão engraçado quanto. Se leva a sério de um jeito pretensioso. Aqui está: Hannah Arendt, o pior filme de 2013. Pronto. (Mas só porque estou fazendo vista grossa pra isso aqui.)

Sight & Sound

1.The Act of Killing

2.Gravidade

3.Azul É a Cor Mais Quente

4.A Grande Beleza

5.Frances Ha

6.Um Toque de Pecado

Upstream Color

8.The Selfish Giant

9.Norte, the End of History

Um Estranho do Lago [L’Inconnu du Lac]

Sempre podemos contar com S & S para o desejável “consenso com personalidade”. Escolha forte, pôr um documentário no número 1, num ano como este. Com certeza, chamou muito mais atenção para The Act of Killing. E aqui também: Sorrentino, já estou pronto para você. É só chegar.

Cahiers du Cinéma

1.Um Estranho do Lago

2.Spring Breakers: Garotas Perigosas

3.Azul É a Cor Mais Quente

4.Gravidade

5.Um Toque de Pecado

6.Lincoln

7.La Jalousie

8.A Filha de Ninguém [Nugu-ui ttal-do anin Haewon/ Nobody’s Daughter Haewon]

9.Les Rencontres d’Après Minuit

10.La Bataille de Solférino

E não é que nem achei a lista da Cahiers tão malucona quanto costumo achar? Não que seja standard, mas aqui tem bastante espaço pra consenso, também. Afinzaço dos franceses que não chegaram ainda. E viva este cineasta sensacional que descobri este ano, que atende pela alcunha de Hong Sang-Soo!

***

Passemos às menções honrosas. Diferente do ano passado, não me foi assim tão difícil, entre todos os filmes considerados, escolher dez. Quer dizer, sempre é um esforço, mas ano passado eu realmente fiquei muito dividido entre Um Método Perigoso e Beleza Adormecida para escolher o número 10 da lista, motivo pelo qual abdiquei de fazer menções honrosas a demais filmes.

Este ano, os dez estão mais sólidos. Sendo assim, permito-me comentar, de passagem, alguns filmes de que gostei muito em 2013 mas que, por falta de espaço, não consegui destacar entre os dez eleitos. Vão em ordem alfabética, então.

A Filha de Ninguém Haewon é um filme pequeno, despretensioso, mas de muita poesia, como costumam ser os filmes de Hong Sang-Soo. Ainda tem muito saquê (não, não saquê, aquele traguinho coreano, ao invés), muito “o professor de cinema inseguro e perdidão”, muito acaso bizarro, mas, à diferença de outros – dos que vi, ao menos – tem, ao menos, a tentativa de oferecer uma perspectiva mais feminina ao universo do Rohmer coreano.

Amor Pleno [To the Wonder] Ninguém está falando do filme de Malick, mas é compreensível, pois foi quase que universalmente desgostado. Eu, que não sou uma viúva de A Árvore da Vida, mas que me sinto capaz de reconhecê-lo como um belo filme, me vejo gostando tanto quanto, ou até mais, deste primo pobre, que não tem a ambição do filme anterior, mas que é, com efeito, absolutamente deslumbrante na apresentação da meditação sobre os homens e sua perdição.

Antes da Meia-Noite Eu não apenas fiquei fascinado com este filme, julgando-o um bocado superior ao segundo episódio da série, e forte na mesma medida que o primeiro, como fiquei enamorado ao notar aproximações que Cahiers du Cinéma fez entre ele  e demais filmes de relacionamento que usam o Mediterrâneo como cenário, como O Desprezo, de Godard e Viagem à Itália, de Rossellini. Prato cheio para o meu imaginário cinefílico. A sensação de que preciso retornar a ele também é muito forte, algumas seqüências poderosíssimas.

As Sessões [The Sessions] Este filme, embora tenha encantado alguns críticos americanos no ano passado, aqui acabou passando meio desapercebido, acho, em função de ter entrado comprimido, no início do ano, entre outras estréias de Oscar. Não importa. É um dos filmes que mais conseguiu me emocionar este ano, com delicadeza e aquela dose precisa e equilibrada de humor que decorre da dureza de uma tensão como a aqui mostrada.

Blue Jasmine Ei, é Woody Allen! Roma não foi exatamente um estouro, mas a azulada Blanche Dubois do gênio de Manhattan acertou na mosca. O trailer enganou, pois diferente do originalmente pensado, este conto está menos para Simplesmente Alice, mais para Another Woman. Eu me lembrarei do francês mal enunciado de Lizzie Miles, quando lamenta a dificuldade de achar um bom homem, das notas melancólicas de Blue Moon, dos monólogos delirantes de Cate Blanchett e, afinal, da fantasia que contorna o desespero de todo herói alleniano. O período azul ainda frutifica.

Holy Motors Eu sei que a maioria de vocês viu este filme em 2012, mas não foi o meu caso.  Retardatário na festa, só posso fazer uma mesura à enlouquecida celebração da vida de Leos Carax. Uma vez Phillipe Dubois (ou mais de uma vez) disse que Denis Lavant era um anjo do cinema barroco francês. Mas, para mim, ele é um demônio. A irreverência é contagiante, mas nada me fez sorrir mais que a seqüência no carro, com pai e filha. O cinema francês ri do cinema francês: ri melhor quem ri mais próximo.

O Grande Gatsby [The Great Gatsby] Foi um dos meus filmes mais antecipados para este ano, e não me desapontou nem por um segundo. A visão majestosa de Baz Luhrmann fecha perfeitamente com o universo hedonista, aparentemente idílico, falso brilhante, de Fitzgerald. Muitíssimo mais que aquela bomba de 74, dirigida por Jack Clayton e roteirizada por Coppola. O Gatsby de Luhrmann é vibrante, inquieto, neurastênico, graças à atmosfera sombria criada e, sem sombra de dúvidas, ao fantástico uso de música.

Um Estranho no Lago Por fim, o filme talvez mais misterioso do ano. Como interpretar a obra de Alain Guiraudie? Provavelmente, do jeito mais alegórico possível. O duo Eros-Tanatos comparece expressivamente. Franck afim daquele bigodudo sedutor  é um convite ao perigo. O jeito mais fácil de se perder, no sexo e no amor, é se entregar, sem restrições. Isso não vem sem conseqüências. E isso que nem se tocou naquele tipo gordinho, estranho e observador, que fica amigo de Franck. Ainda, é um filme para muito se refletir…

E, com isso, passamos aos dez.

10

88331-944-503

Os Amantes Passageiros [Los Amantes Pasajeros], Pedro Almodóvar

Não, era brincadeira, gente. Eu nem achei o filme do Almodóvar tão ruim assim quanto todo o resto do mundo, provavelmente, porque já fui com uma expectativa bem baixa. Mas, se me pedir pra dizer na lata, quem decepcionou mais em 2013, Pedro ou Quentin, podem apostar que já sei quem marcar.

10

Heli-1

Heli, Amat Escalante

Deixe-me falar um pouco sobre a experiência de assistir ao mexicano “Heli”, ganhador do prêmio de mise en scène (aka Melhor Diretor) na competição do Festival de Cannes, atribuído pelo júri de Steven Spielberg.  O filme foi exibido pelo Cinesesc, na Augusta, em setembro, durante um festivalzinho indie bacana. Eu, um pouco, sabia do que se tratava, mas imagino que nem todos. Algumas paisagens desérticas filmadas por Escalante são deslumbrantes, o sol, a natureza, o vazio, a solidão. E tudo isso contrasta com imagens muito, muito difíceis de digerir. Na verdade, os olhos fogem da tela, porque é uma violência descomunal, nada simbólica. E tanto mais gráfico Heli se torna, mais uma boa quantidade de espectadores do Cinesesc ria, gargalhava meio que histericamente. A senhora que se sentou a meu lado, tendo chegado atrasada, simpática, e que fazia um ou outro comentário durante a projeção, se desconcertou: “Não entendo como algumas pessoas riem!”. “Eu não sei”, respondi, mas foi uma mentira. Eu sei porque as pessoas riem ao assistir Heli. Porque a crueza daquelas imagens simplesmente se acoplam em algo em ti e ficam contigo e tu acaba forçado a reagir, de uma forma ou outra. O riso alivia, meio que apazigua, mas não completamente. Em Heli, mais que a história, que é uma boa história, o que importa é o plano, a imagem, tentando conciliar a nostalgia do corpo ao espaço. Godard disse: “a beleza é o começo de horror que somos capazes de suportar.” Alguns de nós não somos capazes de suportar. A senhora simpática, lá pelas tantas, desistiu, sem entender por quê algumas pessoas riam daquilo e por quê se submeteria a um filme como aquele. Mas até determinado ponto, encontrei em Heli uma experiência ímpar de beleza.

9

petra-ny

Elena, Petra Costa

Meu filme nacional favorito do ano não é O Som ao Redor, não é São Silvestre, não é Minha Mãe É uma Peça. É Elena. Os atores convidados, no vídeo promocional, provocam: “Você não ia querer conhecer a Elena. Ia?” Ia, sim, pois a Elena é uma daquelas pessoas que é simplesmente interessante. É uma daquelas pessoas dotada de bruta sensibilidade, coisa que, não vamos tapar o sol com a peneira, via de regra acaba lhes causando mais mal que bem. E então, o doloroso exercício de Petra Costa, de resgatar as pegadas da irmã que foi tentar a vida como artista em Nova York. Acho que o mais interessante a respeito do documentário é o modo como Petra vai construindo a narrativa. Tudo é envolvido numa névoa, numa atmosfera de mistério, desde a vida em família, a infância das duas irmãs. Porque a vida é um pouco isso. Essa incerteza, essa falta de saber o que será, até certo ponto, antes da instalação de todo o fatalismo. A infância é assim. Depois, as deambulações nova iorquinas, as agruras de Elena, os encontros com o passado. Mas não havia predestinação aí. No princípio, eram apenas duas menininhas que brincavam de cantar e dançar, e se apresentar, e fazer de conta que são artistas, como, às vezes, até os adultos fazem. Depois, veio a vida.

8

XVzjvAtiGiDigMYtYFIQ

A Visitante Francesa [Da-Reun Na-Ra-E-Seo/In Another Country], Hong Sang-Soo

O ano é dele: o ano é de Hong Sang-Soo! Em Porto Alegre, visitantes franceses ou nativos coreanos tiveram oportunidade de encontrar-se com ele três vezes: Hahaha (2010), A Visitante Francesa (2011) e A Filha de Ninguém (2013). E Our Sunhi vem aí, porque o homem não pára. O que é tão especial a respeito de Hong Sang-Soo é sua capacidade de extrair uma melancolia doce, tão poética, tão simples, dos pequeninos eventos, os mais cotidianos possíveis. Ao fim de Hahaha, um amigo agradece a outro por ter compartilhado uma bonita história com ele. No início de Haewon, uma filha se despede de uma mãe de um jeito tenro, cômico, tocante. Mas é no filme estrelado por Isabelle Hupert, Isabelle Hupert e Isabelle Hupert que encontramos o pulo do gato. Mais que o tempo, aqui é o lugar que serve de inspiração para mais essa breve meditação sobre pessoas tentando encontrar a si próprias, e umas às outras. Uma praia chuvosa. Restos de garrafa na areia. Uma mulher francesa procura um farol. Encontra… um salva-vidas bonitão, um pouco abobalhado, que não sabe onde está o farol, mas escreve uma música, pois aquela mulher, tão bonita, tão exótica, capaz de despertar ciúmes nas coreanas casadas, confusão e ira nos coreanos casados, aquela mulher, em outro país, vale uma música, um pequeno episódio, um recorte de vida. Mas poderia ser diferente. Se não fosse ela a cineasta, mas um outro. Se não fosse ele que estivesse perdido de amor, mas uma outra. Se não corresse ela o risco de ferir os pés, mas outro. Se não estivesse ela mesma vivendo essa história, mas em outro lugar.

7

mud-fleuve

Amor Bandido [Mud], Jeff Nichols

Mais um filme que foi um estrondoso sucesso de crítica entre os americanos e que provocou pouca, se qualquer, repercussão entre os brasileiros. Mas não se enganem: trata-se de uma pequena jóia do vibrante cinema jovem independente. Jeff Nichols é contagiado por uma verve Mark Twain. Mud (sério, Amor Bandido não rola) é a história de dois meninos que habitam uma região ilhoa no Rio Mississipi, e que se viram muito bem no território, dominando tudo que diz respeito a seu universo pré-adolescente – o rio, as peças mecânicas, as pequenas aventuras à Huckleberry Finn. Mas há, ainda, todo um novo mundo a ser desbravado e que será, bem ou mal, mediado pela figura um pouco folclórica, um pouco fascinante, um pouco mentirosa, um pouco perigosa de Mud, procurado pela polícia por um crime de amor. Diante das bravatas de Mud, Ellis fica encantado; Neckbone, desconfiado. Todas as coisas não são bem o que parecem ser. Mas há, de fato, um barco numa árvore, um crime, uma bela mulher. Mais uma vez Godard: a gun and a girl. E ritos de passagem. E Ellis agora tem de crescer, o menino ficará pra trás, dará lugar ao homem. Ficará? Mud é um homem ou um menino? Mud é tão ladino como pensamos que é? E esse amor ridículo que ele sente? É o amor verdadeiro, como acredita Ellis que pode haver? Há o amor verdadeiro? Ou talvez o amor é uma piada, uma falácia, uma ilusão, uma nuvem, um barco numa árvore?

6

screen-shot-2013-11-20-at-13-08-47

Frances Ha, Noah Baumbach

Alguma coisa este ano vibrou tão intensamente quanto Frances Ha? Muita gente adorou, foi filme de consenso, junto com provavelmente mais outros dois desta lista (eu olharia para os filmes número 4 e 2), mas acho que um ou outro perdeu o bonde da história.  Frances Ha não é a tentativa cinefílica de Baumbach fazer seu filme de nouvelle vague, de modo alguém. Citem o Truffaut, whatever, e além disso, sabe-se também que há referências a Leos Carax. Mas Frances brilha com luz própria, pois é um filme de geração. Muito difícil eu e alguns outros contemporâneos meus não se identificarem. Essa confusão mal-amadurecida, vontade de comprar a idéia que nos foi oferecida, que a vida está aí para ser tanto desfrutada quanto desbravada, mas não sem os pés no chão, mesmo que tudo que você queira seja brincar de lutinha num mundo de adultos que deixou pra trás esse conhecimento adquirido, essa arte perdida. Ela é uma loser? Depende do jeito que você enxerga. Frances é de uma humanidade cativante, pelas pequenezas, as recorrências, as passagens aparentemente insignificantes, de uma coisa a outra. É verdade que os dois primeiros terços são mais fortes que o terceiro. Ainda assim, num filme que esquadrinha e dignifica a imperfeição, não será isso que o deixará menor.

5

Zero-Dark-Thirty_1

A Hora Mais Escura [Zero Dark Thirty], Kathryn Bigelow

Aqui é papo sério, então. Este é um filme que gerou muita repercussão, mas que muitas pessoas não entenderam, o que, apesar de tudo, não deixa de ser um desapontamento e tanto. Denuncia apenas o quão rasa pode ser, por vezes, a visão das pessoas. Kathryn Bigelow realizou um procedural de primeira linha, cerebral, tenso, complexo, a ser maturado, sobre a caça a Bin Laden. E aqui, há camadas diferentes. Pense pequeno, e você não verá nada além de uma californiana conservadora defendendo a “guerra ao terror”, a supremacia dos Estados Unidos sobre os outros países, custe o que custar. O filme te permite ir bem mais longe, se você também se permitir. Ei, Godard – nosso leitmotiv do dia, aparentemente – foi acusado nos anos 50 de ser fascista por festejar Hitchcock e Samuel Fuller e não, por outro lado, o que os soviéticos estavam fazendo na época, necessariamente. Boa parte do tempo, tenho a impressão que as pessoas tentam politizar coisas que não são políticas. Não é o caso aqui. O filme é, sim, extremamente político, mas, se ele humaniza a personagem que fez da sua vida o mote para caçar Bin Laden, não é pela via do nacionalismo moralista, auto-virtuoso. Isso é brincadeira de gente grande, e ninguém deveria esperar sair dessa história com as mãos limpas. Certamente não é essa a “mensagem” (SIC) que Bigelow transmite ao final da “opereta”. Zero Dark Thirty (até que o título brasileiro não é ruim) complexifica as coisas. Ele não levanta uma bandeira, ele não sacraliza coisa alguma. Ele mostra, ele aponta: para chegar a esse fim, tais meios foram empregados. Como isso faz você se sentir? Bigelow não nos diz o que sentir. O trabalho é todo nosso.

4

gravity-imax-poster-sandra-bullock-george-clooney-small

Gravidade [Gravity], Alfonso Cuarón

Antes, eu disse que o papo era sério. Mas eu acho que simplesmente não dá para ficar mais sério do que isso. Em que lista Gravidade não marcou presença? Parece – não vou dizer impossível – muito, muito difícil, ficar alheio ao efeito que esse filme provoca. Apenas porque, sim, é tudo tão épico – mas, ao mesmo tempo, tão intimista. Não entrarei no mérito, fãs de 2001, mas: esse filme navega outras rotas, aonde o clássico de Kubrick não comparece, não por falha, mas por não ter dada pretensão. Gravidade talvez seja o filme mais pretensioso que já vi em muito anos, e só posso afirmar isso no sentido mais positivo o possível, pois aqui está um filme capaz de bancar impressionantemente a própria ambição. É um filme sobre sentir-se humano. Não consigo descrever de outra forma. A psique de Bullock está presa na Terra, num carro, dirigindo, no rádio, na memória, no apego, em qualquer outra coisa. E seu corpo se destaca de toda a natureza e toda a técnica empregados para protegê-la. Solto no espaço, exposto em toda a sua fragilidade, imerso no terrível e grandioso medo que nos faz humanos, banhado no forever empty, no negrume infinito, querendo nada além que se salvar. Então, quando encontra uma câmara protetora, um segundo útero, reaparece o inconveniente George para lhe lembrar que a vida não é a hibernação, não é a preparação, não é se sentir acolhido provisoriamente, naquilo que mimetiza nossa segurança alentada, desejada, nostalgicamente. A vida é outra coisa, é se dispôr à perdição, sem garantias, sem seguranças, sem prever o que não pode ser previsto. E o corpo de Bullock, que ainda acolhe, bem ou mal, sua mente inquieta, procura, persegue, à deriva o começo – ou o recomeço – do que chamamos ser a vida, nas palavras da senhora Ramsay, “nossa velha adversária”.

3

master-the_jail-cell

O Mestre [The Master], Paul Thomas Anderson

Alguns dos filmes pelos quais nutro a maior admiração, o maior afeto, são filmes, com toda certeza, que não compreendo muito bem. Não compreendo, não domino, não sou capaz de explicar. Mas me atraem, como ao pólo oposto do ímã. Assim é The Master, de Paul Thomas Anderson, um filme que exerce sobre mim inigualável fascinação, mas que é recheado de buracos, vãos, que ainda não preenchi, e provavelmente nunca preencha, e tanto melhor assim. Naturalmente que o plano da prisão expressa, com a maior força do filme, a dualidade do homem, animal civilizado. Talvez eu veja muito mais de 2001 aqui do que em Gravidade. Então, há duas coisas, pelo menos. Por um lado a angústia, pungente na mesma medida que ridícula, risível, de Joaquin Phoenix, veterano de guerra, perturbado, incapaz de se adaptar à vida, seja em que esfera for. Mas há também o chamado do mestre, que pode ser qualquer coisa, charlatanice, piada, ou o caminho para a iluminação. Oh, a iluminação, nossa esfinge recorrente, ela, as uvas; nós, as raposas. O mestre chama, promessa de apaziguamento, de consolo, de utopia. Como não acreditar? Mas e o mestre – quem é? Quem é tal homem, tão sábio, tão seguro, tão ciente de tudo que não sabemos e não temos. Parece que a resposta é continuar se perguntando. Poderia até estar na magnífica música de Jonny Greenwood. Mas talvez, mais provável, esteja lá onde ainda não estamos. Esse é um desses filmes para os quais seguiremos procurando respostas.

2

screen_shot_2013-11-08_at_3.59.06_pm

Azul É a Cor Mais Quente [La Vie d’Adèle – Chapitres 1 & 2], Abdellatif Kechiche

Tudo é tão simples e comezinho em Azul que ele até poderia ser confundido com um filme ordinário. Lembro do que diz Daney a respeito do maneirismo, a respeito da dificuldade de continuar fazendo filmes depois que já se alcançou um certo nível de excelência que, na realidade, foi alcançado já há muito tempo. É o problema de um Carax: como continuar contando histórias comuns? Boy meets girl, boy loses girl, boy gets girl back. Esse é o tipo de filme, portanto, que não precisa ser “overpolitizado”. Muito se falou, em Cannes, a respeito do gesto político do júri de Spielberg, de conferir a Palma ao drama lésbico, de sua importância para a comunidade LGBT da França. E, na realidade, nas palavras de Alain Bosquet, tão liricamente evocadas no filme: “Pas Besoin”. Não precisa de nada disso. O filme é singelo e lindo, apenas pelo que ele é. Um filme sobre a solidão, verdadeiramente. Pois a solidão tem dessas coisas. Um corpo que é, no começo, só ele, só único, sozinho. Mas que não se basta, e busca outras coisas, sensações, experimentações, encontros, forma de estar vivo e reconhecer isso. O filme de Kechiche mostra isso. E realmente mostra isso: a boca imensa de Adèle, seus cabelos desalinhados, suas bochechas infantis. E aquele olhar azul, de descoberta, de uma tristeza que não se acha em si mesma, precisando de conforto, e que vai explodir, para fora de si, nas cenas de sexo, belissimamente filmadas. Depois o corpo de Adèle, e a vida de Adèle, procuram adensar-se às outras coisas que são verdadeiras, ao cabelo de Emma que deixa de ser azul, à angústia da festa da maldição de Pandora e à carência que nem o mundo inteiro é capaz de aplacar. O corpo conclui a jornada, esta, e é ainda essa solidão azul que lhe faz companhia. Tudo simples, tudo comezinho, tudo que já vimos. Mas de um jeito tão delicado e precioso, que não dá nem para explicar. Eu não consigo. Mas, felizmente, eu não preciso. “O poema do poeta é para dizer tudo isso e mil, e mil, e mil outras coisas: não precisa compreender.”

1

doors

Amor [Amour], Michael Haneke

Pois é. Quando compilei a lista dos filmes do ano, não fazia a menor idéia de qual seria o número um. Eu choquei a mim mesmo ao descobrir que era Amour. Qual outro? Bem, poderiam ser vários – ao menos, qualquer um dos cinco primeiros nomes desta lista daria um sólido número um. Por que Amour? Reflitamos. Número um em 2009: Anticristo. 2010: Como Terminei Este Verão. 2011: Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas. 2012: Shame. Entre aquele ano e este, poderia tranqüilamente ser Tabu. Todos filmes que me arrebataram de imediato, quando os assisti. Não Amour. Não foi assim. Depois de ter ouvido falar sobre as qualidades deste filme desde maio de 2012, quando ganhou a Palma em Cannes, só pude pôr olhos nele em janeiro de 2013. O resultado imediato: exagero seria dizer “quase um desapontamento”, mas, certamente, nenhum arrebatamento. Filme forte, desses que te faz pensar, dá vontade de ver de novo. Isso, sim, mas, isso, . Então, o que acontece? O filme voltou, volta, continua voltando, provavelmente, continuará. Ele retorna, semanas depois, meses depois. Não é tão fácil assim se desvincilhar dele. Aquele apartamento austero. Os velhinhos, cultos e indefesos. Hoje, um companheiro, no outro dia, “um monstro às vezes”. A vida se danifica não amanhã, não na idade que dizem ser a melhor. Amour não é para o futuro, Amour é para hoje. Não é meu Haneke favorito, mas é dificílimo resistir. Amour é a solução final, a história que Georges conta a Anne, sobre quando era criança. Mas é o que uma pessoa faz por outra, e por si própria. “Mal… mal… mal…”, Anne suplica. O tormento é intolerável. Mas, não. É tolerado. Apesar do mal. Por causa do mal. Contra o mal. Em favor do mal. Mais ainda, com o mal. Jeito gozado de ser misantropo. Georges e a pomba: ali está a poesia. Amour não foi meu filme favorito do ano quando o assisti. Mas me venceu pelo cansaço, pois coisas demais passaram, coisas demais aconteceram, mas o filme não me deixou mais em paz.

No decurso do tempo

Pilar, dessa vez não teve nada a ver com as outras. Foi de um sonho.

Eu acordava no final da aula passada, que tinha faltado. Ou da próxima aula, que não posso faltar. A professora vinha e me entregava a revisão corrigida. Tinha um ou outro errinho. Acho que eu errei a posição da expressão von beruf. Imediatamente, me veio na cabeça uma frase, com a qual eu tivera contato há pouco tempo: Der Puritaner wollte Berufmensch sein – wir müssen es sein.

Olhei ao redor e não havia mais ninguém na sala, exceto por algum colega que havia deixado suas coisas na carteira. Esse colega agora reaparece, adentrando pela sala e eu não lembro dele, não sei quem é, nunca o vi antes.

Deixei o prédio e me dirigi pra rua, onde chovia, Na verdade, tratava-se daqueles inícios de chuva, em que se sente que não faz mal pegar um pingo ou outro, contanto que logo se encontre algum tipo de proteção.

Então, eu atravessei a rua e corri até a parada de ônibus e, lá, o tempo me pregou uma peça. Pois havia dois ônibus da mesma linha que pegaria. O primeiro era imensíssimo e chegara tão adiantado, que não seria possível correr até a porta de entrada. O segundo tinha um tamanho regular, mas simplesmente não abrira suas portas, porque, afinal, havia o primeiro.

Mas havia uma série de jovens que corria desesperadamente à minha frente, certos de que se eles  corressem um pouco mais, daria tempo de alcançar o ônibus imensíssimo. Eu decidi segui-los, simplesmente porque por que não? E eles saíram correndo como loucos, e gritando, e batendo no ônibus, até que alcançaram a porta de trás e, finalmente, foram capazes de entrar no ônibus. E eu continuei a segui-los.

E no ônibus, eu escutava o que diziam e compreendia suas aparências jovens e molhadas e um pouco consternadas com qualquer coisa que poderia estar acontecendo, de um jeito britânico, de um jeito Mike Leigh, mas, ao mesmo tempo, havia também algum tipo de  doçura. de sabedoria pueril, de descontração, e isso me desconcertava.

Eu os segui até a parte frontal do ônibus, quando, ao se depararem com a aparentemente simpática cobradora, foi-lhes dada a oportunidade de passarem o cartão e continuarem a viagem do lado de cá da roleta. Eles se enrolaram nesse processo, se amontoaram, discutiram entre si qualquer coisa inteligível, o que bagunçou minha expectativa de apenas passar meu cartão e me desfazer daquele caos.

Finalmente tomei coragem pra me apresentar e fazer menção de passar meu cartão, mas minha iniciativa não foi aceita pela mulher de meia-idade e cabelos louros envelhecidos. Eu teria que descer e entrar pela porta da frente, como todo mundo.

E eles? Por que eles podiam, e eu não?

Eles eram especiais, tenho certeza que não foi essa a palavra que ela usou. Ela os conhecia, eles estavam sempre por ali, faziam aquele trajeto, eram de tal cidade, ela os conhecia. Eu tentei argumentar, sem sucesso. Diante do impasse, eu não me rendi. Outro homem jovem, do lado de lá da roleta, constrangido ou tentando me constranger, ofereceu uma nota de dois reais, talvez para evitar o desgaste. Eu disse que não. Ele insistiu, a mulher deve até ter recebido, eu disse que não, que isso não era uma coisa boa.

Foi como se sentir diante da lei: eles podem passar; você, não.

Eu desci na parada seguinte, talvez antes de onde eu gostaria.

Então, Pilar, eu acordei.

Trilha sonora: The Wolves, Bon Iver.